Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Sábado, Março 26, 2005
DO SÁBADO
Cerveja quente no show do Lení em Copacabana
(Jornal do Brasil - 26.03.2005)
''Qualé, rapá! Entraê! Tá com medinho, é? Playboy tem que ficar mermo em casa!'' Era o quarto vagão de metrô lotado que o bucha deixava passar. Como milho em conserva, milhares de contribuintes se espremiam para ver o aguardado show do Wando internacional em Copacabana. Muitos deixaram para lá, mas o bucha é como o brasileiro do comercial: não desiste nunca.
Pegou um táxi e 40 minutos de engarrafamento. Saltou na Rodolfo Dantas, onde o panorama era desalentador. Ruas tomadas por hordas enfurecidas, bondes do terror, gritaria, assaltos, mulheres chorando, correria e gente mijando por toda a parte. Parecia uma pintura do Hieronymus Bosch. Na Avenida Atlântica, o bicho continuava pegando feio. Desmaios, senhorinhas sendo carregadas e casais discutindo a relação. Sobre as nuvens, Nossa Senhora de Copacabana mandou São Pedro e Oxumaré abrirem as torneiras para limpar a barra do populacho. Choveu baldes.
A distância entre a calçada do Copacabana Palace e o cercadinho vip, que apertava mais ainda o zé-povinho na areia, parecia intransponível. Trinta cabeças por metro quadrado. Bêbados, moças de guarda-chuva, senhores de chapéu ou pivetes, não importava: todo mundo reclamava da muvuca, do atraso e da chuva. ''E aê, quando é que vai começar o show do Lení?'' O Lení chegou, deu uma rebolada, falou inglês com o povão e levou uma gelada. Mas o bucha não estava interessado no palco. Sua missão era outra.
Depois de uma hora de perrengue, pisadas no pé, arranhões, mordidas de mosquito, cascudos, areia nos sapatos, concussões, tentativas de assalto, patoladas, empurrões, pescotapas e chuva na lata, o bucha conseguiu. Encontrou-me no cercado do camarote, tomando uma cerveja e olhando para o céu. É que para alguns desavisados o cronista também é vip. Não nas acepções clássicas do termo, como ''Vagabundos Incensados Proxenetas'' ou ''Vim Inalar Pó'', entre tantas outras. Mas sim como ''Valentão Inútil Pós-moderno''. Ou pelo menos é assim que as assessoras de imprensa me classificam nos seus caderninhos secretos.
Trinta metros quadrados por pessoa, bebida gelada, acepipes, loiras de shortinho e canastrões bombados: todo mundo se achando o sal da terra. Um zoológico de ovelhas tosquiadas agindo como leões e leopardos. Eu me apoiava nas grades da jaula quando fui surpreendido pela aparição mulambeira do bucha e sua pergunta fora de contexto. ''Cuenca! Cuenca!'' - o bucha gritava em meio a um solo de guitarra cheio de caretas do Lení. ''Eu vim até aqui só pra te fazer uma pergunta. Você me responde e eu me mando, não te encho o saco!'' Aceitei o acordo, aparentemente vantajoso.
''É muito simples, Cuenca! Eu quero saber se existe mulher bucha! Existe isso, Cuenca?'' Não ouvi direito. ''Mulher quando toma fora do namorado, fica buchando que nem eu, Cuenca? Me diz!'' Sem saber, o bucha reprisou a pergunta que já fizeram ao cronista centenas de leitores e mocinhas via e-mail e carta. Sempre respondo da mesma forma. Desta vez, tentei ser delicado com o coração esgarçado do amigo, seus olhos metafísicos de passado e pureza esquecida. Pedi outra cerveja ao garçom. Ofereci um gole ao bucha, que usou o líquido para limpar o joelho ralado, e tasquei-lhe a real.
''Meu caro bucha, infelizmente sobre este planeta jamais passou ou passará uma mulher bucha! Quando levam um pé na bunda, as moças compram um vestido novo e saem por aí, recolhendo elogios e assobios. No máximo, ficam com dor de barriga por uma semana ou duas. E é só.
Vou te contar uma história: certa vez, amigo meu levou o filho numa boate de moças fáceis - se é que você me entende. Dançavam peladas e se ofereciam aos clientes. O garoto devia ter uns 16 anos. Ficou impressionadíssimo! Saiu dali se achando um grande galã. Porque todas as meninas da boate disseram: você é lindo. Todas as meninas olharam para ele dentro dos olhos. Entende? No dia seguinte o moleque foi a uma festinha de colégio e não causou nenhuma impressão. Ficou desolado.
Por que te conto isso? Porque é como se as moças vivessem sempre no mundo do moleque dentro na boate. Não importa se são bonitas ou feias, gordas ou magras, elas sempre vão ouvir elogios e galanteios mil. No mundo de fora da boate, os homens fazem o papel das moças fáceis. E por mais que não admitam, meu caro bucha, elas adoram! Não vivem sem os nossos olhos de espelho! E, sobre o espelho, você sabe: ele não importa. O que importa é o reflexo.
Há outros motivos para que não exista mulher bucha, mas essa história é suficiente para ilustrar a resposta. Agora vá! Suma da minha vista e reflita.''
O bucha misturou-se novamente à multidão, cabisbaixo. Depois disso, minha cerveja esquentou definitivamente.
''Outro dia vi um filme que tinha um cão farejador, sabe como é? O cachorro fuçava a roupa e as sacolas de todo mundo. Era um bisbilhoteiro! Depois de escarafunchar os passageiros (a cena era em um aeroporto), o cachorro não queria parar e ficou cheirando os policiais, bufando e babando daquele jeito dele. Aí não teve jeito: fiquei o filme todo rindo sozinha. Era o cachorro que me lembrava você.''
A menina triste de olhos verdes mandou essa na minha fuça ontem antes de dormir. Depois gargalhou alto, esticou os braços num espreguiço, me olhou muito séria e se recolheu aos seus aposentos. Deixou o cronista com mais essa atravessada na goela. Entender mulher não é moleza - e não é de hoje, que o diga Dom Pedro III. O problema já virou até papo de cientista. Na semana passada, um consórcio internacional divulgou com estardalhaço que o cromossomo feminino X é ''definitivamente o mais extraordinário no genoma humano em termos de seus padrões hereditários, de sua biologia única e da sua associação com doenças humanas''.
Depois de 12 mil anos de muxoxos, beicinhos, variações de humor e comportamentos absurdos como: abrir a porta de carros em movimento, chorar vendo comédia romântica, enjoar sem motivo aparente e brincar com os dedos dos pés; comprovou-se cientificamente que as mulheres são ''muito mais variáveis do que se imaginava e que, quando se trata de genes, são mais complexas que os homens''. Faltou dizer que as moças são mais complexas quando se trata de qualquer assunto, não apenas genética. A conclusão não é novidade para nenhum vassalo deste planeta com pelo menos uma fêmea no currículo. Os cientistas internacionais poderiam ter gasto melhor seu tempo pesquisando fusão a frio, efeito placebo ou representando o samba de mulatas em equações complexas de trigésimo quinto grau.
Volto ao cachorro, antes que eu mesmo comece a babar no jornal. ''Era o cachorro que me lembrava você.'' Fiquei matutando caninamente na frente do computador. Não há dúvida de que escrever guarda alguma semelhança com o farejar do cachorro. O sujeito vive inescrupulosamente fuçando o mundo, a bunda e os próprios pensamentos em busca de alguma idéia que preste. Quando acha, abana o rabo e a caneta no papel.
Não obstante a curiosidade deste cronista sobre os menores assuntos e as maiores parvoíces, o cão que escreve precisa estar com o olfato ligado ao mundo. O problema é que, muitas vezes, o entorno sai perdendo. Por exemplo: hoje pensei em escrever uma crônica, infelizmente fantasiosa, sobre nosso prefeito e seu secretário de Saúde, mauriçolas e incompetentes, procurando atendimento em um hospital público da cidade. Mas a pauta caiu com a frase da menina triste de olhos verdes que me foi puxando entre outras idéias e por aí vai - e foi. O ''parem as máquinas'' do cronista-cão pode ser um chope bem tirado, uma folha caindo sobre uma poça d'água, um moleque tocando flauta dentro do ônibus ou a menina - sempre a menina.
Dizem que cada ano dos cachorros vale por sete. Um cão com dois anos é um adolescente e uma cadela com cinco é uma balzaquiana. No seu relógio, cada segundo tem intensidade sete vezes maior. O passeio de 15 minutos do cachorro dura, para ele, uma hora e 45 minutos. Quando a família viaja no feriadão, o cão mastiga chinelos e rói cadeiras com muita justiça: não deve ser fácil ficar trancado por um mês. Na segunda-feira, bronca e festinha. E o bicho dá voltas em torno de si, pula e late alto - comemora eufórico. Depois, deita no chão frio de azulejo e dorme um sono de dias, sonhando frangos de padaria em branco e preto.
Quando estou com a menina triste de olhos verdes, também é assim. Nosso primeiro beijo durou dois minutos e 23 segundos. Para mim, 16 minutos e 40 segundos. Depois nos olhamos calados por 30 segundos. Para mim, três minutos e meio. Quando vamos ao cinema e ela, antes de sair, pinta os olhos e se arruma na frente do espelho por dez minutos, a minha ampulheta canina marca uma hora e dez minutos de espera. Por dentro, meu relógio corre acelerado, segue o ponteiro do cachorro, sua pressa e intensidade inumanas.
Vai ver é por isso que lembro o cachorro. Por trás dos olhos do cão há a certeza de que seu tempo dura mais - e de que ele dura menos.
"Se um escritor não acreditar que sua própria escritura é uma das atividades mais importantes da civilização contemporânea, deveria fazer alguma outra coisa que julgue ser... Tornar-se um funcionário capacitado do serviço social, ou um conselheiro de investimento para a Igreja Unitária, ou um inspetor da redução de ruído."
A saída do Metrô da Carioca para a Rio Branco desemboca em um corredor formado por mostradores de livros usados, colares de artesanato, pinturas naïf e vendedores de CDs piratas -- os discos, não os vendedores. Ali, abrindo caminho entre a multidão de homens e moças de escritório, um sujeito com o rosto pintado de palhaço se equilibra sobre pernas-de-pau enquanto brinca com uma criança. A senhorinha olha o anúncio no peito do homem e puxa o filho pelo braço, horrorizada. O palhaço faz propaganda de uma loja de produtos eróticos.
Ademir, o dono do saxofone, interrompe um trinado e chama o perna-de- pau da sex shop. Anota o nome de um filme pornô no papel. ''Nesse aí, me contaram que tem uma cena onde o casal se encontra aqui na Carioca, comigo tocando no fundo. Depois vão ao motel e aí rola aquela sacanagem. Só que não me informaram nem me pagaram nada. E o meu direito de imagem, pô? Me arruma esse filme aí que eu vou lá e créu nessa produtora! Você acredita que a Riotur também tá me devendo? Eles usam a minha imagem lá fora e não me dão nenhum tostão. É brincadeira ou não é?''
O cronista está encostado num poste, ao lado do músico, 25 anos de Largo da Carioca. ''Eu é que comecei esse papo de saxofonista tocar no metrô aqui no Brasil. Antes de mim, só lá na gringa. Mas nunca saí daqui. Vi isso nos filmes''. Na frente do músico, um estojo de sax aberto com algumas notas dentro - um dólar, vinte reais e poucas moedas. Um convite à contribuição dos transeuntes. Quando alguém encara demais o patrimônio, Ademir é rápido em mandar malandro tirar o olho: ''Isso aqui não é banco, não! Tem que contribuir, rapá!''
O músico conversa entre frases tiradas do instrumento, como se a voz do sax fosse a continuação da sua própria. Sento na escada do metrô, tiro os óculos escuros e caso um real. Ademir pergunta se quero alguma música. Peço que continue tocando As time goes by, interrompida pela conversa com o palhaço pornô. Logo no primeiro refrão, aquele do ''you must remember this'', aparece um senhor de calça de poliéster. ''De que filme essa é mesmo?'' Ademir é rápido em explicar: ''Casablanca, aquele com o Bogart...'' Os olhos do velho se iluminam. ''Vi esse filme aqui na Cinelândia, há uns cinqüenta anos... Mas como é mesmo que acaba?''
Dou uma de espertalhão e entro no papo. Explico que a Ingrid Bergman vai embora no final com o marido e que eles ''sempre terão Paris''. O senhor não se conforma e discute. ''Claro que não é assim! O Bogarte (sic) não é dono daquele buraco lá, onde os alemães vão, rola uma cantoria e tem aquele pianista crioulo? Então? A mulher fica com ele e os dois passam a tocar a boate juntos. Depois eles voltam para Paris... Têm até um filho na jogada!'' Falo da cena com a Ilsa dando as costas ao Rick e entrando no avião e certifico: ''Ela termina com o Victor! O senhor lembra do Victor?'' Mas o velho balança a cabeça: ''Que mané Victor o quê? O garoto aí é muito jovem... Não entende nada de cinema!''
A voz do saxofone não quis saber das nossas palavras e continuou se espalhando sobre a multidão. E fez da corrida do povo atrás da hora e do algum um balé de movimentos frouxos e suaves. Fez da barreira humana de vendedores um coro de ópera do Municipal. Fez dos mendigos cochilando sob a marquise do banco coadjuvantes de luxo, elegantes e altivos, bebericando vinho do Porto. Fez da criança revirando o lixo um príncipe prussiano. Fez do palhaço de perna-de-pau anunciando produtos eróticos um bardo europeu. Fez da secretária almoçando meio-galeto com fritas a rainha das Astúrias degustando avestruz à moda da Pérsia. Fez do cronista e do senhor de calça de poliéster um par de filósofos pré-socráticos, conversando sobre a vida e a morte das estrelas. E fez, ainda que por um breve instante, Ilsa não pegar aquele avião e ficar com Rick. E fez de todos os amores, amores eternos.
Acabei concordando com o velho e seu final feliz. Admiti, inclusive, que não entendia lhufas de cinema. O que deixei o senhor sem saber é que o cronista tampouco nunca entendeu bem da vida.
Sabe, Fernando, você sempre tinha a resposta na ponta da língua para qualquer coisa que a Tia perguntava! Sabe por quê? Porque você é uma criança muito esperta e que presta atenção a tudo. Você é uma criança que sempre teve uma capacidade enorme para guardar tudo que a Tia ensinava dentro dessa cabecinha.
Puxa! E como tem coisa guardada aí dentro, não é? Durante as brincadeiras com os seus fantoches, você conversava bastante com eles e eu gostava de ver como você sabia falar direito. Sabe, eu vou ficar com muitas saudades desse menino fofinho e gostoso de apertar e que era muito convencido dizendo que é inteligente.
Trecho de conto que "escrevi" para um livro sobre livros que sairá esse ano pela editora Casa da Palavra.
No ingresso do segundo circulo está Minos, que julga as almas e designa-lhes a pena. No repleno desse círculo estão os luxuriosos, que são continuamente arrebatados e atormentados por um horrível turbilhão. Aqui Dante encontra Francesca de Rimini, que lhe narra a história do seu amor infeliz.
DESCI desta arte ao círculo segundo,
Que o espaço menos largo compreendia,
3 Onde o pungir da dor é mais profundo.
Lá stava Minos e feroz rangia:
Examinava as culpas desde a entrada,
6 Dava a sentença como ilhais cingia.
Ante ele quando uma alma desditada
Vem, seus crimes confessa-lhe em chegando,
9 Com perícia em pecados consumada.
Lugar no inferno, Minos, lhe adaptando,
Do abismo o círculo arbitra, a que pertença,
12 Pelas voltas da cauda graduando.
Sempre muitas se lhe acham na presença;
Cada qual tem sua vez de ser julgada,
15 Diz, ouve, cai, se some sem detença.
Minos, logo me vendo, iroso brada,
Do grave ofício no ato sobrestando:
18 - "Ó tu, que vens das dores à morada;
"Olha como entras e em quem stás fiando:
Não te engane do entrar tanta largueza!"
21 - "Por que falar" - meu guia diz - "gritando?"
"Vedar não tentes a fatal empresa:
Assim se quer lá onde o que se ordena
24 Se cumpre. Assaz te seja esta certeza!"
Eis já começo da infernal geena
A ouvir os lamentos: sou chegado
27 Onde intenso carpir me aviva a pena.
Em lugar de luz mudo tenho entrado:
Rugia, como faz mar combatido
30 Dos ventos, pelo ímpeto encontrado.
Da tormenta o furor, nunca abatido,
Perpetuamente as almas torce, agita,
33 Molesta, em seus embates recrescido.
Quando à borda do abismo as precipita,
Ais, soluços, lamentos vão rompendo.
36 Blasfema a Deus a multidão maldita.
Ouvi que estão no padecer horrendo
Os que aos vícios da carne se entregavam,
39 Razão aos apetites submetendo.
Quais estorninhos, que a voar se travam
Em densos bandos na estação já fria,
42 Em rodopio as almas volteavam,
Ao capricho do vento, que as trazia.
De pausa não, de menos dor a esperança
45 Conforto lhes não dá nessa agonia.
Como nos ares longa série avança
De grous, que vão cantado o seu grasnido,
48 Assim no gemer seu, que não descansa,
Traz o tufão as sombras desabrido.
- "Mestre" - disse eu - "quais almas são aquelas
51 Que o vendaval fustiga denegrido?"
- "A primeira" - tornou Virgílio - "entre elas
De quem notícias ter desejarias,
54 Regeu nações, diversas nas loquelas."
De luxúria fez tantas demasias
Que em lei dispôs ser lícito e agradável
57 Para desculpa às torpes fantasias.
Semíramis chamou-se: o trono estável
Herdou de Nino e foi a sua esposa.
60 Do Soldão teve a terra memorável.
A morte deu-se a outra, de amorosa,
Às cinzas de Siqueu traidora e infida;
63 Cleópatra após vem luxuriosa.
Helena vi, a causa fementida
De tanto mal, e Aquiles celebrado
66 Que teve por amor a extrema lida.
Páris, Tristão e um bando assinalado
De sombras me indicou, nomes dizendo,
69 Que à sepultura amor tinha arrojado.
A compaixão me estava confrangendo,
Dessas damas e antigos cavaleiros
72 Nomes ouvindo e mágoas conhecendo.
Então disse eu: "Poeta, aos companheiros
Dois, que ali vêm, falar muito desejo:
75 Ao vento ser parecem tão ligeiros!"
"Hás de ter" - me tornou - "asado ensejo,
Quando forem mais perto; então lhes pede
78 Pelo amor que os uniu: virão sem pejo".
Quando acercar-se o vento lhes concede
A voz alcei: "Ó! vinde, almas aflitas,
81 Falar-nos, se alta lei não vo-lo impede"
Quais pombas, que saudosas de asas fitas,
Ao doce ninho, em vôo despedido,
84 Vão pelo ar, aos desejos seus adstritas:
Tais saíram da turba, em que era Dido,
A nós as duas sombras se inclinando,
87 Tanto as moveu da voz o tom sentido!
- "Entre benigno, compassivo e brando,
Que nos vem visitar por este ar perso,
90 Tendo nós dado o sangue ao mundo infando,
Se amigo o Senhor fosse do universo,
Da paz aos rogos nossos, gozarias,
93 Pois te enternece o nosso mal perverso.
Enquanto o vento é quedo, o que dirias
Havemos nós de ouvir atentamente;
96 Diremos quanto ouvir desejarias.
Onde, a paz desejando, o Pado ingente
Com seus vassalos para o mar descende,
99 A terra, em que hei nascido, está jacente.
Amor, que os corações súbito prende,
Este inflamou por minha formosura,
102 Que roubaram-me: o modo inda me ofende.
Amor, em paga exige igual ternura,
Tomou por ele em tal prazer meu peito,
105 Que, bem o vês, eterno me perdura.
Amor nos igualou da morte o efeito:
A quem no-la causou, Caína, esperas".
108 Após tais vozes foi silêncio feito.
Daquelas almas as angústias feras
Em meditar amargo a fronte inclino
111 Té que o Mestre exclamou: "Que consideras?"
Quando pude, falei: "Cruel destino!
Que doce cogitar! Que meigo encanto,
114 Precederam do par o fim maligno!"
Aos dois voltei-me e disse-lhes, entanto:
"Teus martírios, Francesca, me angustiam,
117 Movem-me o triste, compassivo pranto.
"Quando os doces suspiros só se ouviam,
Como, em que Amor mostrar-vos há querido
120 Os desejos, que ainda se escondiam?"
-"Não há" - disse - "tormento mais dorido
Que recordar o tempo venturoso
123 Na desgraça. Teu Mestre o tem sentido.
"Mas porque de saber és desejoso,
Como nasceu a flor do nosso afeto,
126 Direi chorando o lance lastimoso.
"Por passatempo eu lia e o meu dileto
De Lanceloto extremos namorados;
129 Éramos sós, de coração quieto.
"Nossos olhos, por vezes encontrados,
Cessam de ler; ao gesto a cor mudara.
132 Um ponto só deu causa aos nossos fados.
"Ao lermos que nos lábios osculara
O desejado riso, o heróico amante,
135 Este, que mais de mim se não separa,
"A boca me beijou todo tremante,
De Galeotto fez o autor e o escrito.
138 Em ler não fomos nesse dia avante".
Enquanto a história triste um tinha dito,
Tanto carpia o outro, que eu, absorto
Em piedade, senti letal conflito,
Quando a casa cai e o cronista precisa de um supositório de serotonina para levantar o moral, vai almoçar em Copacabana. No dia do aniversário da cidade, deixei o castelo da Rua Paissandu em clima de solitária celebração. Sentei no lado esquerdo do ônibus, perto da janela. Gosto de pegar vento no focinho. Um moleque atrás de mim tocava Asa branca na flauta doce. A introdução, se é para falar a verdade: depois da quinta nota, errava e começava tudo de novo. Apesar de não me deixar ouvir meus pensamentos, era a única alegria dentro do carro. Sacolejamos no coletivo, sob tarde atípica de chuva e sol. Saltei com uma luz estranha sobre a cabeça.
A primeira vez em que, já barbado, coloquei os olhos no número 719 da Avenida Nossa Senhora de Copacabana teve sabor de déjà-vu. Passei ao largo do balcão, pelos bancos redondos enfileirados e cheguei ao salão principal: ar-condicionado de cinema no teto, espelhos com molduras vermelhas nas paredes. Achado com ares de epifania. Pouco tempo depois descobri o significado especial do lugar. O pediatra do pequeno Cuenca ficava ali perto e, após a consulta, meus pais sempre arrastavam as botas ortopédicas da criança até o Cirandinha - eu odiava ir ao médico e um sorvete era a recompensa. A redescoberta do restaurante, com um hiato de décadas, deu-se há exatamente cinco anos. Eu morava num cubículo ali perto, na Rua Santa Clara, e passei a freqüentar o salão refrigerado quase todos os dias. Apesar da grana curta, não dispensava o restaurante, mesmo que fosse para comer um salgado ou ''um X com fritas'', como alguém que se dá um presente. Acredito que gastei pelo menos a metade de todo o dinheiro que ganhei até hoje bebendo ou comendo fora.
Abri um sorriso e o cardápio, oferecido pelo eficiente garçom Pedro Gomes. ''O Cirandinha oferece a você, cliente especial, as mais deliciosas refeições'', ''convide seus amigos para conhecer o Cirandinha'', ''serviço de chá de primeira classe para você relembrar as boas coisas da vida'': entre essas mensagens do menu, escolhi um Osvaldo Aranha (R$ 19, dá para duas boas almas) e uma Bohemia de garrafa grande - vantagem insofismável do lugar sobre seus concorrentes. Mas não é isso que faz do Cirandinha um clássico pessoal. Há uma série de detalhes que justificam a paixão do cronista. Por exemplo, as toalhas de mesa. Toda mesa tem duas toalhas de pano, uma branca e outra marrom, dispostas geometricamente enviesadas uma sobre a outra. O guardanapo também é de pano, cheirando a amaciante de lavanderia. Nada de plástico, jogo americano ou guardanapo de papel.
Outra diferença fundamental é o serviço. Os garçons do Cirandinha, vestindo terno marrom com quatro botões (combina com a toalha de mesa, com as cadeiras e com a parede), sempre são atenciosos e realmente lhe servem. Alguns garçons, em estabelecimentos menos abençoados, deixam a travessa sobre a mesa e não colocam a comida no prato do cliente. No Cirandinha, o sujeito chega a ser servido por uma junta deles no delicado momento de transferir as batatas portuguesas e a farofa para o prato.
Além da comida, do guardanapo de pano, do bom atendimento e dos preços, há o fato de que o Cirandinha nunca está vazio. Na hora do almoço, do chá e da janta, famílias de Copacabana confraternizam, senhoras de cabelos pintados de rosa, branco, amarelo e todo o espectro possível de cores que o olho humano é capaz de captar, senhores batendo animado papo com os garçons, comentando o Globo Esporte na TV, moças chegando da praia e crianças brincando com a comida, todos embaralhados no caleidoscópio formado pelos espelhos que se refletem entre as paredes. O cronista tenta ser técnico, explicar sua predileção, mas o que faz de um lugar um lugar, é o mesmo que faz de uma mulher a sua mulher. Ela simplesmente é melhor do que todas as outras.
O Rio ainda fará tantos outros aniversários, e as crianças deixarão suas botas, galochas e flautas doces para trás, e as senhorinhas descobrirão colorações inéditas para seus cabelos, e os casais calados na mesa perto do banheiro trocarão seus pares, tantas vezes ainda!, e o Flamengo vai perder e ganhar torcedores, e os garçons vão morrer e deixar seus ternos de quatro botões para o próximo funcionário, e tanto samba e tanta bala ainda vão zunir sobre os morros, o topo dos prédios e a copa das árvores. A menina triste de olhos verdes pode até abandonar o cronista num dia de festa, daqueles em que o Centro fica vazio e a gente do escritório joga papel picado pela janela. Mas a impressão que tenho é que, quando tudo passar, o Cirandinha e eu continuaremos exatamente os mesmos: gelando sob nossas paredes de espelho e ouvindo a conversa dos outros.
(Smog - do disco "The doctor came at dawn" de 1996)
All your women things
All your frilly things
Scattered 'round my room
Right where you left them
When you left them
Scattered 'round my room
All your hardness
All your softness
And your mercy
All your bridges and bras
Your cotton
and gauze
All your buckles and straps
Releases and traps
All your screws
and false nails
Oriental winks
and Egyptian veils
Oh all of these things
I gathered them
And I made a dolly
I made a dolly
A spread-eagle dolly
Out of your frilly things
Why couldn't I have loved you
This tenderly
When you were here
In the flesh
So tenderly
How could I ignore
Your left breast
Your right breast
How could I ignore
Your hardness
Your softness
And your mercy
Well it's been seven years
And the thought of your name
Still makes me
Weak in the knees
How could I ignore
Your left breast
Your right breast
Quinta tem lançamento da Paralelos em SP, mas ainda não sei se poderei ir.
A melhor coisa desse convite é mostrar as carinhas dos autores, uma ao lado da outra.
"Novos" ou consagrados, escritores acabam se transformando nisso aí mesmo, independente do seu talento, número de leitores ou amizades no mercado editorial: carinhas disputando espaço num pedaço de papel. E não me levem a mal que eu acordei amando todo mundo hoje.
Uns amigos de SP que não conhecem o pessoal fizeram do convite um jogo. É assim: você bota um número sobre cada autor e tenta adivinhar que nome corresponde a cada rosto. Ganha quem acertar mais. Pode ser engraçado. Alguns deles se chamam exatamente como parecem.
O lançamento é na Mercearia São Pedro. Sempre que vou lá, encho a cara e saio com uma sacola cheia de livros comprados com o Marquinhos. (Pra quem não sabe, a Mercearia, além de Mercearia e Bar, é locadora de vídeo E livraria.)
No dia seguinte, acordo com una ressaca de seis mil anos e vinte livros ao pé da cama, me perguntando como eles apareceram ali. Gastar dinheiro inconsciente é uma arte.
Há um padrão, pois. De acordo com o site da Livraria Cultura, quem comprou o "Corpo presente" também levou esses daí:
COBERTOR DE ESTRELAS (livro)
ATE O DIA EM QUE O CAO MORREU (livro)
CURVA DE RIO SUJO (livro)
HOTEL HELL (livro)
BUDAPESTE (livro)
SAO PAULO - CORPO E ALMA (livro)
LIVRO DAS COUSAS QUE ACONTECEM (livro)
IGNORANCIA DO SEMPRE (livro)
BANGALO (livro)
NOITE DO ORACULO (livro)