webdesign:
chico queiroz

Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Sábado, Abril 30, 2005

CRÔNICA

Carta aberta para um amigo além-mar

(Jornal do Brasil, 30.04.2005)

Caro Chico, li o e-mail que você me mandou mas não tive tempo de respondê-lo antes. Fico feliz em saber que tudo vai bem por aí: os estudos, o trabalho e a mulher. Manda beijo pra Ana. Tenho saudades de vocês, temo que fiquem por aí de vez. Há dias em que acho que seria bom negócio. Lembro que você estava assustado com a leitura dos jornais brasileiros pela internet e me perguntou se o bicho estava pegando mesmo por aqui.

Está, não está. Tudo continua dando um jeito diferente de continuar igual. Os senhores barrigudos de sunga continuam tomando chope no boteco da esquina da Paissandu, as meninas com roupa de lycra continuam rebolando pelos quarteirões e os sujeitos continuam cada vez mais fortes e altos - se continuar assim, nossos netos terão dois metros de altura e 130 quilos. O nosso Mengão continua numa eterna hora da xepa, sétimo técnico em 16 meses. Fluminense levou o título do estadual num jogo roubado (como sempre) e a seleção do Parreira continua com o jogo embaçado.

A maioria dos nossos amigos continua encostada na casa dos pais, reclamando da vida, sem bom emprego e sem grana no bolso. A TV continua cada vez pior e cada vez mais batendo recordes de audiência, 80% de share, retorno total de mídia. A música que toca na rádio continua cada vez mais conchavos e jabá. A polícia continua metendo bala, os traficantes também. Lula, Garotinha e Cesar continuam agindo como três patetas do inferno. E o povo na mesmíssima: esgarçado no meio do tiroteio. A coisa aqui, meu caro, tá pretíssima.

Nunca saí tão pouco à noite. A última moda são aquelas festinhas anos 80, lembra? Perderam a graça em 1995, mas ninguém notou. Por semana aqui no Rio são no mínimo dez. Lotam o Circo Voador. No século passado, o Circo lançava tendência. Hoje em dia a tendência é a banda cover de música ruim. Barrigudinhos de 30 anos que não viveram a adolescência se olham no espelho retrovisor, ajeitam a camisa para dentro da calça, tentam recuperar o tempo perdido. Adolescentes difusos pegam nostalgia emprestada - zumbis de olhar ermo, mendigando sentido. Tocando o gado, os organizadores ganham boa grana com a indigência existencial dos outros. E quer saber? Estão certíssimos. Há de se ganhar o qualquer um e a vida.

Sabe aquela música do Bob Dylan, People are crazy and times are strange? Não chego a ficar raivoso como antes. Você deve se lembrar como eu era, Chico. Hoje só consigo sentir vazio e pena. Uma enorme pena de todos nós. Dos coroas filtrando o chope dentro de suas enormes barrigas, das moças e marombados feitos de lycra, dos chatos do Estação Botafogo, das minicelebridades da internet compartilhando solidão em diários insossos, da galera se esgoelando ao som da novidade de 20 anos atrás, dos velhos jornalistas e sua boêmia enlatada, dos novos jornalistas, sem sonho ou estofo, e dos jovens e velhos escritores, compulsivos, mascando palavras e mascarando vaidades. Pena dos três poderes: policiais, traficas e políticos. Pena do povo achando que não tem culpa, que não é com eles - digo, conosco.

De vez em quando, passa um filme no cinema ou ouço um disco bom. De vez em quando, gosto de levar a menina para dançar e às vezes dá para ir a um lugar que não esteja cheio de babacas. Fazemos um casal bonito e a amo como um pobre desesperado. Eu a transformei em personagem de crônica e os leitores gostam mais dela do que de mim. Pedem crônicas e mais crônicas sobre a menina triste de olhos verdes. Estão certíssimos. Eu também gosto mais dela.

Você contou que viu um cara muito parecido comigo no metrô de Londres. Pois talvez tenha sido eu. Se o encontrar de novo, diga que preciso de uma horinha comigo mesmo. Sabe quando o céu escurece, as nuvens pesam sobre as nossas cabeças, o ar e a luz do sol ficam de um jeito estranho e o pessoal fala ''vai chover pra burro''? Ando assim: quase chovendo pra burro.

Novidade mesmo acho que só o novo sistema de ar-condicionado e iluminação do Lamas. Ficou mais bonito. Resta saber se aquele odor inconfundível pós-Lamas, de cigarro e mofo, vai continuar. O perfume do Lamas é uma tradição aqui em casa. Desculpa tanta chatice, meu amigo. Acho que preciso de um tempo por aí. É verdade que na Inglaterra não existe chope gelado? Estou ficando velho cedo demais. Preciso sentir falta do chope gelado. E da paisagem. Essa cidade é muito bonita e a gente se acostuma. Na verdade, se acostuma com tudo, não é? Boa sorte por aí. Manda notícias. E não me leve a mal. Um grande abraço, JP.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:55 PM


Sexta-feira, Abril 29, 2005

TV

Hoje na coluna "Controle remoto" da Patrícia Kogut, no Globo:

"Quadrante"

Projeto de Luiz Fernando Carvalho, "Quadrante" está sendo orçado pela Globo para abril de 2006. Trata-se de uma série de dramaturgia assinada pela novíssima geração de escritores de várias regiões brasileiras.

(...)

Os dois primeiros textos de "Quadrante", "Corpo presente", de João Paulo Cuenca, e "Faca", de Ronaldo Correia de Brito, já estão prontos. João é do Rio; Ronaldo, do Ceará.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 9:50 AM


Terça-feira, Abril 26, 2005

Things have changed
(Bob Dylan, 2000)

I´m a worried man, got a worried mind
No one in front of me, no one behind
There´s a woman on my lap and she´s drinking champagne.
Got white skin, got assassin´s eyes
I´m looking up into the sapphire tinted skies
I´m well dressed, waiting on the last train.
Standin´ on the gallows with my head in a noose
Any minute now I´m expectin´ all hell to break loose.

People are crazy and times are strange
I´m locked in tight, I´m outta range
I used to care, but things have changed.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:38 AM


Sábado, Abril 23, 2005

O que a idéia de uma "nova literatura" realmente significa?

O José Castello publicou hoje no Globo artigo para uma série de debates do Prosa & Verso sobre a literatura nacional, "Vozes distintas - A literatura sem enquadramentos".

"Escoteiros, e não escritores, andam em grupo. Penso em autores jovens, e solitários, como Joca Reiners Terron, Jorge Cardoso, ou João Paulo Cuenca. Em outros, mais experientes, mas igualmente aferrados à própria solidão, como Bernardo Ajzemberg, Cíntia Moscovich, Rubens Figueiredo e Lívia Garcia-Roza. Como alinhá-los? E isso, se possível for, tem algum interesse?

O que a idéia de uma "nova literatura" realmente significa? Perguntando de outra maneira: o que a literatura de Terron tem a ver com a de Cuenca? Em que um romance de Ajzemberg se parece com uma narrativa de Cíntia Moscovich? Aos inspetores de escola, a constatação pode trazer desesperança. A mim, não. É justamente na impossibilidade de fixar padrões e delimitar tendências, é na resistência ao qualquer enquadramento que está, me parece, a fertilidade da prosa brasileira."


Não poderia dizer melhor. Concordo totalmente com o Castello. E acho importantíssimo que uma voz com essa importância se levante para iluminar a questão.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:26 PM

CRÔNICA DE HOJE

A história da história de uma crônica

(Jornal do Brasil - 23.04.2005)

Os leitores do Jornal do Brasil não têm como imaginar os tortuosos caminhos que a crônica faz da cabeça do cronista até o computador e, deste, até as páginas impressas do jornal. Intriga, suspense, enredos rocambolescos e reviravoltas mil. A crônica da semana passada é bom exemplo. Escrevi e enviei aos editores do Caderno B nada menos do que cinco versões diferentes, literalmente parando as máquinas do diário repetidas vezes. É quando a orelha do cronista ferve e a redação treme em revolta:

''Peraí! Pára tudo que o Cuenca corrigiu a crônica dele...'' ''Assim não dá! Assim não é possível! De novo? Que cara chato, hem?'' ''Chatíssimo! Nunca vi cronista mais enrolado...'' ''Quem ele pensa que é?'' ''Pois então! Este rapaz é um irresponsável!'' ''Não agüento mais essa enrolação!'' ''Fora Cuenca!'' ''Fora!''

Como o leitor atento deve lembrar, sábado passado estava eu no alto da serra, na belíssima Pousada da Alcobaça, acreditando na felicidade. Na sala de estar, tentava parir a crônica num computador portátil. Escrevi a primeira frase, ''este cronista tem dois amigos em São Paulo'', e empaquei. Fiquei dez minutos com as letras presas nos dedos e decidi ir até o jardim onde gastei meia hora num colóquio inesperado sobre o tempo dos sonhos com as estátuas brancas - aquelas que espiavam o jardim da Marquesa de Santos.

Aproveitando minha ausência, Antonio Prata sorrateiramente foi ao computador e continuou a crônica. Redigiu um parágrafo inteiro tecendo loas a si e tirando umas com a cara do Chico Mattoso que, inocente, dormia num sofá ali perto. Resolvi seguir a crônica daquele ponto, sem apagar ou alterar o que Antonio havia escrito. Mal sabia, mas esta decisão deu um caminho totalmente diferente à prosa e ao final de semana.

Trabalho feito, meus amigos vieram ler. Muxoxaram feio. Chico ficou mortalmente ofendido com a brincadeira do Antonio. Sensibilizado, resolvi compensar sacaneando Antonio também. Desta vez foi Antonio quem ficou magoadíssimo com o cronista. Mal sabem meus amigos que esta é a forma desastrada que encontrei para dizer que os amo.

Na tentativa de equilibrar o que, altura dessas, já não era mais crônica e sim um samba do crioulo doido, acabei enviando diversas versões ao jornal, causando ressentimento e comentários maldosos pelos corredores das novas instalações do Jornal do Brasil. No meio da noite, acordado por um chamado de consciência, fui ao computador e aliviei o tom. Nada adiantou. A versão publicada foi uma intermediária, onde Chico é poupado e Antonio, de algoz, passou a vítima.

Fato é que, dois dias depois, recebemos o JB e pegou mal. O que era para ser camaradagem e deferência se transformou numa saia justíssima, daquelas que as lolitas usam aqui no Flamengo. Evidentemente a família do Antonio não concordou de jeito nenhum com aquela história de ''tatu com dislexia'' e Chico ficou parecendo um grande sedutor, latin lover das letras nacionais. Nem tanto ao céu, nem tanto à serra. Antonio é também um galã com ar espanhol e fãs por todo o país, e Chico tem sua parcela de tatu com dislexia e problemas no intestino, como todos nós, afinal.

Constrangimentos à parte, o texto foi mal recebido por todos. Outro amigo de São Paulo, Pablito Werneck, ficou enciumado: ''Para ser seu amigo também preciso tentar te matar?'' Leitores indignaram-se: ''Tanta coisa acontecendo no mundo e você enchendo a cara em Petrópolis?'' A única que ficou feliz com a história foi a menina triste de olhos verdes, fielmente retratada semi-vestindo um sensual biquíni, bronzeando suas constelações de pintinhas na beira da piscina. Depois de tudo, é sempre ela quem incondicionalmente apóia o cronista em seus erros e acertos (um acerto para cada 11 erros, em média), abre os olhos do mundo através dos seus e, no que perigosamente vem se tornando uma tendência à repetição, termina a crônica.

---

Essas últimas duas crônicas foram bastante tolas - reflexo do ânimo do cronista, querendo pegar sol.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:33 PM


Segunda-feira, Abril 18, 2005

RISCO

Achei aqui um poema bobíssimo que escrevi em outubro de 2001 (!). É sempre um perigo publicar poesia, mas lá vai. Eu não lembrava do poema. É engraçado ler coisas que escrevemos e que não lembrávamos mais.

Insones

Cúmplices insones
fumam em janelas acesas,
sob o fardo da noite alta
espiam madrugadas alheias.

Alimentam de sonhos
o cinzeiro na sacada,
deixam cair o escarro
amargo pela calçada.

Só mais uma garrafa
e rola abaixo a porta do bar,
o bueiro sorve mais um dia
escorrendo a verve do popular.

E nessa valsa estranha,
cai o sol, sobe a noite,
sob a nuvem escura,
nas costas desce o açoite.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 11:18 PM

Estátuas brancas conversam sobre o tempo dos sonhos

(Jornal do Brasil - 16.04.2005)

Este cronista tem dois amigos em São Paulo. Antonio é quem eu queria ser quando crescer - embora, aos 26, não acredite que isso ainda seja possível. Chico, meu outro amigo, é quem eu queria ser hoje. Toda vez que nos encontramos, montanhas são engolidas pela terra, crianças cospem bolas de fogo e mocinhas gritam pelos botecos da Lapa e da Vila Madalena. Quixotes embalados a álcool e paixões arrebatadas, eufóricos e desatinados, peripatéticos fervendo e fechando bares, expulsos por rodo, água e sabão pelas madrugadas do Rio, São Paulo e Parati.

A única coisa que os dois têm em comum, além do trato com as letras, é que ambos já quase mataram o cronista. De resto, nada. Enquanto um é alto, o outro tem um metro e meio de altura. Enquanto um é conhecido na Mercearia São Pedro como ''jambo gostoso'', e recebido no boteco por suspiros e pelinhos arrepiados na espinha vertebral de estudantes de Letras e Veterinária, o outro é tão sensual como um tatu com dislexia e problemas no intestino. Apesar das diferenças, ambos têm lugar no peito do cronista e nos palpitantes corações de um úmido exército de admiradoras por todo o país.

Chico ficou perto de tirar minha vida na idílica cidade de Parati, quando lá estávamos submersos em pedra, esquinas e ossadas, trabalhando por encomenda do nosso saudoso (ainda em vida) amigo, o grande macaco com asa e bico de tucano. Nossa rotina, nos 20 dias em que estivemos por lá, era beber, tropeçar nas pedras e falar nonsense, fazendo o tempo passar. Pois foi justamente quando estávamos ocupados com estas atividades importantíssimas que jambo gostoso por pouco não fez daquela a última noite da minha curtíssima vida.

Estávamos os dois, vejam bem, num forró flutuante animadíssimo. Dois pés-de-valsa esbanjando molejo na arte do rala-coxa e do vem-cá-meu-bem. Madrugada adentro, já com as pernas tremelicantes, resolvi ativar a função filtro Europa do meu corpo, altura dessas já inumano, e fui até a rua dar uma aliviada na pressão hidráulica. Como tinha as mãos ocupadas, equilibrei a lata de cerveja na cabeça. Nesse momento, Chico jambo gostoso pegou uma pedra solta do calçamento de Parati e arremessou-a contra mim. Alegou posteriormente que queria reproduzir a cena da popular historinha do Guilherme Tell. Por sorte e para o azar dos leitores deste jornal, a pedra espatifou a lata e poupou o cronista. E foi assim que Chico Mattoso quase me matou.

Antonio atentou contra minha sorte em São Paulo. Éramos dois alucinados entrando e saindo de bares, boates, clubes de strip e casas de bingo numa noite vazia e sem estrelas, de céu arroxeado e triste. Quando resolvemos nos enfiar no décimo segundo buraco da, em suas palavras, ''balada'', aconteceu que Tuninho se perdeu. Era madrugada, era um viaduto ali perto do Largo do Arouxe, e era muita cerveja e desilusão. Nos perdemos e Antonio entrou na contramão. Ao longe, vi dois pontos de luz. Cresceram. Era um bólido preto, vidros fumê e música alta. Vinha na direção contrária em gigantesca velocidade. Freamos todos. O carro, como toda São Paulo, estava lotado de japoneses. ''Tá louco, meu?'' Enquanto os japas tripudiavam, Tuninho tremia, apavorado. Depois de andar em círculos sobre e sob viadutos intermináveis por mais uma hora, finalmente conseguimos encontrar o caminho para fora do labirinto de espelhos e cimento onde nos metemos. E foi assim que Antonio Prata quase me matou.

Sobrevivente, escrevo as mal traçadas da semana na Pousada da Alcobaça, em Petrópolis, de propriedade da família do Tuninho. Em gratidão pelo trauma provocado, Antonio invitou o cronista e a menina triste de olhos verdes para uma temporada de um mês. Tudo aqui é deslumbre e maravilha - o cronista está tirando a barriga e a alma da miséria. Ocupo um quarto da casa de 1914, com vista panorâmica para o enorme e florido jardim, onde estátuas brancas que já espiaram a Marquesa de Santos conversam sobre o tempo dos sonhos, a cor das estrelas e dos olhos das meninas. A comida é incrível e a companhia melhor ainda. Enquanto escrevo, vejo a menina triste tomando banho de piscina (ela fica muito bem de biquíni). Rindo das besteiras que Chico e Antonio falam, dou um gole na cerveja geladíssima. Depois de tanta confusão e tantos quases, o cronista chega até a acreditar que pode ser feliz.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:39 PM


Quarta-feira, Abril 13, 2005

REPERCUSSÃO

O Secretário de Saúde de Nova Iguaçu, terra de 18 dos 30 mortos da chacina da vez, me enviou email parabenizando pela crônica de sábado no JB ("Banho de sangue no calçadão carioca"). Pediu também uma cópia do texto para distribuir por lá.

Essa semana, também recebi correspondência de uma menina que leu uma coluna da TPM ("Cinco segundos") e, logo depois, tirou várias cópias na xerox da faculdade para distribuir para amigos.

Fico muito feliz em atingir dois tipos de público tão diferentes.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 8:20 PM

LEMBRETE #2

Entre todas as coisas proibidas neste mundo de meu Deus, a maior delas deveria ser EU beber GIM-TÔNICA.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:43 PM


Domingo, Abril 10, 2005

LEMBRETE

"Mas nós não entramos nisso aqui justamente para evitar responsabilidade?"

Frase de Russell Hammond (o guitarrista com "mystique") em "Almost Famous" (Cameron Crowe).

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 11:24 PM

NA TPM DESTE MÊS

O primeiro ocupante



O maior prazer que tenho quando me hospedo em um bom hotel é a impressão de ser o primeiro ocupante do quarto. Como se fosse o primeiro a abrir a porta - o prédio recém-construído e eu hóspede inaugural. O tampo da privada tem um lacre de papel, o banheiro está desinfetado, o chão aspirado, os lençóis limpos e esticados. Com estes e outros cuidados nas mãos das arrumadeiras, temos a impressão de que ninguém jamais dormiu naquela cama, assoou o nariz na pia, mijou no chuveiro, sentou-se no vaso ou manchou o forro do colchão. Os espelhos da parede ou do armário também parecem nunca ter refletido corpos de estranhos, brigas de casal, crises de choro e cenas de sexo - bem ou mal remunerado.

A assepsia sofrida pela suíte é ilusória. Nos faz acreditar em certas mentiras. Por exemplo: que um senhor de meia-idade, participando de uma convenção de dermatologistas, jamais se masturbou sobre a colcha assistindo crianças dançando em um programa vespertino qualquer. Ou que nunca um bebê sujou as calças, uma criança teve pesadelos terríveis, uma menina triste sonhos de paixão, um casal noites sem calor - cada um voltado para um lado da parede. Que ali ninguém tenha começado a morrer, e que talvez outra vida não tenha sido gerada. Tudo sobre a cama onde você joga seu corpo depois de tirar os sapatos, o travesseiro onde pousa a cabeça e cochila tranqüilo.

Com alguma boa vontade, o hóspede pode até afundar o corpo na banheira sem pensar nos fluídos, pentelhos e bilhões de microorganismos de cada ser humano que se banhou por ali. Pode ligar a pia sem imaginar os dedos sujos e nervosos que antes acionaram o fio d´água, frementes por limpeza e redenção. Ou encostar a cabeça no fone sem fantasiar as diferentes orelhas, peludas e sebentas, que, pressionadas contra o aparelho, ouviram desabafos, julgamentos e declarações de amor.

Ontem você chegou aqui em casa como sempre: perfumada, cabelo molhado, abraço e sorriso aberto. Encolhendo os ombros e os olhos, chorou um pouco, abraçou os ombros e fez charme. Depois, batata recheada, almoço e cama. Nossa coleção de pequenas intimidades. Amei você como nunca e sempre, dormindo sobre o meu peito, tão pequena dentro de si.

Quando estou com você, tenho a impressão que sou seu primeiro ocupante. Como se eu fosse o primeiro cara - e você uma virgem de quinze anos. Em pouco tempo, criamos uma lista interminável de primeiras vezes, o que me faz acreditar ainda mais nessa mentira reconfortante. E então me jogo nos seus braços, boca, pernas e cheiros acreditando que você nunca: lambeu outro pau, levou porra na cara, nos lábios, no rabo e no cabelo, rebolou, gritou ou falou sacanagens no ouvido de outros homens. Acredito também que nunca suaram sobre você: gordos, magrelos, altos, fortinhos, baixos, lisos ou peludos. E que você não se lembra de nada: tamanhos, gostos, formas, cores, motéis, sabor de caipirinha ou marca do automóvel.

Acredito porque você não tem do que se lembrar. E não há ninguém a reconhecer. A assepsia sofrida pela suíte é ilusória. Nos faz acreditar em certas mentiras. Se pensasse o contrário, não conseguiria deitar na nossa cama à noite - ou na cama do hotel. Elevadores e aviões não têm pisos transparentes. Cortinas são intransponíveis ao olhar. Alguns vidros são opacos, alguns assuntos proibidos. Não se costuma passear na beira de precipícios - ninguém gosta de sentir vertigem. Ninguém quer.

Às vezes acho que minha cabeça, além de não ter paredes, não tem arrumadeiras, desinfetantes e aspiradores de pó.

---

A foto é do Christiano Menezes.

---

Aos caríssimos e fiéis leitores, nunca é demais: MUCHAS GRACIAS.

Ando meio sentimental. Essa lida às vezes é uma foda.


---

A Renata Leão da TPM disse que essa coluna causou uma polêmica terrível na redação da revista. Muitas funcionárias, algumas revoltadíssimas, me acusaram de machista.

---

Sobre a crônica do JB de ontem. Propositalmente fugi do que normalmente faço por lá por achar que era a melhor forma de abordar o tema (logo eu, homem dos "menores assuntos e maiores parvoíces") e causar o efeito desejado. Espero que tenha funcionado. Eu costumo atirar de olhos vendados - e muito longe do alvo. NUNCA dá para saber o que cada um vai entender.

Confesso que dessa vez fiquei um pouco apreensivo.


---

Machista não. Machongo!

---

(...)

Bingo!

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:08 AM


Sábado, Abril 09, 2005

CRÔNICA DE UM SÁBADO ENSOLARADO

Banho de sangue no calçadão carioca

(Jornal do Brasil - 09.04.2005)

O massacre de 30 cidadãos, entre mulheres, crianças e trabalhadores, executados friamente por policiais militares na noite de 31 de março, ficará para a história como o definitivo ponto de virada para a crise institucional do país. A opinião é unânime entre analistas políticos e articulistas dos maiores jornais do Brasil. O repúdio popular e a reação do governo à chacina foram imediatos. No dia seguinte ao crime, o secretário de Segurança Pública, junto ao governador do Estado e representantes da Prefeitura, deu entrevista coletiva anunciando estado de emergência no Rio e divulgando medidas a serem tomadas. Cerca de 200 agentes da Polícia Federal, 3 mil policiais e 5 mil militares foram mobilizados e deslocados para a cidade com o objetivo de esclarecer o caso.

O presidente Lula respondeu com rapidez aos anseios da população carioca e transferiu seu gabinete para o Palácio da Guanabara, onde despachou com o ministro da Justiça e autoridades militares no Quartel General da chamada Operação Viva Rio. A repercussão internacional do incidente não teve precedentes e, dentro do país, as manchetes sobre os desdobramentos do massacre chegaram a ofuscar a morte do papa João Paulo II.

A mobilização não foi só do poder público: integrantes dos movimentos Viva Rio, Basta! e um sem número de Ong's organizaram o maior protesto contra a violência já visto: pelo menos três milhões de pessoas foram às ruas. Vestindo branco e com as mãos dadas, abraçaram a orla carioca e pediram paz. Os nomes e rostos das 30 vítimas se transformaram em bandeiras erguidas pela multidão - símbolos do clamor popular por justiça contra os criminosos. Na manhã do protesto, todos os jornais do Rio foram às ruas com as capas brancas, sem fotos ou manchetes: apenas a palavra ''PAZ''.

A dona-de-casa Beth Bernstein, 42, foi uma das testemunhas da tragédia que comoveu o país. Ela assistiu impotente à morte do filho Caíco, de 14 anos, e do marido, Romeu Bernstein. Os dois jogavam vôlei na praia. Eles e mais sete pessoas que estavam na areia foram mortos a tiros, sem chance de defesa. O assassinos chegaram ao cair da tarde no chamado Baixo Bebê, na Praia do Leblon, ponto de encontro conhecido de mães e crianças na orla carioca. Depois, seguiram para Ipanema, onde abriram fogo em uma loja de sucos na Praça Nossa Senhora da Paz.

No caminho, fizeram vítimas escolhidas aleatoriamente pela Avenida Vieira Souto e Visconde de Pirajá. Por último, metralharam o Bar Garota de Ipanema, muito freqüentado por turistas e famílias do bairro. Em poucos minutos, promoveram um banho de sangue em plena Zona Sul carioca.

Os adultos mortos eram, em sua maioria, estudantes, funcionários públicos, turistas, administradores de empresa e aposentados - gente simples que saíra de casa para escapar do calor e conversar com amigos. Apenas dois tinham registro policial: um adolescente com passagem por porte de drogas e outro por briga. Rapidamente comprovou-se que a chacina nos bairros do Leblon e Ipanema, cartões-postais conhecidos internacionalmente, foi uma retaliação contra a operação ''Navalha na Carne'', criada para apurar, identificar, prender e expulsar policiais envolvidos em crimes.

Apesar do sentimento generalizado de revolta e consternação, a opinião pública está convencida de que a carnificina promovida no dia 31 de março não ficará impune como tantas outras. A rápida atuação do poder público, com a prisão de todos os envolvidos, e a gigantesca repercussão do caso avalizam a crença de que, desta vez, ''é para valer''. Nos últimos dias, os morros e favelas da cidade foram tomados pacificamente pelo exército que, a exemplo do que vinha fazendo na intervenção federal na Saúde, abriu postos médicos e de assistência social em dezenas de comunidades carentes.

A crença geral é que o problema de corrupção policial está intimamente ligado ao tráfico de drogas e a socialização destas comunidades. O Bird, sob a chancela do Banco Mundial, já garantiu ao governo Lula cerca de US$ 2,5 bilhões para a urbanização de áreas carentes e qualificação de seus moradores, além de US$ 800 milhões para treinamento e remuneração das polícias.

Nos corações de todos os cariocas existe a esperança de que o Massacre do Rio, como a imprensa internacional o chamou, não tenha sido em vão. Os assassinos ceifaram covardemente os sonhos de 30 pessoas, mas não conseguiram abalar os nossos. O grito de ''Nunca mais!'', tema da campanha publicitária deflagrada após a chacina, não está somente em camisetas, outdoors e na música-hino gravada por nove entre dez medalhões da MPB, com renda destinada às famílias das vítimas. Não está somente nos spots de TV e nos anúncios de jornal. Está na garganta de cada um de nós, cidadãos do Rio e do Brasil.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:50 PM


Segunda-feira, Abril 04, 2005

RECADO PARA A RAPEIZE DO GOOGLE

Eu não sou o Papa.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 11:38 PM


Sábado, Abril 02, 2005

Perdendo a conta dos chopes no Nino

(Jornal do Brasil - 02.04.2005)

Estou na inauguração de um bar e acabei de perder a conta dos chopes. Quando você começa a beber, sempre conta o número de chopes que bebeu. Um, dois, três, quatro, treze. É um jogo infantil. Perder a conta dos chopes acontece se você passou do oitavo ou se você está bebendo de graça. Eu estou bebendo de graça. Tento sorrir para meus colegas de mesa, aceno para algum conhecido que aparece, faço um gracejo idiota para alguém que acabei de conhecer. Sou um engraçadinho espirituoso. O som infernal de vozes e copos se chocando ressoa pelas paredes recém pintadas de verde-limão. Estamos todos histéricos, rindo e se esfregando como hienas epilépticas.

Termino de beber a exata tulipa que me faz perder a conta dos chopes. O eficiente garçom imediatamente me serve outra. Nesse estágio, beber é como injetar fé na humanidade. Como diria o Nelson, o sujeito que bebe atravessa um estado alcoólico que não é ainda o pileque. Perder a conta dos chopes é assim. Há mocinhas que perdem a conta no primeiro ¿ antes mesmo de dar um gole. Outras, resistentíssimas, encaram maratonas e bebedeiras intermináveis. Fato é que, enquanto o homem três (e apenas três) doses acima é mais charmoso, "denso, amoroso e lúcido"; a mulher que bebe costuma imediatamente descer vários degraus da traiçoeira escadaria da elegância. Desbocada e estrepitosa, acende um cigarro e gargalha com a boca aberta, cuspindo os dentes sobre a mesa. Dia seguinte, maquiagem borrada, muxoxo e dor de barriga.

A leitora indignada: "porco machista!" O cronista diz que não é bem isso, não é bem assim. O homem é um pobre coitado - precisa beber para empatar com o mundo. A mulher já ganhou. Nasceu com o mundo ganho. O sujeito bebe em busca de aprimoramento pessoal. A mulher não tem o que melhorar. Ela já é melhor. Se melhorar, ela estraga.

Perco a conta dos chopes na inauguração de um bar na esquina da Domingos Ferreira com a Bolívar, em Copacabana. Ali onde ficava o Nino. Morei na Bolívar com meus pais até fazer três anos de idade. Desta época, só guardo as fotos de uma criança gorda brincando na areia branca ao lado de um casal apaixonado. Da mesa onde estou, vejo o pirulito da esquina onde devo ter passado tantas vezes indo para a praia sentado num carrinho de bebê, com um boné na cabeça, segurando um balde de peixe vermelho. E talvez tenha perdido demais a conta dos chopes: penso em como roubar a placa azul da Rua Bolívar.

(Embriagado, sou tomado por uma obsessão inexplicável por sinalização urbana. Já roubei cones de trânsito e levei placas de esquina para casa algumas vezes. Com os cones, penso em fazer uma mesa para a sala de estar. A última placa foi roubada da esquina da Rua Cosme Velho com Marechal Pires Ferreira. Virou pôster na parede do quarto do meu irmão.)

Olho para um canto e vejo o Nelson pedindo uma Lindóia e uma dose de uísque. Agora não tem mais Nino, e as crônicas do Nelson no Nino, e os amigos do Nelson no Nino e tanta gente que freqüentava o Nino, se conheceu no Nino, se apaixonou no Nino e rompeu relações eternamente, para nunca mais voltar a se ver, no Nino. No entanto, estou aqui, sentado no bar frio e sem alma onde ficava o Nino. Agora não tem mais a criança feliz e o casal apaixonado morando num apartamento pequeno no final da Bolívar. No entanto, estou aqui, sentado: perdendo a conta dos chopes. Não importa que não tem mais Nino. Não importa que não tem mais a criança, o cronista, o casal. Não importa que não tem mais a paixão, morta em noites claras como essa. Não importa que botaram um bar fingindo que é botequim com as pares pintadas de verde-limão no lugar de tudo.

Pelo menos não é um McDonald´s.

----

Antes que entendam mal: eu sei que Nelson Rodrigues não bebia álcool. Mas na minha crônica embriagada, ele bebe.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:35 PM


Sexta-feira, Abril 01, 2005

VIVENDO O SONHO

Meu amigo Alexandre Nix, sujeito de memória prodigiosa, acabou de me lembrar que exatamente há dois anos fui demitido do meu último emprego como economista.

Dois anos.

Hoje inauguro o primeiro de abril como um feriado particular.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 11:21 AM

"CULT-BOÊMIO"

Hoje na coluna da Heloísa Tolipan:

"O dono da banca

O sambista *Moacyr Luz*, o cartunista *Jaguar* e o escritor *João Paulo Cuenca* deram o tom /cult-boêmio/ à inauguração da filial de Copacabana do Boteco Belmonte, anteontem. Em meio à movimentação dos garçons com bandejas de chope, salgadinhos e sanduíches, o dono do estabelecimento, *Antônio Rodrigues*, se estressou com um senhor grisalho que estava na casa sem ser convidado e deu uma /carteirada/, se dizendo desembargador. De nada adiantou. Foi posto para fora. Detalhe: a penetra oficial das festas cariocas, a louríssima *Graça Borges*, foi muito bem servida."

---

Minha crõnica de amanhã se passa na inauguraçao desse Belmonte, esquina de Bolívar com Domingos Ferreira.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:50 AM
archives

on-line

João Paulo Cuenca/Male/21-25. Lives in Brazil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro/Copacabana, speaks Portuguese and English. Spends 60% of daytime online. Uses a Fast (128k-512k) connection. And likes Música/Cinema.
This is my blogchalk:
Brazil, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Copacabana, Portuguese, English, João Paulo Cuenca, Male, 21-25, Música, Cinema.