Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Terça-feira, Maio 24, 2005
REPUBLICANDO
"O nosso romancista está em crise de solidão. Falta-lhe solidão. Tem de sair, de picareta, ceifando, demolindo as admirações que hão de corrompê-lo fatalmente."
Devolvi uma prova rabiscadíssima do meu conto da antologia "Dentro de um livro" para a editora corrigir. Mas depois que vi essa página do Ulisses de Joyce, toda rasurada pelo autor, fiquei mais tranqüilo - a imagem é cortesia da Cecília.
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Quem tiver muita paciência e amor no coração, pode ir ao site da CBN e procurar pelo dia 15 de maio. Depois é só clicar sobre "entrevista com o escritor João Paulo Cuenca".
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Repercussão da minha segunda ida ao Riocentro aqui. Não deixe de reparar no sorriso cor de enxofre deste que vos escreve, estampadaço ali no banner do Espaço O Globo/Estácio de Sá - parte superior direita da tela.
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Link sensacional que tomei do Cardoso que, por sua vez, roubou do Millôr.
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Ouvindo Rufus Wainwright, Keane, Bob Dylan e Bix Beiderbecke.
Acredito que se estivéssemos jogando mímica com nomes de livros e autores conseguiríamos passar mais sobre literatura ao público. De qualquer forma, o espaço é sensacional e essa foi minha primeira participação na programação oficial da Bienal do Rio. Não é pouca coisa. O público parecia novo e empolgado.
É genial olhar, mesmo que de relance, a cara dos leitores. No final, algumas pessoas pareciam ter medo de falar comigo. Mal sabem que tenho muito mais medo delas do que o contrário.
Da esquerda para a direita: Santiago, eu, Dodô e o mediador, Pedro Tinoco. Giron fez forfait.
Eu discordando do amigo Santiago e preparando o ataque.
Minha "saída" do JB deve ter repercutido de alguma forma estranha, pois na quinta, dia 5, o editor do caderno telefonou me convidando de volta. Na pressa, escrevi uma crônica de 2.200 toques (o novo tamanho), bem menor do que as anteriores. De qualquer forma, algo me diz que não vou escrever muito mais para essa nova encarnação do Caderno B. Segue abaixo a crônica.
Quando nada começou a acontecer
(Jornal do Brasil - 07.05.2005)
E foi assim: de uma hora para a outra. No início, pouca gente percebeu - dava-se um jeito, estica dali, abre a foto, espicha de cá, aumenta a coluna. Depois piorou, e cada vez mais rápido. Quando ficou sério, foi motivo de reunião e muito papo furado. E aí não havia muito mais jeito para se dar. Os jornais reduziram o número de páginas, e os telejornais, seus minutos. Mais (ou menos) ainda: diminuíram a quantidade de estações de rádio, jornais e canais de TV. Nos que sobraram, menos edições, menos "interrompemos a nossa programação", menos "plantão especial" e quase nenhum "ao vivo diretamente de". Redações sem nenhum gato, pingado ou não, para contar a história nenhuma.
As notícias deixaram de acontecer em uma tarde de sol, daquelas em que o centro fica vazio e o pessoal do escritório joga papel picado pela janela. Como folhas secas se agarrando aos galhos, os fatos do dia estancaram e esqueceram de vir à tona. Os repórteres que acompanham a escuta do rádio da polícia estranharam o dia sem ocorrência. Latrocínio, atropelamento, facada, briga de bar, pitboy dando surra nas bichas (não adianta que não vou seguir a cartilha do governo) em Ipanema? Nada. Nem sopapo de dor de corno na patroinha, bom pra botar na quarta-capa do vespertino.
O clássico no Maraca terminou empatado, assim como os jogos do Brasileirão, da Eurocopa e dos trezentos e quarenta e dois campeonatos de futebol disputados no planeta. Quando necessário, pênaltis foram cobrados e até assim os marcadores se igualaram. Horas depois, jogadores e público exaustos imploraram aos árbitros que decidissem na moeda, pelo amor da Virgem Santa que ninguém agüentava mais. Salvo interferência do pé do juiz, as moedas teimavam em cair em pé, cravadas no gramado como as balizas da meta.
Os malucos no Oriente deixaram de explodir em filas de supermercado, bandas de rock entraram em crise de criatividade, atores e dramaturgos resolveram discutir a relação, os juros e o dólar deixaram de subir (e cair), e o governo não perdeu mais nenhuma na câmara - mas tampouco ganhou. E ficou assim o mundo, nesse ramerrame sem cheirar ou feder, até que os manda-chuvas da imprensa falada, escrita e televisionada resolveram dar um jeito na realidade. Inventaram o cronista.
Acabei de saber que minha crônica semanal no JB vai "dar um tempo". A causa é a reestruturação do caderno B e a entrada de outros colunistas. Independente das minhas opiniões sobre o assunto, gostaria de agradecer aos leitores e ao jornal pelo espaço dado por cerca de oito meses a esse cronista.
Estou satisfeito com o que fiz nesses 31 sábados. Tentei recuperar algumas características que acredito estarem perdidas na crônica brasileira hoje em dia: a visão pessoalíssima do cronista sobre o fato cotidiano ou episódico da cidade, a invenção de personagens e vozes narrativas, e, acima do relato, uma abordagem lírica, poética - ou amarga, conforme os humores do titular da crônica.
Nesses meses recebi dezenas (centenas?) de cartas e o contato com um público extremamente variado foi fundamental. Sei que para alguns deixarei saudade. Mas não se enganem: a minha será bem maior.
Ao pessoal do JB que aturou meus atrasos e correções mil, deixo um grande e sincero abraço. Gostaria de ter tido a oportunidade de tomar um chope com vocês - aliás, quando forem tomar umas, não se esqueçam de mim.
Em especial, congratulo o Liberati, que ilustrou minhas idéias com brilhantismo.
Phillip Glass - Einstein on the beach
4-track valsa - Paulo e os livros
Thelonius Monk e John Coltrane - Functional
The Killers - Smile like you mean it
Placebo - Protect me from what I want
Mombojó - Discurso burocrático