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chico queiroz

Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Sábado, Janeiro 29, 2005

DOSE DUPLA

Na seqüência, crônicas dos últimos dois sábados.

Na de hoje, misturo Buñuel com Cortázar e Nietzche dentro de um bloco de carnaval que não acaba nunca.

Na do outro sábado, taxistas, cronistas e o fim do mundo.

Mas a verdade é que ando meio sem emoção na escrita, engracadinho demais, e não sei se gosto disso.

"O nosso romancista está em crise de solidão. Falta-lhe solidão. Tem de sair, de picareta, ceifando, demolindo as admirações que hão de corrompê-lo fatalmente." - Nelson

Aí vão elas:

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O eterno recomeço do bloco de carnaval em Laranjeiras

(Jornal do Brasil - 29.01.2005)

A senhora fez questão de pintar a cara do moleque e vestir o pobre com uma fantasia de índio do Saara. O pai apressado saiu com a malcriação da criança a tiracolo. O casal de jornalistas de cultura achou que ir ao bloco poderia descontrair. É impossível discutir a relação no meio da bagunça. Almoçaram comida japonesa no shopping em Botafogo e foram, soturnos no ar-condicionado do carro francês, ouvindo jazz. Os estudantes de sociologia alcoólatras se juntaram em cinco, com chapéus coloridos, e foram para a frente do primeiro carro de som, fazendo uma coreografia sem propósito que as senhorinhas logo imitaram. Senhores bagaceiros vestidos de mulher também apareceram, barbudos e elegantes. Tudo gente de bem: trabalhadores, mendigos, pensionistas e ambulantes. Famílias espiaram pela janela, contestes. Os ritmistas levaram seus instrumentos. Violinistas e cavaquinistas também, mas ninguém os ouviu - como é triste a sina dos instrumentos de corda no bloco. Os puxadores levaram seus gogós. Os vendedores de bebida levaram alívio. O sambista de final de semana levou sua barriga para passear no bloco. A madame do 503 levou um cachorro preto para passear no bloco. O pitboy levou seus bíceps e tríceps para passear no bloco. As estudantes de comunicação da PUC levaram suas bundas e peitos para passear no bloco. O bucha levou seu ar cabisbaixo para o bloco, e ficou olhando para as estudantes de comunicação da PUC, mas nada fez. Os chatos levaram sprays de espuma. E tome cerveja na lata.

O bloco começa com uma aglomeração, inicialmente incompreensível, de algumas pessoas com camisetas iguais, poças d'água e vendedores de cerveja. Aos poucos, a esquina fica cheia de gente, e, depois, a calçada e a rua. Vem o caminhão de som e, sobre ele, puxadores e meia-dúzia de arrozes. Em tempo, chega a bateria, sob a batuta implacável do seu diretor. Dependendo do bloco, a bateria é cercada e se leva a sério, com coreografia e, dando mole, até paradinha. Quando não é assim, qualquer gringo entra e toca chocalho, atravessando a marcação. Dizem que se aparecer alguém de sangue ruim quando a canjica estiver cozinhando, ela perde a consistência. Com o samba é mais ou menos assim: pinta um mané qualquer tirando onda de ritmista e tirando o ritmo da bateria, que o samba desanda como receita de papinha.

A multidão virou uma esquina e encontrou sua passarela numa rua transversal. Durante o ano, o endereço é chinelo. Mas quando chega o grande dia, até lugar na janela do terceiro andar custa caro. Tudo para ver o povo se espremendo lá embaixo. Inclusive o cronista. No meio do suadouro, acabei encontrando o macaco com asa e bico de tucano - aquele da primeira crônica. Voava baixinho, enrolando a letra do samba a plenos pulmões. Bebia água, para espanto da rapeize. Depois de dois beijinhos estalados, filosofou: ''Cuenca, eu não falei? Começou de novo! O carnaval é o eterno recomeço...'' E foi logo interrompido por um arrastão de foliões e carregado para dentro da muvuca.

Festejavam por eles mesmos e pelo resto do mundo: doentes, desabrigados, famintos, e também pelos que não gostam de carnaval. Peripatéticos, deram a volta no quarteirão e veio a noite. O surdo estremecendo os postes, a lua refletindo o brilho do suor no corpo das meninas. Ninguém arredou pé: pai apressado, casal de jornalistas de cultura, estudantes de sociologia alcoólatras, senhores bagaceiros vestidos de mulher, trabalhadores, mendigos, pensionistas e ambulantes, sambista de final de semana e sua barriga, madame do 503 e seu cachorro preto, pitboy e seus bíceps e tríceps, estudantes de comunicação da PUC e suas bundas e peitos, bucha e seu ar cabisbaixo, chatos e seus sprays de espuma, macaco com asa e o cronista. Amanheceu, anoiteceu e amanheceu de novo. Todos se alimentando de salsichão, cachorro-quente e picolé. Casais se formaram, se desencontraram e se encontraram de novo. Crianças perdidas foram encontradas e as encontradas perderam-se de novo. O samba empolgou, atravessou e voltou a andar.

Lá pelo segundo mês de folia, depois de milhares de voltas no quarteirão, esbarrei de novo com o macaco com asa e bico de tucano, que insistia numa insólita dieta de água mineral com gás e picolé de coco. Ao lado da bateria, ele me abraçou e, coladinho no ouvido, cochichou: ''Você ainda vai viver essa vida uma vez... E dezenas, e centenas de vezes! Cada dor e cada alegria, cada pensamento e cada suspiro, cada beijo e cada fora, cada chopinho e cada dor de dente ainda voltarão a você, todos na mesma seqüência e na mesma ordem. E também o batucar dos tamborins, a letra do samba e essa folia, e também este instante e eu mesmo. Presta atenção, rapaz! Você deve levar a sua vida de forma que queira vivê-la outra vez. Pois, de qualquer forma, você viverá novamente. Se liga!'' E voou, enigmático, deixando um rastro de picolé derretido sobre os prédios da Rua das Laranjeiras.

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Motorista de táxi reconhece cronista e anuncia fim do mundo

(Jornal do Brasil - 22.01.2005)

Segundo o instituto Cuenca de pesquisa, o Rio de Janeiro é a cidade que tem a maior proporção de taxistas por habitante no planeta Terra. Ou pelo menos é assim aqui na Rua Marquês de Abrantes. O sujeito acena para um amigo do outro lado da rua e logo se forma uma fila de carros pintados de amarelo com uma listra azul. Até que o homem justifique sua ingênua saudação e o táxi apague o pisca-alerta e siga seu caminho, buzinaço, confusão e revolta dos outros motoristas. Cada táxi tem, por trás do volante, um jogador. Aposta com a sorte o tempo inteiro. Troca a noite e o dia, lutando pelo troco incerto, pescando passageiros. Às vezes o cara pode rodar horas sem pegar nenhum. Noutro dia, pega uma seqüência boa de corridas e volta para casa mais cedo, alegria da criançada e da mulher.

Sempre sento no banco do carona nos táxis, não sei bem por quê. Acho que sinto certa inveja dos taxistas por eles nunca saberem direito para onde estão indo, ou com quem. Não sou de puxar papo, mas quando o taxista quer conversar, não me esquivo. Na última quinta-feira, o motorista olhou estranho para depois disparar, com aquele jeito oblíquo dos taxistas: "Eu conheço o senhor..." Engatou a primeira, ligou o relógio e continuou: "Acho que o senhor é aquele cara que escreve pro Jornal do Brasil... Aquele novo, com o nome engraçado." Surpreso, disse que eu era eu mesmo. Foi como se tivesse aberto o ralo de uma banheira.

"O senhor sabe, seu João Paulo, né?, que a primeira vez que eu li o senhor foi por causa desse nome estranho do senhor... Eu pensei, aqui comigo, com esse nome o sujeito deve ser maluco. Só pode ser ruim da cabeça. E era mesmo!" Riu sozinho, fez meio minuto de silêncio e, quando eu ia dizer algo, me interrompeu. "Tem outro colunista que eu já peguei no meu táxi, um Joaquim..." Eu completei: Ferreira dos Santos? "Isso mesmo, exatamente! O Joaquim! Eu falei até umas coisas com ele uma vez e ele escreveu no jornal, na crônica dele, e eu me senti muito importante, mostrei pros colegas lá do ponto, mas é aquilo, né? No jornal você só é famoso por um dia. No dia seguinte, hoje já é ontem e aí, babau! Mas acho que os colunistas de jornal usam os taxistas para falar as coisas que eles querem, porque eu não falei exatamente aquilo que saiu lá. E sempre tem uma crônica com um taxista falando besteira! Vocês não tem imaginação, não? E outra coisa: não é "taxista". Nós somos motoristas de táxi!"

Eu disse que ele não deveria confiar nos cronistas. De certa forma, o cronista é um tipo de taxista, mas daqueles que faz bandalha e altera o taxímetro. O taxista pega passageiros enquanto os cronistas pegam carona nas palavras dos outros. Também é um jogo de sorte. O cronista caminha pela Rio Branco atrás das palavras incertas. É uma ave de rapina que arranca pedaços de realidade para publicar no jornal. A diferença é que, normalmente, as palavras não acenam para o autor: precisam ser extirpadas.

O taxista não estava muito interessado no meu papinho de escritor e perguntou, após pausa grave, se eu não estava preocupado mesmo é com as calamidades do planeta. A contar: epidemias, tsunami, terrorismo, guerras e, pior ainda, a máfia no Palácio da Guanabara. Eu, com alguma preguiça de levar o papo adiante, disse que desde sempre foi assim. Olhava pela janela, tentando fixar alguma imagem. Mas o taxista andava rápido demais. Descobri na ficha presa ao pára-brisas que seu nome era Menezes. E Menezes disse que o mundo estava para acabar, sem papo furado! Que os computadores falaram que o clima da Terra só suporta vida até 2050, no máximo. Superaquecimento, camada de ozônio, essas coisas. Isso sem falar do meteoro de 2017, sabe o meteoro de 2017? E os bichos ficando malucos: pingüim em Copacabana, tubarão em Ipanema, cobra cascavel na Avenida Brasil, chuva de gafanhotos no Egito e na Austrália? E as tormentas magnéticas? E o eixo da terra cada vez mais fora de prumo? E a era glacial, que ocorre a cada dez mil anos e nenhuma acontece a uns doze mil? "Ou seja, pode rolar um congelamento a qualquer momento. Escreve aí!"

"O senhor que me desculpe, mas eu não acredito em nada que sai no jornal. Só compro mesmo pra passar o tempo. Aliás, nem em jornal, nem em tv! Por exemplo, o homem passeando na Lua. Lorota da boa e todo mundo sabe disso. Mas a televisão domina a cabeça das pessoas... O senhor pode pesquisar! Para ficar informado hoje em dia, tem que ser pela internet, onde tem informação privilegiada. Sou motorista de táxi, mas sou malandro, não dou mole pra urubu. Essa eleição do presidente americano: manipulação! É mais um sinal do fim dos tempos. Logo, logo a era do medo vai acabar e a Babilônia vai cair, o senhor vai ver. E isso não sou eu quem diz, não. São os maias e os egípcios. Nostradamos, a Bíblia e as aparições da Virgem Maria. E esse papa aí é um dos últimos, segundo São Malaquias! O senhor pode pesquisar! Senhor... Onde o senhor vai? Quanto deu a corrida? Aqui no meio da avenida mesmo? Ei, não precisava bater a porta! Também, com um nome desses..."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:27 PM


Segunda-feira, Janeiro 24, 2005

TÔ COM O MAILER



Norman Mailer pede que se suprima a publicidade na televisão

WASHINGTON, 23 jan (AFP) - O escritor americano Norman Mailer, antigo "enfant terrible" do mundo literário e que em breve completará 82 anos, pediu este domingo a supressão de toda a publicidade na televisão a fim de permitir que as crianças possam se concentrar e ler mais.

"Acho que a publicidade na televisão deveria desaparecer. Vale mais a pena pagar diretamente pelo que gostamos de ver na televisão do que pagar o preço espiritual de nossos filhos e dos filhos de nossos filhos", declarou o autor na última edição do suplemento Parade, publicado todos os domingos pelo jornal Washington Post.

Norman Mailer - que participou recentemente em um episódio da série televisiva "Gilmore Girls-Tal mãe, tal filha "- respondeu assim à pergunta "O que você faria se pudesse mudar algo para que os Estados Unidos melhorem?"

"Entre 1982 e 2002, o número de livros lidos anualmente por nossos adolescentes e jovens adultos caiu 25%", lamentou o escritor ao longo do artigo no qual passa em revista os problemas do sistema educacional americano.

"Não é preciso ir muito longe para encontrar o culpado: em todas as partes há estudos publicados nos quais se mostra que são muitas as horas por dia dedicadas à tela de televisão".

"Universalmente se admite que o poder de concentração na leitura é o caminho real para o saber, mas o que não se percebe claramente é a importância da concentração para a força psíquica, que pode desenvolver ou também enfraquecer um músculo", afirmou.

O escritor não acusou a televisão como um todo, mas referiu-se especificamente às mensagens publicitárias, "cujo volume aumentou 36% entre 1991 e 2003" ns grandes cadeias nacionais dos Estados Unidos.

Segundo ele, a agressão representada pelos anúncios desencadeia nas crianças dois tipos de personalidade: os hiperativos e os passivos, que se tornam obesos.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:13 PM


Segunda-feira, Janeiro 17, 2005

MEDO DE AMAR



Fotos do Christiano Menezes que ilustrarão a coluna da TPM de fevereiro.

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Vi o Chico cantando essa canção do Vinícius na primeira Flip, em 2003, quando o poetinha foi homenageado numa noite estrelada de agosto. Estou pensando em escrever uma crônica sobre o Vinicius, tenho lido e pensado muito nele.

O Vinicius e o Nelson morreram no mesmo ano, 1980, quando eu tinha dois anos de idade.

Sei que pega mal falar essas coisas, mas eu gostaria de ter meus 26 anos em 1958, ou em 1939, ou em 1921. Nostalgia estranha.

"Medo de amar
(Vinicius de Moraes)

Vire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz

Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor"

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Quem me dera que a vida fosse um poema do Vinicius, onde o ciúme é o perfume do amor.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:54 PM


Sábado, Janeiro 15, 2005

Sobre a profissão, a rotina e a avó do cronista

Liguei para desejar feliz Ano Novo a minha avó. A coroa não deu confiança e mandou logo a real, na fuça do cronista. ''Meu filho, você está empregado?'' Não entendi a pergunta e pedi para repetir. ''É, emprego... Você tem um emprego fixo?'' Respirei fundo e soltei de prima, sem preparar o terreno: eu escrevo. A senhora deu uma gargalhada que me fez afastar o ouvido do telefone. ''Qual sua idade, meu neto?'' Respondi, como se ela não soubesse. ''E você não acha que está velho demais para isso?'' A senhora sabe que é comum dizerem justamente o contrário? ''Você já está na idade de acordar, tomar banho, se vestir e ir trabalhar todos os dias! Você não faz isso?'' Eu trabalho em casa... E foi outra gargalhada, desta vez interrompida por acessos de tosse. ''Em casa? Trabalho? Mas isso não é trabalho, meu filho!'' Minha avó tem 82 anos. Não que isso faça diferença.

Semana dessas, encontrei com amigos de faculdade num chope de fim de ano. Todos eles seriam o orgulho da vovó: trabalham em grandes empresas, fazem doutorado e acertam o despertador para tocar de madrugada. Sou a exceção. Graduei-me em economia pela UFRJ depois de intermináveis seis anos matando aula para jogar bola, botão, truco, beber cerveja no Sujinho, tocar violão ou, para desespero da senhora, ficar em casa olhando para o teto. Meus colegas economistas consideram esse papo de escritor uma excentricidade e, surpresos com meu relativo sucesso, invariavelmente me recebem com um ''tá famoso, hem?'' num tom entre a ironia e o escárnio. Para os economistas, sou um dândi louco que virou escritor. Para os colegas escritores, a formação em economia pega muito mal. Acham esquisito. Meninas estudantes de letras viram a cara, jornalistas engolem seco e platéias fazem muxoxo quando revelo minha formação universitária, como se estivesse confessando a todos um crime terrível, revelando a face oculta de um tarado.

Minha avó não sabe, mas há quase dois anos não piso num escritório. Apesar da vagabundagem na faculdade, sempre trabalhei. Cinco anos como economista, passando o crachá na roleta. Hoje, faço meus horários e não tenho hora para nada. Se não acordo cedo, escrevo até amanhecer. Meu computador fica ao lado da janela e escuto todo o tipo de barulho que ninguém escuta. Muitos deles não vêm da rua, ou aqui de casa. Posso ficar 12 horas sem comer e sair para almoçar sozinho entre os espelhos do Lamas, às dez da noite. É uma vida desgarrada e triste. Se o corpo sai de perto do computador, a cabeça não pára de maquinar. Dependendo do seu processo de criação, pode ser um inferno. Tenho saudade de quando tinha hora. Almoço com colegas no Centro, metrô lotado para voltar, jantar na mesa posta. Esse senso de coletividade e rotina se perdeu. Se eu ganhasse um algum, alugava sala na Av. Rio Branco com um computador e uma cadeira. Acordava cedo, café e banho tomado, e ia trabalhar. Porta sem placa trancada até as seis da tarde e depois, chope e casa. Anda cada vez mais difícil merecer o que se bebe e aquele chope de final de expediente no Centro desce como uma recompensa.

Com ou sem placa na porta, fato é que escritores se auto-titulam, daí a resistência da vovó. Qualquer vagabundo sobe num banco de praça, engradado de cerveja ou caixa de laranja e diz: ''Sou escritor''. Junta um troco, publica um caderninho de xerox, abre uma página na internet e é isso. Rapidinho o populacho junta e acredita. E mesmo que não acredite, o sujeito continua sendo escritor. Ou então o mané, com medo que lhe chamem de cabotino, fecha os escritos num baú ou num arquivo de computador, joga um litro de álcool Pring, risca um fósforo e queima tudo sem mostrar para ninguém. Continua sendo escritor. E é bom que seja assim. Não acredito que o contato com a ''máquina poética, o meio literário, a editora, a imprensa, os colegas, os agentes e os ninjas apicultores'', como disse outro dia o colega Nazarian, faça de um sujeito escritor diplomado. O escritor, antes de tudo, é um lunático que acredita que é um escritor. Dona Carmen que o diga.

JB - 15/01/2005

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:09 PM


Sexta-feira, Janeiro 14, 2005

A SEGUNDA

"Volto a 1944. Depois das primeiras representações de Vestido de Noiva, fui um narciso extremamente maligno, que se dispôs a destruir todas as outras imagens. Para mim, só eu devia existir. Nada de Joracy Camargo, Magalhães Júnior, Fornari e outros, e outros. Pouco me interessava a qualidade dramática ou poética dos competidores; o que me ofendia, como uma desfeita, direta e crudelíssima, era o sucesso alheio.

(...) Ao mesmo tempo, todos os suplementos literários falavam em mim. Álvaro Lins abriu meia página do Correio da Manhã sobre Vestido de Noiva. Dizia: - "Nelson Rodrigues ocupa no teatro brasileiro uma posição excepcional e revolucionária como a de Carlos Drummond na poesia". Só esse paralelo era de causar vertigem. Eu e Carlos Drummond, lado a lado. Pompeu de Sousa lançou toda uma série de artigos. Em São Paulo, outros escreviam e com a mesma exaltação.

"Sou um gênio", eis o que me dizia, "sou um gênio". Lembro-me de que Carlos Drummond foi ver a segunda representação de Vestido de Noiva. No final, estava eu à sua espera. Atropelei-o no meio da escada. "Desiludido?", foi a minha pergunta. E aquele magro, aquele áspero, teve uma luz na sua aridez; respondeu: - "Formidável!".
Nas minhas atuais crônicas de futebol, digo que certos jogadores são carregados na bandeja, e de maçã na boca, como um leitão assado. Essa metáfora também me cabia nos tempos de Vestido de Noiva. Por vezes, me sentia carregado numa prodigiosa bandeja. Todas as noites, antes do sono, baixava em mim uma obsessão linda: - "Hollywood vai me descobrir".

(...) Mas não conseguia fazer a minha segunda peça. Comecei e recomecei umas cinqüenta vezes. E não escrevia sem pensar nos meus admiradores. Eis o que me perguntava: - "O que dirá o Álvaro Lins? E o Manuel Bandeira? E o Pompeu? O César Borba? E o Drummond?". Um belo dia, descobri que todos os citados, e mais outros, e outros, seriam meus co-autores fatais. Eu era um território ocupado por bandeiras, álvaros, pompeus, borbas, prudentes. Cada admiração me comprometia ao infinito.

O heróico da minha descoberta é que o elogio não perdera, para mim, a sua graça plena. Ver o meu nome no jornal ainda me fascinava. Mas e eu? E eu? Eis a verdade que, em tempo, percebi: - o elogio era uma falsa e perversa delícia. Ainda agora, vejo a figura ameaçada de Guimarães Rosa. Não sei se ele fará algo que se pareça ao Grande Sertão. Das nossas figuras literárias, é, que eu saiba, a mais acuada pela horda bestial dos admiradores. Quando ouço alguém dizer do Rosa que é o "nosso maior prosador", tenho vontade de pedir, pelo amor de Deus: - "Não o matem antes do tempo".

O nosso romancista está em crise de solidão. Falta-lhe solidão. Tem de sair, de picareta, ceifando, demolindo as admirações que hão de corrompê-lo fatalmente. Foi isso, pouco mais ou menos, que fiz, depois da apoteose de Vestido de Noiva. O furioso Álbum de Família foi, sim, uma tentativa de solidão, de ruptura, de aniquilamento."

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Nelson Rodrigues, 1993, A Menina sem Estrela, São Paulo: Companhia das Letras, pp. 213-217.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:58 AM


Quinta-feira, Janeiro 13, 2005

O ciúme de Nelson

"(...) Além da tuberculose, havia outro fantasma para Nelson em Campos do Jordão: o ciúme.

Elza conheceu cedo esse lado de Nelson. No fim do outro ano, 1938, ela fora, como sempre, ao baile do Liceu de Artes e Ofícios e, também como sempre, dançara a valsa com um velho e inocente amigo, Amauri. Nelson a fizera prometer que não falaria mais com Amauri. Mas, para todo lado que se virasse, via candidatos à mão de Elza ou imaginava que ela era a interessada neste ou naquele. Um dos que insistiam em protagonizar os pesadelos de Nelson era um tal de "Alemão". Amauri e "Alemão" foram o pretexto para um duro bilhete seu a Elza, mais uma vez passado pelo contínuo de "O Globo Juvenil":

"Elza. Ontem eu vi você com o Amauri. E quero perguntar a você uma coisa: você compreende agora por que o "Alemão" não quis nada com você? E por que nenhum homem que se preze quererá nada com você? E por que eu vou chamá-la, com pura e seca justiça, de menina sem dignidade, sem pudor, sem nada que justifique um simples e banal cumprimento meu? Você compreende isso? Se compreende, meus parabéns. Agora um apelo: afaste-se do meu caminho e chore por sua lamentável alma. Nelson"

Na primeira vez que se cruzaram sozinhos no elevador de "O Globo" depois desse bilhete, Nelson agarrou Elza e beijou-a com violência. Violência desnecessária, porque ela se deixaria beijar por ele com muito prazer. Mas era um beijo para humilhá-la - porque, em seguida, Nelson desprendeu-se e virou-lhe as costas. Uma situação da futura "A vida como ela é..." Mas nem a raiva de Nelson nem aquele beijo roubado eram para valer, porque os dois fizeram as pazes em pouco tempo e, contrariando mãe e patrão, toda uma operação de guerra foi combinada para a nova data do casamento."

"O anjo pornográfico", Ruy Castro, pg 147

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Do mesmo livro, trecho de carta escrita por Nelson, desde o sanatório de tuberculosos, para Elza:

"Se eu pudesse - se os Deuses permitissem - teria assistido hoje ao teu despertar. E, então, teria feito uma festa de luz, de cor, de aroma. Eu transportaria para tua alcova toda a vibração musical da aurora, todo o estremecimento solar. E teria enfeitado os teus cabelos com o mais lúcido e macio dos raios de luz; e teria espargido sobre os teus ombros o perfume mais suave da manhã; e teria prendido no teu riso a pétala mais diáfana. E, quando te levantasses, eu faria com que pisasses rosas frescas e voluptuosas; e assim teus pés teriam como que sandálias de perfume."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:56 AM


Sábado, Janeiro 08, 2005

CRÔNICA DO SÁBADO

Feliz 2005, bebendo sidra, pensando em nada

Quase meia-noite e eu ainda na Toneleros. Segurando uma garrafa de sidra das boas, safra 1977, desvio de transeuntes menos ansiosos, carros estacionados em fila tripla, isopores de cerveja, ônibus empacados no meio da avenida sob a condução de motoristas melancólicos, gringos tropeçando em pedras portuguesas, bêbados em geral, crianças e velhos, negras e loirinhas de tamanco carregando flores para Iemanjá, gerações de famílias se dirigindo à Praia de Copacabana. Uma beleza de festa, tranqüilidade total, e ficamos assim, sem a ladainha que se repete anualmente como os perus secos que sobram da ceia de Natal: ''o réveillon de Copa é o mais democrático, civilizado, 2 milhões de pessoas e, que coisa!, ninguém morreu''. Não entendo tanta festa pela festa: isso é o mínimo que se espera. Ou não?

Mas vamos correr essa fila que eu estou na noite do 31, saindo da Toneleros, e tenho uma história para contar. Depois de alguns minutos de suave euforia, pirilimpando pelo meio da rua, chego à Avenida Atlântica. Eis que surge amigo meu de longa data, na esquina da Figueiredo Magalhães, carregado por uma nuvem de gafanhotos egípcios. Os insetos trazem suavemente seus pés ao chão e ele anda dois passos até me olhar nos olhos e dizer: ''Cuenca! Não acredito. Era você quem eu precisava encontrar hoje!''. Sim, colegas de crônica: é o nosso amigo Bucha, buchando solitariamente no Ano Novo. Ainda deprimidíssimo, claro. Os gafanhotos abaixam suas antenas e ficam por ali, meio perdidos e cabisbaixos. ''O réveillon, Cuenca...'' Eu pergunto, grande erro!, por notícias da ex-namorada. Compramos duas latas de Skol e o Bucha dispara: ''Ninguém me contou, mas sei que ela está com o próximo, neste momento, enquanto falamos... Elas sempre têm um próximo. Sempre!''. Já arrependido de ter dado conversa, me resigno e seguimos andando até a areia, sob o som de fogueteiros precoces.

O Bucha gosta de ouvir o som da própria voz no meio da multidão. ''Cuenca, olha toda essa gente. Todo mundo com cartão estourado, nome no Serasa, parente no hospital, sem emprego, com dor-de-cotovelo! Mas no Ano Novo você não vê um só muxoxo, Cuenca! Até as meninas cheias de não-me-toque e cara de nojinho, até essas de cabelo alisado, olha lá!, andam distribuindo sorrisos, cantando Ivete Sangalo, e antes de amanhecer vão chamar urubu de meu louro, rolando na areia com um qualquer de havaianas!'' Eu disse para o Bucha aproveitar e farpar logo com elas, mas foi cuspir álcool na fogueira. ''E o tsunami, Cuenca! Como essa gente pode estar feliz...'' O bicho estava pegando, e pegando feio na paciência do cronista. Como dizem as moças: ninguém merece.

Quando veio o fog londrino na praia, demorou pro povo entender direito o que estava acontecendo. O céu baixou e, da praia, não dava para ver prédio nenhum. Nem fogos, nem o mar, nem a lua amarela refletindo no mar, nem as cascatas, nem a barraquinha dos barraqueiros, nem quem estava do seu lado, nem nada. Só a fumaceira. Vaiaram e botaram a culpa nas mães do prefeito, do secretário de Turismo e do argentino fogueteiro, nessa ordem. Depois esqueceram e foi festa. No décimo segundo andar de um apartamento qualquer na Avenida Atlântica (eu entrego: esquina com Ronald de Carvalho!), alguns amigos acreditaram que o fumacê estava diretamente relacionado com as atividades ilícitas que transcorriam na festa, dentro de um quartinho. Outras explicações foram dadas para o estranho fenômeno: excesso de paulistas na avenida, misteriosas inversões térmicas, correntes marítimas provenientes do tsunami asiático, falta de vento e Urano entrando em Peixes.

Mas o Bucha revelou o segredo, aos 17 minutos de 2005: ''Meus gafanhotos! Taparam tudo!''. Calma, leitor, que essa aí nem eu acreditei. Nem eu, nem o Pedro dos espelhos do Lamas, nem o senhor que vê através das paredes, nem a menina de olhos verdes. Mas o Bucha continuou: ''Cuenca, eu não falei que esse réveillon ia mixar? Muitas energias, cara''. O Bucha só ficou triste pela gringalhada que gastou uma grana no Copacabana Palace e não viu nada. O povaréu não mereceu piedade: ''Eles não geram receita para a cidade e, no mais, vêm todo ano, sem gastar tostão. Mas os gringos, não sei quantos mil dólares... E ainda tem a criminalidade!''.

O gringo assaltado e a capivara da lagoa, tão fofos e tadinhos. E a gente se apertando?, argumentei. Mas o Bucha não quis nem saber e continuou reclamando até que os gafanhotos se reuniram do lado de uma roda de macumba, voltando a zunir e bater asas. O Bucha recuou, magoado com o cronista, abriu braços e se deixou levar pela nuvem de insetos. Eu, que ainda não tinha aberto minha garrafa, estourei a rolha e joguei tudo na cabeça. Depois fui por aí, feliz e sem pensar em nada. Por isso o Ano Novo é esse sucesso todo: apesar do horizonte fechado, cheio de gafanhotos, faz o povo pensar em nada.

http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/colunas/cuenca/

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:03 PM
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