Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Terça-feira, Agosto 30, 2005
COLUNA TPM AGOSTO
Com certo atrazo, publico aqui a coluna da última TPM.
Essa foto tirei numa mesa de centro da minha ex-casa - na verdade um hotel onde morei por meio ano em 2004.
As novas donzelas
(TPM - Agosto/2005)
Cinco espécimes machos da raça humana bebiam cerveja na calçada de um boteco. Barbudos e sujos, vestiam trapos e chinelos de dedo. Viravam copos por horas, e horas por muitos copos. Bradando frases de efeito, apertavam mãos em quedas-de-braço: injúrias, arrotos e cusparadas entre si. Palitavam os dentes, coçando os bagos e levando os dedos ao nariz. Eu era um deles. Na mesa ao lado, o mesmo número de fêmeas confraternizava, pirilampantes. Em trajes da última moda, tomavam o chopinho de fim de tarde. A cada meia hora, uma nova rodada, sorvida com delicadeza e mindinhos flutuando pelo ar. A lua se debruçava sobre a mesa fofinha das mocinhas, estudantes universitárias gesticulando com altivez e queixinhos empinados.
Os homens sapiens (semi-erectus, já numa hora dessas) arremessavam perdigotos uns aos outros e conversavam sobre os bastidores dos jornalões, mexericos do mercado editorial e novos lançamentos da indústria fonográfica. Sobre a poesia de Vinicius de Moraes. Sobre a decadência eterna do Mengão e os recentes triunfos do esquadrão canarinho. Sobre bebedeiras passadas e as muitas que virão. Sobre o filme novo do Woody Allen. Sobre política e terrorismo. Sobre amores passados e a vida e a morte das estrelas.
A mesa das moças, percebi esticando o ouvido direito, só tinha um assunto. Não era poesia, fofoca, cinema ¿ muito menos a corrupção do erário. As moçoilas, animadíssimas e mui finas, divagavam sobre ereção. Pareciam ter experiência no assunto, pois correlacionavam diferentes biótipos e características pessoais dos espécimes estudados aos critérios de avaliação ¿ tamanhos, formatos e cores. Uma delas acredita que homens magros são mais avantajados do que os gordos. Outra disse que altura não tem nada a ver com o negócio ¿ o maior pipiu que botara na boca fora de um rapaz baixo e fracote. Falavam com liberdade indissoluta sobre o tema, gesticulando em voz alta, elegantérrimas. Ao perceber o colunista penetra, não fizeram por menos: aprofundaram-se no assunto, explorando os meandros do órgão genital masculino, suas veias, sabores, diâmetros e detalhes que fariam corar Paulo César Pereio, Jesse Valadão e o Analista de Bagé.
Voltei os olhos para meus amigos imundos, cheirando como o mictório do Maracanã, e me insuflei de pureza. Subitamente, éramos todos donzelas virgens do século 17, rapunzéis românticas, esquentando os cotovelos na janela à espera de um príncipe encantado montado em um cavalo branco ¿ e não ele, o príncipe, um cavalo branco, notem a diferença. As fêmeas erectus haviam nos roubado, naquele preciso momento, a rédea da canalhice. Jamais ouvi uma mesa de homens num bar comentando, daquela forma, a profundidade, textura e elasticidade de um canal vaginal. O máximo que acontece é, apreciando as transeuntes, um ¿olha só que gostosa¿ emitido por um bebum antiquado no balcão do bar. Nada comparável ao requinte e grau de detalhe da narrativa das nossas vizinhas de mesa.
Um dos meus amigos ogros, jornalista e pai de dois filhos, contou entre arrotos e largos goles de chope um babado ocorrido mês passado: dois adolescentes foram detidos por ter filmado a transa de um deles com uma colega de escola, menor de idade. É apenas um de muitos casos do gênero que ainda virão à tona. A menina foi filmada sem saber enquanto tentava dar prazer ao pubescente membro de um dos garotos. Os pais da menina vieram a público dizer que o rapaz estragou a vida da filha, que a menina terá que se mudar para uma cidade menor, e que ficará marcada e traumatizada para sempre. Não chegaria a tanto. Há quem diga: pior para o pobre idiota que filmou e divulgou a história. O tiro do moleque saiu pela culatra ¿ além de não saber trepar, ganhou fama de pouco avantajado e, pelo que dizem, está jurado de porrada. É um prego sem noção, um bobo, típico da idade.
O que tem a ver o caso dos garotos com as meninas do meu bar? Fundamentalmente: nada e tudo. Nos próximos anos, acredito que o destino da reputação dessa menina, tão temido pelos pais, vai provar quem, no final das contas e dos chopes, são as novas donzelas do século.
THE GIRL WITH A PEARL EARRING (Meisje met de parel)
Johannes Vermeer
c.1665-1667
oil on canvas
18 1/4 x 15 1/4 in. (46.5 x 40 cm.)
Mauritshuis, The Hague
"It is always the beauty of this portrait head, its purity, freshness, radiance, sensuality that is singled out for comment. Vermeer himself, as Gowing notes, provides the metaphor: she is like a pearl. Yet there is a sense in which this response, no matter how inevitable, begs the question of the painting, and evades the claims it makes on the viewer. For to look at it is to be implicated in a relationship so urgent that to take an instinctive step backward into aesthetic appreciation would seem in this case a defensive, AN ACT OF BETRAYAL AND BAD FAITH.
IT IS ME AT WHOM SHE GAZES, with real, unguarded human emotions, and with an erotic intensity that demands something just as real and human in return. The relationship may be only with an image, yet IT INVOLVES ALL THAT ART IS SUPPOSED TO KEEP AT BAY."
6- Você cria as suas próprias regras. Não siga as regras dos outros. Escreva seu próprio manual. (Esse aqui, por exemplo, escrevi para mim. Se eu fosse você, leitor, não usaria minhas regras.)
7- Não há porque existir alinhamento literário entre você e seus colegas de geração. Pode haver bons papos e pouquíssimas amizades. No mais e na hora de escrever, esqueça-os.
8- Antes de começar a escrever, leia algo que você escreveu antes, por mais que seja doloroso. Apure o estilo. Critique-se. E saia perdendo, sinta ódio e vergonha. Ou então, acredite que é um gênio. Acostume-se a viver entre os dois extremos. Não existe meio termo.
9- O que você escreve vai deslocar o eixo do planeta terra. Você está indo onde nenhum homem jamais esteve. Seja um lunático e não se questione por isso.
10- Esqueça sua família, mulher e amigos. Você não precisa ser responsável, evitar temas ou preservar ninguém na hora de escrever um livro. Não tenha medo de ser encarado como um sociopata. Quem te conhece, conhece. Quem não te conhece, não importa. Quem te conhece, também não.
11- Esqueça leitores, editores, críticos e filiações literárias.
Já citei declarações e trechos da obra do Autran Dourado aqui nesse espaço, mas essa entrevista que ele deu à Folha de SP merece ser copiada na íntegra:
30/07/2005 - 09h10
Autran Dourado diz que escrever não dá prazer e é uma fatalidade JULIÁN FUKS
Enviado especial da Folha de S.Paulo
Ao alto de um edifício antigo de Botafogo, numa rua outrora menos barulhenta do Rio de Janeiro, retirou-se Autran Dourado. Acorda cedo e já em horas primeiras beira prateleiras e estantes de seu apartamento à prazerosa procura por algum livro. Os pés trêmulos, as mãos trêmulas, o mal de Parkinson a afetar-lhe os movimentos, desvia-se de um e de outro objeto antigo, mineiros como seu dono. Hoje, na manhã que precede a tarde em que recebe a visita da Folha, opta por Edgar Allan Poe. Com Poe, nos espera.
Dourado aproxima-se da porta com a mesma lentidão com que, a partir da pequena cidade de Patos de Minas, onde nasceu, vem hoje aproximando-se dos 80 anos. Entre essas duas distantes e igualmente irrelevantes marcas no tempo, seu nascimento e esta entrevista, publicou, entre romances, contos e ensaios, 23 livros, alguns altamente prezados pela crítica, como "Ópera dos Mortos". Agora, até o fim do ano, verá todos eles reeditados pela Rocco, movimento que se iniciou pouco depois de ele ter recebido o Prêmio Camões de Literatura, em 2000. Em agosto, dois novos velhos títulos: "O Meu Mestre Imaginário" e "Violetas e Caracóis".
O prêmio o estimulou, sim. Ele não nega a honra de ter se alinhado a João Cabral de Melo Neto ou Antonio Candido. Mas Dourado, menos que entusiasmo, é pura resignação: em suas palavras, na voz igualmente trêmula, literatura e seus meandros convertem-se em acidente, em acaso. São pura fatalidade.
Folha - O senhor já disse que há um grupo de livros seus que pensa terem dado conta do recado. O que os dois que estão sendo relançados agora têm a acrescentar?
Autran Dourado - Sempre me perguntam, sobretudo quando vou a universidades, quais foram os autores que me influenciaram. Fiz "O Meu Mestre Imaginário" para não ter mais que responder a essa pergunta. Já estou quase com 80 anos, uma idade até vergonhosa de dizer, e em uma fase em que já selecionei meus autores. Leva-se a vida inteira selecionando os livros que se deve ler quando se está aposentado. Agora sei os livros que devo ler. E não tenho medo de clássicos. Os clássicos são necessários.
Folha - E o que seria o clássico?
Dourado - É aquele que, mesmo sem querer, inova. Alguém disse algum dia que ler Homero é chato. Mas a chatice não é uma qualidade literária para ser julgada.
Folha - A erudição é necessária ao escritor?
Dourado - A erudição é acidental, embora seja uma coisa que se busque. Quando o autor está começando a escrever, não pode pensar em ninguém. Nem em outros autores nem em seu público, porque sequer consegue saber quem é seu público. O escritor é aquele solitário. Eu não sei qual é meu leitor e não me submeto à posição de procurá-lo.
É por isso que vejo com certo escândalo o que está acontecendo no Brasil: pessoas jovens que se iniciam na literatura e querem logo vender livro. Têm vocação de best-seller. São fabricantes de livro, e o livro que você vê não resultou de nenhum esforço maior, não correu nenhum sangue por ele. Isso não é ser escritor. Vender livro é um acidente na vida de um escritor.
Folha - O senhor diz que o escritor é um solitário, e é impossível não pensar em seus personagens, que são também solitários, tomados de medo e angústia.
Dourado - Meus personagens se parecem muito comigo. Eu os conheço muito bem e sofro a angústia que eles sofrem. Não tenho nenhum prazer em escrever. Depois de pronta a obra, aí me dá uma certa satisfação, mas a mesma que dá quando se descarrega dos ombros um fardo pesado.
Folha - Se não dá prazer, então por que escrever?
Dourado - É também uma fatalidade. Você é destinado à literatura, e não a literatura a você. Escrever é uma imitação. A gente escreve feito um menino que vê o livro como um brinquedo e pensa "ah, eu quero um". Quando eu li pela primeira vez "Dom Casmurro", eu disse "puxa, eu quero o meu". Daí a necessidade que se tem de ler. Quando estou para escrever, gosto muito de ler um poema, Drummond, João Cabral. Não é o poema que eu vou fazer, mas acho que me prepara.
Folha - E que expectativa o senhor tem em relação à sua obra? Que inove sem que queira inovar?
Dourado - É exatamente isso. Não é propriamente um propósito, mas a idéia é transportar uma chama, que passa para outro e para outro. É um encadeamento de autores, de autores de uma mesma família literária. Mas eu vivi recentemente a experiência de reler minha própria obra, e me deu uma coisa quase como uma náusea. Me dá uma náusea pensar nessas perguntas todas. O que se deve procurar é escrever bem. E selecionar os poucos autores que se deve ler, que são os que aperfeiçoam o trato da linguagem. Porque literatura é linguagem carregada de sentido.
Folha - Os escritores são carapinas do nada?
Dourado - São carapinas do nada. Você citou aí um conto meu de que gosto muito: "Os Mínimos Carapinas do Nada". São os velhos que ficavam na janela de casa, esculpindo, tirando pequenas aparas de madeira, fazendo caracóis. Procurando o nada. Escreve-se para chegar ao nada. O enredo, por exemplo, é uma das coisas menos importantes no romance. É o artifício que o autor usa para prender o leitor, para engabelá-lo enquanto bate sua carteira.
Folha - E o que rouba?
Dourado - A emoção dele, sentir que ele está preso ao livro, que você o tem pela mão. E não que ele esteja com você na mão.
Folha - Escrever, então, é artifício, e não inspiração?
Dourado - Há na palavra inspiração uma certa traição. Eu prefiro "idéia súbita". Quando me vem uma idéia súbita, eu a cultivo até encontrar a forma do romance.
Folha - E sobre a possível morte do romance, que, depois das vanguardas, tanto se vaticina?
Dourado - Quando o Fernando Sabino foi passar uma temporada na Europa, ele voltou e me disse: "Você está perdendo seu tempo. O romance morreu". Eu disse: "Ô, Fernando, você está me dando uma notícia tristíssima. Porque eu acabei de deixar um romance na editora. Justo hoje você vem me comunicar a morte de um parente meu?". Não morreu. O europeu é que é muito preocupado com essas coisas.
Folha - E não vai morrer?
Dourado - Se vai morrer, eu não posso dizer, porque quem pode morrer antes sou eu.
Folha - No momento, o senhor está escrevendo alguma coisa?
Dourado - Estou preparando um livro, mas nunca mostro antes de estar pronto. Mas estou escrevendo com muita dificuldade porque estou muito preocupado com aquilo que é permanente na literatura. Que é o valor literário, sobretudo os valores formais. É um peso que aumenta com o passar do tempo. O peso de já ter escrito.
1- Tome banho gelado. Saia de casa ainda de dia. Leve uma caneta preta e um caderno pequeno com capa dura e vermelha.
2- Vá a lugares que não costuma ir, onde não possa ser encontrado por ninguém. Observe. Não tenha hora para voltar. Não leve o telefone.
3- Escreva sem saber onde vai chegar - sem saber sequer como a frase acabará. Você é melhor quando não sabe.
4- Lute contra a servidão das expectativas, mesmo que isso deponha contra você. Esqueça as admirações construídas, os aduladores e críticos. Destrua-os - só depois comece a escrever.
5- Desligue o computador. Se for extremamente necessário usá-lo, desligue a internet. Se não conseguir, corte o fio do modem com uma navalha.
Trecho de entrevista do escritor hispano-argentino ANDRÉS NEUMAN a um semanário espanhol:
"Pergunta: Você consegue atualmente se sustentar escrevendo?
Resposta: Claro, escrevendo meus livros... e duzentos artigos para a imprensa, e dando estranhas conferências, e exercícios nas salas das oficinas, e prefácios e posfácios e apêndices. É assim que me é possível chegar à escritura mais perfeita: a lista do supermercado."