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Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Segunda-feira, Fevereiro 28, 2005

O HOMEM É QUE FAZ O TEMPO


(Gravura de Ralph Steadman)

Abaixo, segue a crônica deste sábado no JB. Mea-culpa: não gostei do que escrevi. Acho que fui longe demais no fantástico dessa vez e escrevi um arremedo de conto em espaço de crônica. Nada contra, mas não é exatamente o que eu quero fazer.

Vai ver o problema é que este cronista em especial fica constantemente de saco cheio da realidade.

Segue o texto.

O homem é que faz o tempo das coisas

(Jornal do Brasil - 28.02.2005)

Aconteceu quando estalou o pescoço para a esquerda. Estava em pé, apoiado num corrimão. A próxima parada do metrô seria o Largo do Machado, já anunciado pela voz robótica propagada pelas caixas de som. No breve instante em que aprumou seu pescoço, percebeu que a composição havia parado. Os reflexos nas janelas de vidro interromperam seu movimento. Apesar de súbita, a parada não foi brusca. Ninguém tropeçou. Nenhuma senhora derrubou sua bolsa. Não ouviu nenhum muxoxo. O homem estranhou e resolveu investigar a inércia dos passageiros. Pé ante pé, cutucou o ombro de um senhor, pousou a mão na mochila de um estudante. Encontrou sua imagem dentro dos olhos esbugalhados de cada um dos viajantes, mas não conseguiu se comunicar com nenhum deles. Estavam, como o vagão, as luzes e os reflexos, congelados no tempo e no espaço.

Estarrecido, notou também que não havia barulho algum. O silêncio era tão grande que o homem imaginou estar ouvindo seus pensamentos. Tentou soltar um grito de pânico, sem sucesso. O movimento dos seus lábios não se traduziam em palavras, como se houvesse uma espessa camada no ar impedindo que as vibrações das suas cordas vocais se propagassem. O homem passou a caminhar lentamente entre os corpos paralisados, com medo de perturbar a estranha ordem recém-instituída. Depois de algumas horas, sentou no chão, junto à porta. Tenso, esticou os braços para cima, estalou os dedos, os cotovelos e o pescoço, para a direita e para a esquerda. No breve instante em que aprumou seu pescoço, os reflexos nas janelas de vidro voltaram a correr, o som do ar e da respiração dos passageiros voltou a ser ouvido, o vagão reencontrou seu movimento rumo à próxima estação.

Mudou seus planos e saltou ali mesmo. Quando chegou à praça, sentou-se para pensar. Estava em um banco de concreto comprido, ao lado de uma senhora dessas que alimentam pombos. A senhora retirou um punhado de grãos de milho de uma sacola de supermercado. Os pombos voaram até a velha, atropelaram-se, comeram na sua mão suja. O homem irritou-se e, num impulso, estalou o pescoço para a esquerda. No breve instante em que aprumou seu pescoço, o movimento porco dos pombos no ar interrompeu-se. Eles passaram a flutuar quietos como balões de gás. Suas penas caídas flutuavam quietas, os grãos de milhos atirados pela senhora flutuavam quietos. O homem levantou-se, pegou um milho e colocou sob a língua da senhora congelada de boca aberta. O resto da praça, como era de se esperar, também pausara seu movimento. Tudo no lugar, tudo em ordem - imóvel.

O homem, nos meses que se seguiram, explorou todas as possibilidades do seu recém-conquistado poder. Sem buscar a explicação para o fenômeno, passou a levantar saias, recolher dinheiro no caixa do banco, provocar mixórdia trocando objetos de lugar, roubar livros e revistas, entrar no cinema sem pagar - pecadilhos aos quais se permitia, sem grandes culpas. Com o tempo, seu voyeurismo ganhou ares de perversão e o homem passou a estalar o pescoço com o objetivo de arrombar portas. Espiava mulheres de todas as formas: dormindo, no banho, cortando unhas, falando sozinhas, na cama, com os maridos, namorados e amantes. Não há segredo inexpugnável para o homem que consegue domar o tempo.

Acabou cansando de espiar as moças (quanto mais diferentes, mais se pareciam entre si) e resolveu aproveitar sua habilidade para algo construtivo. Apaixonou-se por uma das meninas que espiava e quis compartilhar seu poder secreto com ela. Não conseguiu. Amargurado, no mesmo dia meteu-se num avião e foi para a Europa. Voltou três anos depois, sentindo-se vazio - não havia tanta graça em estancar o tempo por lá. De volta ao Rio, foi à Biblioteca Nacional e roubou dezenas de livros. Sobre o capô dos carros congelados na Avenida Rio Branco leu tudo de Dostoievski e Borges. Certa vez, parou o tempo às cinco da tarde, subiu em um ônibus e, deitado no chão, entre os passageiros silenciosos e aos pés do vendedor de balas, leu Cortázar. Outro dia, leu Machado de Assis sentado no colo da estátua do bruxo do Cosme Velho, ao lado da ABL. E assim o tempo se arrastava, no seu compasso solitário e particular - o que para o resto do mundo era uma semana, para o homem que parava o tempo com o pescoço eram anos.

Depois desses e de outros tantos desvarios, resolveu estalar o pescoço e rabiscar um romance. Um romance sobre um sujeito que descobre, dentro de um vagão de metrô, que é capaz de parar o tempo estalando seu pescoço para a esquerda. O livro exploraria todas as situações fantásticas possibilitadas por esse estranho poder e teria um final ambíguo, flertando com o uso da metalinguagem, tão comum por esses dias. Mas o homem nunca chegou a escrever o romance. Aconteceu que tinha um prazo para entregar uma crônica ao Jornal do Brasil e, sem paciência para estalar o pescoço e parar o tempo, usou a idéia do livro no jornal mesmo. E escreveu uma crônica sobre um homem que é capaz de parar o tempo. Esse homem, o leitor iria perceber quando chegasse ao final do romance que nunca vou escrever, é qualquer um. O homem é que faz o tempo das coisas.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:20 PM


Quinta-feira, Fevereiro 24, 2005

TVE

Há algumas semanas fui entrevistado pelo poeta Michel Melamed. O programa (Recorte Cultural) vai ao ar hoje à noite, na TVE. Começa entre 00:10 e 00:15.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 7:07 PM


Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Rebelião dos personagens

(Jornal do Brasil - 19.02.2005)

- Esse papo de crônica escrita em forma de diálogo é a maior enganação... - disse o bucha, para todo mundo ouvir.
- Quando o cara não tem assunto, manda logo ver uma conversinha! - completou o macaco com asa e bico de tucano.
- O pior é que é verdade. Mas crônica sobre falta de assunto é uma tradição nacional... - o senhor barrigudo de sunga vermelha argumentou, apoiando o cronista.
- Tá achando que é o Rubem Braga, é? - o macaco não perdoou.
- Quem me dera! Toda semana não é mole não - desabafei.
- Você não tem vergonha de ser tão preguiçoso? - a menina triste de olhos verdes censurou.
- Esse aí nunca teve vergonha de nada! - o bucha irritou-se.
- Pior que é verdade. Quando eu era criança, arriava as calças e corria atrás das coleguinhas do maternal... - confessei, encabulado.
- Que horror! - a menina triste de olhos verdes muxoxou, decepcionada.
- O cronista deveria ter um cardápio de assuntos, uma enciclopédia para consultar... - falei besteira.
- Deixa de ser burro, caceta. Idéia de jerico! Cardápio do cronista é realidade! - o macaco com asa e bico de tucano cumpriu seu papel de editor.
- Não concordo! E o Pedro? - replicou Dr. Olavo, saído diretamente dos espelhos do Lamas.
- Quem é Pedro? - perguntou o chato do spray de espuma.
- Escreve sobre mim! - pediu a menina triste de olhos verdes.
- Toda hora eu escrevo sobre você. Uma hora o leitor vai enjoar.... - respondi.
- Você está enjoado de mim? É isso? - começou a discussão de relacionamento.
- Não! Claro que não... Mas eu não sou o leitor... - argumentei em vão.
- Enjoar? Pode acreditar nisso! Estou ficando de saco cheio dessa crônica, Cuenca! - reclamou o leitor do Jornal do Brasil.
- Não faço questão que ele escreva sobre mim. Só me esculacha. Injustiça! Sou um poeta... - o bucha queixou-se.
- Outro dia, me ridicularizou aqui mesmo. Um abuso! - denunciou o almofadinha militante do Largo do Machado.
- Esse cronista não é de nada! Arrivista! Ah, que saudade dos bons tempos da crônica carioca... - rebelou-se Menezes, o motorista de táxi que acredita no fim do mundo.
- Se você visse as coisas que eu vejo, nunca faltaria assunto e não precisaria ficar dando ouvidos a esse pessoal aí... - interrompeu o senhor que enxerga através das paredes.
- Velho tarado! Fica me espiando todo dia! - reclamou a menina do terceiro andar.
- Querem saber? Coitado do cronista que precisa contar com esses personagens de segunda! - exclamou o mendigo com pedigree, num momento de sobriedade.
- A gente é que não merece esse autor... Vagabundo metido a espertalhão! - a quarentona dos legumes não se conteve.
- Ei! Peraí! Olha o jeito que você fala do meu namorado! - a menina triste de olhos verdes partiu para cima da quarentona dos legumes.
- Separa, porra! Separa! - interviu o bêbado triste de vestido rosa.
- Não tá dando mais não, Cuenca! Isso aqui é um arremedo de crônica! - o leitor do Jornal do Brasil gritou no meio da confusão.
- Agora quero ver quem é que vai ser chamado de bucha! - vangloriou-se o bucha, incentivando a briga e empurrando o cronista para trás.
- Cuenca! A gente te ajuda! - os 15 colegas de chope no Bar Luiz chegaram e separaram as duas mulheres, para alívio geral.
- Cronista de segunda! - disse, carregada dali, a quarentona dos legumes.
- A culpa é sua, João! - chorou a menina triste de olhos verdes.
- Esse cara só arruma confusão! Larga de palhaçada, senta a bunda na cadeira e escreve seu romance, rapaz! - vaticinou o macaco com asa e bico de tucano.
- Mas ele não tem maturidade, essa é que é a verdade... - presumiu o senhor barrigudo de sunga vermelha.
- Deixa o garoto viver! - tentou defender o mendigo com pedigree.
- Ei! Absurdo você apoiar esse palhaço depois do que ele falou de você... - o bucha não capitulou.
- O pior é que esse cronista sempre atrasa o texto! - reclamou Ulisses, o editor.
- Cuenca, acaba logo essa discussão aí e manda a crônica porque eu preciso fazer a ilustração... - Liberati juntou-se ao coro de insatisfeitos.
- Fora Cuenca! Greve já! Fora Cuenca! Greve já! - o almofadinha militante do Largo do Machado subiu numa cadeira.

Tentei contra-argumentar, mas a minha voz foi abafada pela rebelião dos personagens, suas exigências e reclamações infinitas. Resolvi esperar os ânimos se acalmarem e desisti da discussão. Lentamente, dei meia-dúzia de passos para trás e, sem aviso, desapareci numa poça de silêncio.

(Até este sábado de manhã, nenhum sinal do cronista, ainda sumido. Dos males o menor: pelo menos sobraram o leitor do jornal e os personagens. Se eles continuarem reclamando, agora dentro da cabeça do leitor, a responsabilidade não é do cronista, ainda sumido. O cronista, ainda sumido, mandou abraços e disse que só volta quando os personagens fizerem as pazes com ele. O cronista, ainda sumido, às vezes pensa em desistir dos personagens. Mas o cronista, ainda sumido, não desiste. Ainda.)

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 9:36 PM

DISSIPATIO

Alguns trechos de Dissipatio H.G., obra-prima de Guido Morselli, escritor italiano que se matou no verão de 1973, aos 61 anos. Voltando de uma breve estadia em cidade próxima, Morselli encontrou entre a correspondência duas cópias de seu último trabalho, "Dissipatio H.G.", recusadas pelas editoras, como todos seus romances anteriores. Matou-se na mesma noite com um tiro de pistola. O sucesso veio um ano depois, com a publicação póstuma deste e de outros livros.

"O inexplicável não é o desconhecido, não é o misterioso, pelos quais somos atraídos (talvez porque tenham o mérito de residir a uma devida distância de nós). É algo diverso, algo que, quando assume uma certa extensão e estabilidade, desorganiza nossos esquemas vitais. Eu me adaptaria ao maravilhoso. Mas reagi fisiologicamente ao absurdo; não podendo nega-lo, o sentia como uma agressão na sua imponência e imediatismo, e me refugiava na imobilidade. Cedia a um atavismo. Sob ameaça, um bicho indefeso se comporta assim, se imobiliza."

"Fiquei sentado diante da máquina uma tarde inteira, sem tocá-la. O matraquear das teclas me teria transtornado. Era uma espécie de dever supersticioso, não romper o silêncio. À cozinha, para esquentar o café, ia na ponta dos pés. Lá fora, a chuva batia sonoramente nas lajotas, mas eu não devia fazer barulho. Devia, como os Outros, estar morto."

"Afora a agressão dos problemas irresolvidos, há o assédio das pequenas coisas "queridas". Pequenas coisas familiares e pegajosas, os objetos que o sustentam, cada qual com seu modesto fascínio prênsil, tenaz, a foto feita por você, emoldurada por você, da neve de abril nos telhados, o tapete falso-buchara autopresenteado no Natal, a máquina de escrever com a folha enfiada no rolo, a lanterna de caça a carvão que não lhe serve para nada, mas que fica tão bem na ante-sala, com o seu vermelho vivo, o toca-discos com a sonata para piano de Albinoni. E cada qual com o seu chamado pungente, com a sua insídia: querem envolvê-lo, apanhá-lo, se espantam por você ter pensado em, tentado...Mas enfim, ao voltar, lhe dizem: se ainda está aqui, é também por nossa causa. Talvez saibam que não é verdade, mas é preciso fingir uma alegria renovada."

"O que faz o silêncio e o seu contrário, em última análise, é a presença humana - desejável ou não - ou a sua falta. Nada as substitui nesse seu efeito. E o silêncio da ausência humana - me dava conta - é um silêncio que não escorre; se acumula."

"Tudo, dos subúrbios ao centro, estava silencioso e vazio. Tudo no lugar e em ordem, mas imóvel, fora do tempo, porque é o homem que faz o tempo das coisas - e não se via homem nenhum. Nem um restava."

"O argumento de Mylius (ex-paranóico) era tétrico e irrefutável, de uma placidez fúnebre. Os homens já estariam semi-mortos em vida."

"Mylius - É preciso partir da premissa realista sobre o que significa para nós "estar morto". Não-participação no mundo externo, insensibilidade, indiferença. Estabelecido que a morte é isso, conclui-se que a vida é semelhante a ela, a diferença sendo puramente quantitativa. Idealmente a vida deveria ser aprendizado, experiência, interesse, mas você sabe que, confrontados com a vida nessa sua ideal e nunca alcançada plenitude, confrontados com a multiplicidade de experiências (ou relações) teoricamente possíveis, cada um de nós não é muito mais que um morto. O que caracteriza o morto é a impassibilidade: ora a ignorância e (somado) o esquecimento ou a facilidade de esquecer reduzem a nós, vivos, diante da quase totalidade das experiências (ou relações) possíveis, a uma impassibilidade análoga. Estamos mortos para tudo o que não nos toca ou interessa. Não falou daquilo que acontece na Lua, mas do que se passa aos que moram do outro lado da rua. Da miríade de eventos que se verificam todos os dias na nossa esfera humana mais próxima, só conhecemos alguns, uma dezena, digamos, e quase sempre indiretamente, pelo noticiário. Usamos - e mal - uma língua, das 3000 que se falam no mundo. Morrer biologicamente é o aperfeiçoamento de um estado em que já nos encontramos agora."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 9:34 PM


Sábado, Fevereiro 12, 2005

CRÔNICA DE HOJE

O carnaval continua, apesar de nós e por nós mesmos

(Jornal do Brasil - 12.02.2005)

São Luiz Fernando Veríssimo que me perdoe, mas ainda há sim no carnaval aquelas cenas que dão boas crônicas. É só soltar o batente e sair na rua, agora em 2005. A industrialização do carnaval, a profissionalização das grandes escolas, os Talibambas e os chatos do spray de espuma ainda não fizeram estrago suficiente para acabar de vez com o assunto. Queria dizer ao mestre que, pelo menos aqui por essas bandas do Rio de Janeiro (me esforço para fugir do trocadilho), maridos continuam sumindo durante os dias de folia; o povo continua voltando de ônibus (agora também de metrô) e largando pedaços de fantasia pelo caminho; mendigos, turistas, patricinhas e senhores continuam se encontrando, suados, tagarelas, bebendo do mesmo copo; a galera continua tomando o lugar dos carros, na maioria das vezes sem aviso e esquema de trânsito; homens continuam se fantasiando de mulher; mulheres continuam tomando atitudes masculinas; todo mundo fica feliz, meio nu e louco, e nem precisa ficar bêbado para isso, só porque é carnaval. Mesmo sem revista "Cruzeiro", samba do Ary Barroso tocando na Rádio Nacional e amigos chamados Argeu. E, querido Veríssimo, salve-salve a menina que faz musculação! Que faça por mim enquanto escrevo para ela. Aliás, meu caríssimo, que façam por nós enquanto escrevemos para elas.

Sexta-feira de carnaval, depois de almoçar um filé com tutu no Cosmopolita, o cronista foi ao Saara comprar peruca preta, chapéu rosa e serpentina. Meu amigo Pratinha quis decorar a parede de seu apartamento e levou máscaras de Saddam, Bush, Lula, Arafat, Palocci e Bin Laden. Os vendedores acharam papo de arame liso e sacanearam: "esse aí vai estudar geografia no carnaval!" Antes, Cecília quis comprar um chicote numa sex-shop, ali no Beco da Cirrose, atrás da Cinelândia. Sedenta por alforria, ia se fantasiar de dominatrix. Justíssimo. Christiano resolveu comprar boás e confetes, além de 70 máscaras brancas, para fazer um bloco-conceito e fotografar. Meus amigos são todos uns artistas, mas gênio mesmo é o sujeito que escreve os reclames da Rádio Saara, transmitida por centenas de caixinhas de som espalhadas pelos postes. Uma mulher desesperada grita, assustando o transeunte: "Ai, meu Deus! Eu quero casaaaar!", e tome marcha nupcial e propaganda de artigos para casamento. Ou então, uma senhorinha dá um chilique e desabafa para o marido: "Amor, sabe o que eu queria? Eu queria uma loja só de meias! Meiaaaas!", e ouvimos o anúncio da "melhor loja de meias do mundo". Depois de serpentear por ruas rocambolescas e lotadas, choveu baldes e tomamos um pré-porre na Buenos Aires, antes que a noite caísse. O carnaval brilhava no horizonte, auspicioso.

Mais tarde, escolhi o Bip-bip para foliar. O Bip, dizem, sempre sai a revelia do Alfredinho, dono do boteco que batiza o bloco. Não tem samba certo nem bateria. Apesar disso, arrasta sempre boas duas ou cinco mil pessoas e fecha quatro ruas de Copacabana. O samba é escolhido no improviso ou no grito - sempre há divergências. Vai mudando conforme a multidão se arrasta atrás dos cinco ritmistas. Ás vezes rola um silêncio e não tem samba. Às vezes o bloco fica com preguiça e não arreda pé da Almirante Gonçalves. O Bip é a confirmação de que bloco não precisa de nada para desfilar. Não precisa de camisa com caricatura do Jaguar, ensaio na Fundição Progresso, corda ou carro de som. Não precisa sequer esconder a hora e fazer docinho. Junta meia-dúzia naquele passinho de bloco, que o povo vai seguindo pelas esquinas - e pelos anos.

A crônica vai acabar e, agora percebo, mal passei da sexta-feira de carnaval. Temas não faltariam para continuar. Eu poderia escrever sobre o chuvaréu que desabou sobre o Barbas, no dia seguinte, fazendo o folião dispensar o carro-pipa e abrir os braços para o céu, evoluindo na chuva. Poderia escrever sobre o casal de namorados sambando sobre uma poça de água suja, a menina de blusa transparente, o sujeito de roupa de mergulho, beijando-se apaixonados, rindo de estarem ali. Ou sobre a virada do Simpatia da Teixeira de Melo para a Vieira Souto no domingo, já cantada em prosa pelo macaco com asa e bico de tucano. Poderia escrever uma crônica inteira sobre, no meio do bloco, espremido pela multidão e pelo baticum da bateria, ter epifanias ao ver uma nesga do céu de Ipanema, soprando no alto, anunciando o ano. Poderia escrever outra crônica sobre a alegria solitária de cada folião com quem esbarrei na rua, sobre famílias inteiras fantasiadas, anjos de plástico, pierrôs de papel crepom, indiazinhas de camisola. Sobre um bêbado triste de vestido rosa, dormindo na escadaria da Biblioteca Nacional enquanto o Bola Preta pegava fogo de manhã. Sobre meia ala da Viradouro entoando o samba no metrô. Sobre a Luma fazendo a bateria do mestre Louro, as arquibancadas da Sapucaí, as vigas de concreto, o chão, o céu, a terra e o tempo ajoelharem-se diante da sua passagem, como se ela planasse santa, virtuosa e majestosa - acima de todos nós. Poderia escrever, finalmente, sobre pular a grade da passarela depois de dez horas de bebedeira e correr atrás do desfile da Beija-Flor, de mãos dadas com a menina triste de olhos verdes, cantando o samba campeão com a galera, sob impiedoso sol de fim de festa batendo por trás do Arco do Niemeyer. Tantas boas crônicas podem ser escritas sobre o carnaval, e tantas ainda serão, apesar do cronista. Tanta crônicas ruins podem ser escritas sobre o carnaval, e tantas ainda serão, pelo cronista. Caríssimo, o que importa é que o carnaval continua. Apesar de nós e por nós mesmos.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 6:36 PM


Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005

COLUNA DE FEVEREIRO



Cinco segundos

(Revista TPM - 02.2005)

Foi num dia daqueles em que o centro fica vazio e o pessoal do escritório joga papel picado pela janela. Final do ano e do expediente. Você apareceu, sorriu meia dúzia de amigas e sentou na mesa ao lado. Bebendo cerveja de garrafa e comendo amendoim, cabelo preso num coque. Os papéis chovendo pela janela. Depois de você ali, a cidade calou: bocas abrindo e fechando, garçons de gravata anotando pedidos, moleques pedindo moedas, ônibus relinchando, tudo sem emitir um pio sequer. No meio do povaréu, eu podia ouvir seus dentes quebrando os amendoins, goles descendo pela sua garganta, cílios se roçando num piscar de olhos. Senti seus lábios tateando meus ouvidos. Sua chegada condenou toda aquela gente a morte instantânea.

Naquele momento, fiquei sabendo de tudo. Que iríamos nos conhecer em cerca de meia hora, quando eu me levantasse para falar bonito, entre goles e nossos olhares de espadachim. Sabia que treparíamos poucos dias depois como dois desesperados, pais de filhos natimortos, nos enlevando como quem precisa. Fiquei sabendo, olhando para você na outra mesa, que nossa persistência mútua seria comparável a teimosia de ditadores, cães loucos e donas de casa. Que nosso amor arrancado a fórceps seria perdido para ser encontrado depois, reencontrado depois, muitas vezes, quantas vezes fosse preciso.

Sabia que brigaríamos como nunca fizemos com ninguém antes, e nos xingaríamos de nomes que você teria vergonha de contar até para si mesma. Mas depois faríamos as pazes, doentes de paixão, como nunca fizemos antes. Bêbados, dançando e rindo do que só nós dois poderíamos entender. Trocando a noite pelo dia, trancados por semanas aqui em casa, ouvindo música, vendo filmes, dormindo abraçados. Sabia que, rapidamente, ganharíamos intimidade: banheiro de porta aberta, beijo sem escovar os dentes, você fazendo café de calcinha. E sabia que você falaria, alguns meses depois, que eu era o melhor amante que você já teve. E você falaria que nunca mais iria querer outra pessoa. Que o meu pau seria o melhor e mais gostoso do planeta, e continuaria sendo por todas as vidas que você pudesse encarnar. E sabia que você, entre muxoxos, diria que gostaria de acordar na minha cama todos os dias. Você até iria querer, essa nem eu esperava, me dar um molequinho de presente. Antes de você beber a cerveja do seu copo, eu já sabia como iria gostar de ouvir todas essas mentiras. E como iria te retribuir com verdades.

Fiquei sabendo que, mesmo assim, apesar e por causa disso, eu ficaria ciumento e obsessivo como um psicopata de cinema. Faria perguntas insidiosas sobre seu passado, ex-amantes e namorados. Sobre quem te levou para a cama, e quem te deixou lá. Descobri que ficaria com taquicardia e mãos trêmulas ao imaginar você com outra pessoa, no futuro ou no passado. Descobri que você iria despertar o meu melhor e o meu pior, em proporções igualmente febris. E também descobri que iríamos superar isso. E, depois de um ano, nos casar: montaríamos um apartamento cheio de coisas suas e minhas. Um novo jeito de fazer tudo, nem seu, nem meu, mas nosso. Você me ensinaria, com seus modos calados, a viver melhor. Tomar banho lavando as costas, comer várias vezes por dia, pensar menos. Você iria combater meu impulso suicida contra o nosso amor. Não sei se você chegou a descobrir isso ainda, mas não é que o amor simplesmente acabe. O amor é morto em dias claros como esse. Carrega em si a semente desse assassinato. Às vezes o crime é culposo. Em outras, cheiramos a fumaça que sai do buraco da bala com prazer dissoluto. Mas o normal é que seja morto corriqueiramente, como um tropeço. Com você seria diferente. Descobri, só de olhar o jeito do cabelo cair na sua testa, que você lutaria até o fim para que eu não esquartejasse o nosso amor. Você iria conseguir.

Sabendo disso tudo, foi como se não tivesse escolha. Deixei uns trocados na mesa, levantei e lancei um último olhar na sua direção, já quase virando a esquina. Depois disso, cheguei a te procurar em outros bares e saideiras. Em alguns meses, acabei esquecendo seus olhos verdes e, com eles, tudo que descobri, em não mais que cinco segundos, num dia daqueles em que o centro fica vazio e a gente do escritório joga papel picado pela janela. O amor é morto em dias claros como esse.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:46 PM


Sábado, Fevereiro 05, 2005

CRÔNICA DE HOJE

Os heróis do tango, do samba e da pureza esquecida

(Jornal do Brasil - 05.02.2005)

Recebo correspondência sobre as crônicas. Um crítico magoado diz que o cronista sempre ridiculariza um personagem mui querido: o bucha. Reclama que sempre o exponho como um pobre coitado e não lhe dou a voz de poeta que merece. Diz também que o autor da coluna deve ser, ele mesmo, um bucha enrustido. Sem medo de ser feliz, o missivista afirma que isso fica patente quando "o cronista se mostra forçosamente superior nos seus encontros com o bucha". Argumenta que a maioria das obras-primas da humanidade foram feitas por homens em apuros amorosos e me dá exemplos, desde Chopin a Cartola, de que a condição de bucha é o leitmotiv da arte ocidental nos últimos seis mil anos. "Valorize o bucha, pois sem ele, nós não seríamos nada! É uma divisão de trabalho, Cuenca. As mulheres nos rejeitam, sapateiam sobre as nossas bundas e, só assim, somos capazes de criar. É quando aparece o nosso gênio! Quem inaugurou a humanidade foi a primeira mulher capaz de desprezar um homem. Brindemos a esta criatura iluminada e ao bucha fundamental que existe em cada um de nós!"

O sujeito ainda cometeu a covardia de me citar o escritor argentino Ricardo Piglia. "O homem que perdeu a mulher olha o mundo com olhos metafísicos e extrema lucidez. A perda da mulher é a condição para que o herói do tango adquira essa visão que o distancia do mundo e lhe permite filosofar sobre a memória, o tempo, o passado, a pureza esquecida, o sentido da vida. O homem ferido no coração pode, por fim, olhar a realidade como ela é e perceber os seus segredos." Descontando os exageros do leitor e os acertos do Piglia, gosto de pensar ser possível existir artista de bem com a vida e com a mulher. O leitor responde, dentro da minha cabeça, dessa vez: "Cuenca, se você não fosse cronista do Jornal do Brasil, ia achar que você é burro. Quando o poeta não tem problema, arruma! Ele precisa sentir o desapego. A rejeição! As insídias do amor!"

Ainda pensando na carta recebida, fui a um sambinha de rua, desses de pré-carnaval, lotado de gente, como diria o amigo Antônio Prata, "meio intelectual, meio de esquerda". Na saída, esbarrei com um sujeito tropeçando nas próprias pernas. Não era um bêbado de família, desses que tira um par de dias dissolutos e depois volta para casa, sob cacetadas da esposa, vergonha dos filhos e mexerico das vizinhas. Era um mendigo com pedigree, pés inchados, pele sebenta e escura. Imundo, vestia trapos e deixava um rastro quase visível de fedor por trás de si. Sob a luz tremelicante de um poste, o mendigo cambaleava a ladeira. Cantava alto, babando no chão e trocando as letras: "Você vai se amargar / Vendo o dia raiar / Sem lhe pedir licença / E eu vou morrer de rir / Que esse dia há de vir / Antes do que você pensa."

O mendigo entoava a canção sofregamente, dando peso a cada palavra. Entre os versos, dava um gole no copo de plástico e olhava para o céu sem lua. Passou por mim e repetiu, olhando dentro dos meus olhos, "antes do que você pensa!" Lágrimas riscavam seu rosto, abrindo clarões sobre bochechas sujas. Seus olhos carregavam uma lucidez desesperada que eu, se tive algum dia, perdi. O mendigo com pedigree prometia vingança a um amor do passado. Pouco se preocupava com seu estado emporcalhado, falta de dinheiro, moradia e dignidade. Seu principal motivo de angústia era o leitmotiv citado pelo leitor, ausência doída, irrecuperável. Segui meu caminho imaginando quais deveriam ter sido os pérfidos desvios que o destino do mendigo com pedigree tomou até aquela noite, quando encontrou-se comigo.

Na outra esquina, havia um grupo de mulheres de cerca de quarenta anos, em papo animado. Usavam roupa de ginástica. Parecia filme do Domingos de Oliveira. As moças tentavam consolar uma delas que reclamava feio da vida: "Amiga, imagina que você é um legume. É, isso mesmo, um legume! Aí tá chegando o fim da feira. A hora da xepa. E ninguém te escolhe. Ninguém! Aí você vai ficando meio podre, sabe? Perde a consistência, começa a cheirar mal, fica com uns buracos esquisitos. Daqui a pouco começa a descer um líquido escuro. Preto e fedorento! Os homens chegam e começam a desmontar a feira. A Comlurb joga água no chão. Todo mundo indo embora. E ninguém te escolhe! Pois é. Eu sou isso, amiga! O legume não escolhido na hora da xepa!" E chorou, aos berros, tão triste que não cabia em si.

Duas dessas na mesma noite foi demais para o cronista. Bateu a impressão de que mundo virou uma grande discussão de relacionamento. Cinema, teatro, literatura e televisão. Nem na rua, o sujeito está salvo. Só dá relacionamento. Não existe campo neutro. O platonismo do mendigo com pedigree e da leguminosa mulher me fizeram reler a carta do leitor quando cheguei em casa e agradecer por ter ao meu lado a minha menina triste de olhos verdes. Neste ponto da crônica, confesso ao leitor que me escreveu, e só a ele, que tenho medo de perdê-la. Eu deixaria a quarentona dos legumes e o mendigo com pedigree no chinelo.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:27 PM
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João Paulo Cuenca/Male/21-25. Lives in Brazil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro/Copacabana, speaks Portuguese and English. Spends 60% of daytime online. Uses a Fast (128k-512k) connection. And likes Música/Cinema.
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