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chico queiroz

Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Quarta-feira, Dezembro 29, 2004

tsunami

"Carmen arqueia as costas para o vazio enquanto a água começa a subir pelas calçadas. É a cheia das seis horas da manhã, quando as ondas explodem na praia. Logo se alimentam da faixa de areia, ganham o calçadão, a avenida e as portarias. A enxurrada alcança os carros e forma um rio turvo e caudaloso na rua. Cada nova onda faz o chão d´água balançar e subir de nível, chupando os prédios numa velocidade cada vez maior. Olho para baixo, a água alcança o segundo andar. Os carros flutuam e se chocam contra a fachada dos prédios, invadem janelas ao som de pequenas explosões que fazem a água tremer e borbulhar ainda mais. O som do maremoto absorve todos os outros e, em pouco tempo, não se escutam mais gritos, televisões ligadas, motores e freadas, não se ouve mais aquela nota grave que sobe do chão o tempo inteiro ocupando as madrugadas. Eu só escuto o farfalhar das águas frias dançando contra o concreto, invadindo todos os buracos e saídas, soterrando cada apartamento, limpando cada pequeno pedaço do Lido, arrancando das paredes o mofo, riscando cada possibilidade, raspando a poeira do chão. A água jorra pelos ralos que carregam o esgoto para cima e eu posso ver a massa de detritos subir em colunas retas, posso ver os resíduos de todas essas janelas fechadas subindo como flechas até a superfície da água que engole e mistura cada um de nós numa massa única e compacta, uma mistura de carne e merda, aço e concreto, terra e água.

Carmen cai da janela em frente. Seu corpo se esmigalha contra o fio d´água, meus restos afundam num rastro de sangue. Desaparecem. Alberto me encara atônito, mas seus olhos não me dizem nada, estão brancos - eu roubei o seu olhar."

Pgs. 98-99

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 7:03 PM


Sexta-feira, Dezembro 24, 2004

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 11:46 AM


Segunda-feira, Dezembro 20, 2004

OUTRO CORPO

Acabei de descobrir que existe outro livro chamado "Corpo presente". É de um poeta albanês que escreve em italiano, chamado Gezim Hajdari. Eu sou um colecionador de coincidências e não poderia deixar essa passar. Leia o Gezim nos links abaixo:

http://www.albanianliterature.com/html/authors/poetry/hajdari.html

http://www.disp.let.uniroma1.it/kuma/sezioni/poesia/Gezim_Hajdari.html

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"Ho girato su e giù per le strade di Roma
per vendere il mio Corpo Presente
è l'ultimo giorno dell'anno santo
come posso giungere a festeggiare con te dopo otto inverni
in Occidente
il viaggio costa venti volte il prezzo del mio libro di poesie
e nei tuoi occhi la mia assenza diventa più profonda
sulle tue labbra secche il mio nome è pronunciato più spesso
alti sono i muri d'acqua che ci dividono
e sotto le loro ombre cresce spaventata la nostra vita"

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"Hajdari has been marked as an individual and as a poet by his experience of exile and isolation. "My identity is Gëzim, my body is my fatherland."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:57 PM

RESPONSA

Na coluna do Daniel Piza deste sábado: "E nenhum desânimo quanto à ficção faz sentido porque 2005 promete com o novo romance de Milton Hatoum, os testes de amadurecimento de jovens revelações como João Paulo Cuenca e os testes de vitalidade de veteranos como Rubem Fonseca."

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"Try walking in my shoes
You´ll stumble in my footsteps"

Walking in my shoes / Depeche Mode

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:35 PM


Sábado, Dezembro 18, 2004

CRÔNICA DO JB DE HOJE

Quinze chopes escuros e um do claro

Cercado por 15 inseparáveis amigos, fui ao Bar Luiz no último sábado. Todos pedimos chope. Foram 15 calderetas do escuro e uma do claro - a minha, brilhando solitária na mesa. Para acompanhar, algumas porções de kassler com salada de maionese. Na contramão do savoir vivre vigente nos cadernos semanais que orientam a família brasileira a comer bife de soja, leite de rã e sorvete de alface, preferimos, os 15, estômago pesado e chope cremoso, especialmente numa tarde quente de dezembro. E o chope do Bar Luiz ainda é o melhor de todos, apesar dos garçons às vezes emburrados e do preço alto.

Rápida digressão sobre o chope: o moço pode servir sem colarinho que a gente bebe. O boteco da esquina, que ainda vende chope mal tirado, tornou-se instituição atacada pela sociedade. Injustiça. Existe coisa mais prática e moderna do que ter chope num pé-sujo? Por que, de repente, essa exigência absurda do chope assim-assado? Coisa de gente que se diverte a sério. Antes de sair de casa, consultam um guia de botequins, vestem bermuda cáqui e chapéu panamá. Só falta cheirar o chope para sentir o seu ''bouquet'' e vaticinar: ''hum, aveludado este Brahma safra semana passada!''. Conosseurs de botequim cheios de frufru. Chatos de sandália de couro. Há quem diga que chope é que nem mulher: desce bem ou mal, sem meio-termo ou vã filosofia. Meus 15 amigos concordaram na mesa. E voltemos ao Bar Luiz, antes que a crônica mude de rumo e dê briga de casal.

Estava calado (os 15 conversavam sem parar) olhando as dezenas de fotos em preto e branco penduradas nas paredes art déco do Bar Luiz. Sempre que vejo fotos antigas e desbotadas, me ocorre que todos em breve passaremos para o outro lado da moldura. Eu, os garçons, os leitores da crônica e cada um dos seis bilhões de habitantes deste planeta. Registrados compulsivamente através de fotografias e vídeos, fotologs, fitas VHS, blogs ou seja lá o que for, estaremos todos mortos em menos de uma centena de anos. Para as pessoas que ocuparão a terra (este apartamento, o elevador, a rua, a mesa do bar) depois de nossa partida, seremos apenas fotos como as da parede e, dando sorte, algumas poucas frases. Nos computadores, seqüências intermináveis de zeros e uns formando cores e formas, letras e palavras armazenadas. Cada um de nós, sem desvio ou retorno. Direto para o fundo esquecido da gaveta. Se o leitor duvidar, peço por favor que recite, de cor, o nome de todos os seus bisavôs e bisavós.

A esperança é virar foto de bar, o que não é pouco. Ou então dar a sorte de ganhar a celebridade de um Jesus Cristo, Cervantes ou Shakespeare. Mas isso também não anda fácil - a fama passa cada vez mais rápido. A maioria de nós terá que se contentar com alguém, gerações adiante, encontrando nossas fotos à venda numa loja de quinquilharias, ou arquivadas num diretório perdido de uma página da internet. Essa pessoa verá o sujeito atravessando a rua e vai perguntar ''o que será que esse cara estava pensando naquela manhã?''. Nós não responderemos.

Segundo a Harper's Magazine (dados irresponsavelmente colhidos no Google), a proporção entre mortos e vivos é de 15 por um. Ou seja, já viveram neste planeta cerca de 90 bilhões de pessoas. Quinze mortos para cada um de nós. Os mortos estão em proporção maior do que a dos ratos (dez por habitante, quatro milhões nascendo a cada dia), mas bem menor do que a dos insetos (200 milhões por habitante, sendo 1 milhão só de formigas). Piedoso com as moças, não divulgo o número de baratas. Animais de estimação também parecem ser uma praga, por mais que eu simpatize com eles: para cada ser humano há 45 gatos e 15 cães - o mesmo número de mortos. De qualquer forma, os mortos ocupam mais espaço.

Resolvi tirar uma chinfra com os meus 15 colegas de chope no Bar Luiz. Interrompi a conversa e comecei a enumerar essas e outras estatísticas utilíssimas para todos nós. Até o garçom chegou perto pra ouvir que cada ser humano pode se considerar representado por 69 sóis na Via Láctea, nove galáxias e 0,0166 crianças de rua. Ou seja, para cada grupo de 60 humanos (cinco times de futebol, 12% do total da Câmara dos Deputados em Brasília, cinco rodadas do Big Brother Brasil e uma sala de aula de cursinho pré-vestibular) há uma criança passando fome no mundo. Para esta criança, mil sóis perdidos em cada uma das nove galáxias que correspondem ao seu naco de universo. Foi aí que deixei todo mundo deprimido e o chope escuro bateu mal. Meus 15 amigos pediram, em uníssono, ''a saideira e a conta!''. Desapareceram e voltaram para trás das molduras. O cronista sempre acaba sozinho no bar.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:14 AM


Sexta-feira, Dezembro 17, 2004

MACHADO QUE ROMPE O MAR GELADO

Há alguns meses o JB publicou opinião minha sobre o filme "O retorno" na página "filme em questão". Dias atrás vi Stalker, do Tarkovsky, e lembrei desse texto. Ainda não tinha publicado isso por aqui. Aí vai.

"Filme em questão - O retorno

Machado que rompe o mar gelado

Na terça-feira peguei um Estação Botafogo quase vazio às dez da noite para ver "O retorno", estréia do russo Andrei Zvyagintsev que ganhou cinco prêmios (incluindo o de melhor filme) no último Festival de Veneza. Fora isso, pouco sabia. A única referência que tinha era a opinião de um amigo, dada no dia anterior. Admitindo a qualidade visual do filme, lindamente fotografado, sem esconder o incômodo me fez o seguinte comentário: "Para que contar uma história dessas?"

Desde a primeira cena, Andrei deixa claro que o propósito ali não é exatamente divertir o expectador. E sim fazer cinema como exercício de linguagem e instrumento de reflexão. E tome simbolismo. Considerando que nada disso é muito novo ou revolucionário, uma pergunta: os dois objetivos são plenamente satisfeitos? Deixo a resposta para quem é de respeito, como o pessoal da Contracampo e o Rodrigo Fonseca. Eu digo que achei a direção de Zvyagintsev hábil e minuciosa - fica na cara que todos os planos foram pensados exaustivamente e executados com categoria difícil de se ver por aí. Entre as muitas referências, a maior delas de outro Andrei (Tarkovsky), talvez possa surgir uma voz original. Mas isso só se sabe com o tempo. Como estamos falando do primeiro longa do Andrei (vou poupá-los do sobrenome impronunciável desta vez), não deixei de ficar (muito) bem impressionado.

O Leitmotiv da história está no título mesmo: o retorno. Mesmo se afastando de casa, a impressão é a de que os personagens estão sempre voltando para algum lugar. Apesar da simplicidade da premissa, muitas leituras podem e serão ainda feitas ao fim da projeção. Cuidado com a companhia ao ver "O retorno". Se você for parar numa mesa de chatos universitários, não vão faltar referências a Freud, ex-União Soviética, Stálin e o escambau. Misturando isso tudo e mais um pouco, alguém vai tomar um chope no Amarelinho e dizer que o filme é um libelo à liberdade e a sua conquista, seja qual for o custo, como parte do processo de amadurecimento de uma nação (ou de uma criança).

Na minha leitura particularíssima, e aqui não peço exatamente que me entendam, pensei na morte e nas formas com as quais nós reagimos à ela. Antes que chegue o final da projeção, o filme prova, com três ou quatro cenas simples, a tese de que não existe morto indigno. O morto ganha uma nobreza que nós, os vivos, não temos. O canalha morto ganha feições de santo. Admiramos e perdoamos os pecados do morto, especialmente o morto próximo, com quem convivemos, mesmo que apenas por dois ou três dias. No fundo, o homem, curioso que é, inveja o morto. Não é saudade, simplesmente. Choramos o morto que não somos. Enfim... Pode não parecer, mas acho minhas conclusões mais divertidas do que as do colega do Amarelinho.

Depois de quase duas horas carregado para uma viagem sem saber seu destino, saio do cinema cansado, aborrecido, como se tivesse levado uma pedrada. A narrativa carregada de tensão é apoiada pelas sutilezas nas interpretações do trio de protagonistas, todos excelentes. E, também por isso, vou dormir mal. Incomodado. E aí respondo a pergunta do meu amigo, lá do primeiro parágrafo, com palavras roubadas de Franz Kafka (substitua livro por filme e você entenderá o que eu quero dizer): "Parece-me que deveríamos apenas ler livros que nos mordam e espicacem. Se a obra que lemos não nos desperta como um golpe de punho sobre o crânio, qual a vantagem de a ler? Para que nos torne felizes? Meu Deus, seríamos da mesma forma felizes se não tivéssemos livros. E os livros que nos deixam felizes, a rigor, poderíamos escreve-los nós mesmos. Em contrapartida, precisamos de livros que sobre nós atuem de modo igual a uma desgraça; que nos façam sofrer muito, como a morte de quem amássemos mais do que a nós mesmos; como um suicídio. Um livro deve ser o machado que rompe o mar gelado existente em cada um de nós."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 9:35 PM

De vez em quando a câmera aí de cima resolve apontar para o chão:



Esta é a esquina de onde a foto abaixo foi tirada.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 8:56 PM


Terça-feira, Dezembro 14, 2004

O NOME DOS SEUS BISAVÔS



Foto da Av. Nossa Senhora de Copacabana, quase esquina com Ronald de Carvalho. Anos 50. Não tenho o crédito.

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(VER POST DO DIA 18.12.2004)

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 8:37 PM

PARALELOS NA QUARTA



"15/12 - Lançamento do livro Paralelos (Editora Agir). A partir das 20 horas, 17 autores autografam o livro ao longo da calçada entre a rua Fernando Azevedo e a Dantes Livraria - Dias Ferreira 45 B - Leblon."

A programação completa (é um evento de três dias) está aqui.

Espero vocês lá.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:03 AM


Sábado, Dezembro 11, 2004

CRÔNICA DE HOJE NO JB

A capacidade de enxergar paredes

O senhor acordou no meio da noite e notou algo estranho na penumbra do quarto. Com a cabeça ainda presa ao travesseiro, forçou a vista e teve a impressão de que o lustre sobre a cama não estava mais preso ao concreto liso e branco do teto. Parecia pendurado a um vidro ou a alguma estrutura translúcida. Sequer teve tempo de ficar curioso: rapidamente acendeu o abajur do criado-mudo. Acima do lustre e do que haveria de ser o teto, viu o fundo de uma mesa. A face inferior de uma cesta, um vaso e o estrado de uma cama de solteiro. Desviou o olhar para o lado e viu a base de uma cômoda e o verso de um tapete colorido. Voltou o pescoço para cima, esticou a vista e pôde enxergar, sobre uma montanha de móveis e corpos estendidos, através de uma pequena brecha, a lua cheia.

Levantou-se da cama rapidamente, procurando alguma explicação para o que acabara de vislumbrar. Quando apoiou os pés no chão, uma súbita vertigem lhe subiu pela espinha e tirou seu equilíbrio. Encheu os pulmões cansados e repetiu o processo de exploração visual, desta vez olhando para o chão - que não mais havia. Exatamente sob seus pés, apenas um espaço vazio o separava de uma cama, onde uma senhora dormia e roncava com a TV ligada num daqueles programas que vendem jóias de madrugada. Abaixo da senhorinha, casais, gente sozinha e algumas crianças se amontoavam até o térreo. Todos dormiam, com exceção da menina do terceiro andar, rosto iluminado por uma tela de computador. Devia ter 16 anos, 17, no máximo. Vivia abraçada com o namoradinho, encostada no carro estacionado em frente à portaria do prédio, o que causava particular exaltação ao senhor - às vezes era no capô do seu carro, um Landau 1967, conservadíssimo, que o jovem casal trocava juras de amor.

Deixou a irritação de lado e concentrou-se no seu problema imediato. Ainda confuso, voltou o olhar para a parede em frente a sua cama. Enxergou seu reflexo enrugado, mesmo sabendo que nunca houve espelho naquela parede. Percebeu que seu rosto assustado estava sendo refletido pelo espelho do banheiro do vizinho. E viu a pia do morador do 703, com quatro tubos usados de pasta de dente de hortelã pela metade; o boxe, xampus e condicionadores anticaspa; o bidê, usado como revisteiro, jornal de ontem e revista de mulher pelada.

Caminhou até a janela e, apoiado no parapeito sem cor, tendo o cuidado de não olhar para baixo, apontou a vista para os prédios do outro lado da Rua Paissandu. A visão aterradora dos edifícios descortinados e seus pequenos movimentos por trás das palmeiras fez com que novamente perdesse o equilíbrio. Naquela noite, sabe-se lá por quê, havia perdido completamente a capacidade de enxergar paredes. O concreto e os tijolos das paredes. Não é que as paredes tenham desaparecido ou ficado invisíveis. Elas continuaram lá. A diferença é que ele não as via.

Começou a olhar para dentro da casa dos outros, numa exploração que viria a tomar todos os dias do que restava da sua vida. Naquela noite, a vizinha do terceiro andar era a única acordada além dele. O senhor espichou os olhos alguns andares abaixo dos seus pés, para dentro da mesa de cabeceira da menina. Ali guardava seu diário, bilhetes, recados e cartas românticas que escrevia sem enviar. Cartas bobas, chorosas, que o velho leu sôfrego, com o olhar trêmulo de uma ansiedade que julgava perdida há algumas décadas. Entre páginas marcadas, havia fotos da menina com as amigas na sala de aula, numa micareta no Espírito Santo, entre dois ou três sujeitos que ela certamente havia beijado, para decepção do senhor. Pôde ver também, no mural ao lado do computador, fotos da menina criança ainda. Vaidosa, cabelos presos num rabo-de-cavalo, vestindo vermelho com bolinhas pretas. Certamente malcriada.

Sentado na cama, com o pescoço tombado para baixo, o senhor ficou ali algumas horas acompanhado da menina, suas palavras ingênuas, gavetas, calcinhas e lembranças, até que dormiu. Ainda não sabia, mas deixar de enxergar paredes premiou-o com inédito sentimento de compaixão. Acordou radiante, amando a menina do terceiro andar como nunca havia amado alguém antes.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:14 PM


Terça-feira, Dezembro 07, 2004

TEM MAS ACABOU

Sobre o "tem mais acabou" que algumas pessoas ouvem nas livrarias quando procuram o meu livro, dou uma dica. Encomendem o livro com o vendedor. Normalmente chega rápido. Outra solução é comprar pela internet - tem em todas as livarias online do país.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:54 PM

CRÔNICA BUCHA

Vendo os últimos posts percebi que não publiquei aqui uma das crônicas do JB. Como ando sem assunto, segue:

"O bucha e o Binômio de Lacombe

O cronista está em casa, sentindo pena de si mesmo por não ser Nelson
Rodrigues e escrever crônicas numa velha máquina de escrever manual,
imerso na pândega ruidosa de uma redação lotada, atendendo
pessoalmente telefonemas e reclamações dos leitores, convivendo com
uma fauna de colegas, estagiárias e mensageiros. Hoje, as redações
parecem bibliotecas, as estagiárias não são mais espirituosas e, ao
cronista, resta o computador. Mas a companhia que se pode ter através
da tela não se compara.

Desligo o monitor sob o ressoar de vozes e risadas desconexas que
escalam as paredes e chegam até meus ouvidos, no décimo andar. Vêm da
Adega Real, esquina aqui de casa. Desisto de tentar arrancar idéias
dos meus dedos e me junto ao inimigo barulhento: "um chope, por
favor!". Apesar da noite feita há algumas horas, gente de sunga e
chinelo divide o balcão comigo. Um amigo paulista disse certa vez que,
se a diferença entre as duas cidades pudesse ser resumida numa só
imagem, seria a foto de um sujeito barrigudo de sunga atravessando a
rua. O carioca deve louvar essa distinção como um patrimônio natural.
Meus pensamentos seguem as bolinhas que sobem pelo líquido dourado do
chope quando sou interrompido por um zunido ensurdecedor que cala a
Marquês de Abrantes.

Carregado por uma nuvem de gafanhotos egípcios, eis que surge amigo
meu de longa data. Os insetos trazem suavemente seus pés ao chão e ele
anda dois passos até me olhar nos olhos e dizer: "Cuenca! Não
acredito. Era você quem eu precisava encontrar!" Viro a tulipa num
longo gole e o cumprimento. Os gafanhotos abaixam suas antenas e ficam
por ali, meio perdidos e cabisbaixos. Sossegam as asas e tudo parece
voltar ao normal. Falamos afinidades por cerca de dois minutos:
assuntos de trabalho, política e futebol. É aí que eu cometo o grande
erro e pergunto, "como vai a namorada?". Meu amigo crispa a testa e,
mal contendo as lágrimas que brotam pelos olhos injetados de sangue,
diz estar, novamente, largado no mundo, sem amor. Revela-se, pois, a
face do bucha.

O novo significado para o termo "bucha", cuja definição exata ainda
não ganhou o Aurélio, foi cunhado por um grupo de amigos, todos eles
buchas incuráveis. O bucha não é simplesmente a pessoa "muito
incômoda, desagradável, importuna, ou sem valor". A acepção proposta
define o homem em estado de desilusão amorosa. Rejeitado por uma dama,
afetado por profunda amargura e desamor. Desesperançoso, o bucha
promete nunca mais arrumar outra "porque são todas iguais". Ainda
assim, o bucha procura sua amada pelas ruas e chega a tomar anônimas
que cruzam seu caminho pela mulher que espicaça seu coração. Confuso,
o bucha escuta a voz suave do seu ex-amor saindo de todas as bocas do
mundo. O bucha, constantemente desesperado, sempre acaba encontrando a
ex-namorada passeando com o substituto mais recente. A ex-namorada do
bucha sempre arruma um novo namorado antes dele. E o bucha sofre
horrores. As mulheres sapateiam sobre o ego do bucha, que enche a cara
e a paciência dos amigos. O bucha não tem outro assunto. É uma donzela
corrompida.

Falemos então do tal "Binômio de Lacombe", assim batizado em homenagem
a outro amigo, estudioso desses casos notáveis. O binômio tem fácil
explicação: carência e auto-estima. O bucha está com a auto-estima em
baixa pois foi rejeitado pela mulher que ama. E está carente, com uma
caverna de mágoa no meio do peito. Os fatores que compõem o terrível
"Binômio de Lacombe" se alimentam levando nosso amigo bucha ao subsolo
da existência. Por não ter auto-estima, não consegue suprir sua
carência. Por isso, fica com a auto-estima menor ainda. E mais
carente, e por aí vai. É um circulo vicioso.

Voltando à Adega Real, o que o bucha dos gafanhotos se esforça para
dizer, entre tanto chororô, é que esse papo de relacionamento é a
maior furada. Que, cedo ou tarde, todos eles acabam. E que logo elas
estarão às voltas com seus novos namorados e que todas as juras de
amor terão o valor de um jornal velho. Ser bucha é desconfiar do amor,
sempre. Ofereço um chope ao bucha, mando o sujeito escrever uma poesia
e arrumar outra mulher naquele boteco mesmo. E ainda brindo: "Que
venha a sua próxima!". O bucha, ofendidíssimo: "Cuenca, você está
achando que eu sou o quê?"

Antes que o cronista pudesse afirmar sua crença inabalável no amor
verdadeiro que se esconde por trás do sono da menina de pintinhas e
olhos verdes, os gafanhotos reuniram-se na esquina e voltaram a zunir,
batendo asas. O bucha recuou, muito magoado com o cronista, abriu os
braços e se deixou levar pela nuvem de insetos. Foram em direção ao
Aterro do Flamengo, levando consigo sua névoa fastidiosa de recalque e
romantismo destrutivo. Assim que viraram a esquina, um senhor
barrigudo, daqueles de sunga, me cutucou e disse, "esse aí nunca vai
saber o que é gostar de alguém". Eu perguntei, "e por quê?". O senhor,
com a boca cheia de risole de frango, pousou a mão no meu ombro e deu
fim a crônica com a seguinte frase: "amar uma mulher é também deixar a
mulher ir embora, a qualquer hora".

---

"O que existe são as provas de amor"

Jean Cocteau

Frase citada pelo Jean Marais em "Beleza roubada", do Bertolucci.

Agradeço ao Marcelo pela citação e genealogia da frase.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:01 PM


Segunda-feira, Dezembro 06, 2004

DESVELANDO O OLHAR

Em outubro tive a alegria de comandar uma oficina de crônicas no SESC para uma turma de cerca de vinte alunos. Foi uma grande experiência. Tive muita sorte, pois os alunos eram ótimos. Na época criei um blog para publicar os textos deles produzidos para a oficina. Agora, o grupo se consolidou e manteve, entre chopes, bate papo e troca de idéias, o blog em http://oficina2004.blogspot.com/ . Pretendem dar continuidade a oficina e planejam publicar um livro, mas, acima de tudo, encontraram pessoas com quem podem compartilhar o prazer da escrita.

De alguma forma, ajudei a catalisar o encontro dessas pessoas e isso é muito mais importante do que qualquer coisa que eu tenha dito nas duas semanas de oficina.

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Não deixem de visitar o blog que é excelente: http://oficina2004.blogspot.com/

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:24 PM


Sábado, Dezembro 04, 2004

CRÔNICA JB DE HOJE

Interrogações nos encontros de interrogação

Semana retrasada, peguei o pior vôo da minha vida. Não bastasse o enjôo, causado por uma ressaca de prosseco, o avião decolou mal e ainda pegou turbulência. Pousou em Congonhas com a sutileza que teria a macaca Conga dançando aeróbica. Com a suavidade discreta de um combate de sumô na lama. Amaldiçoei três gerações da família do polido senhor comandante e tratei de empurrar meus pedaços rampa acima, aliviado pela restauração da gravidade sob os meus pés. Mas a náusea voltou enquanto esperava minha mala, perdida entre tantas que giravam e giravam pela esteira. A multidão ansiosa, esperando a bagagem aparecer através de uma cortininha, transportada por uma esteira rolante, é daquelas cenas que resumem o ridículo da condição humana. Todo mundo se acotovelando pela bagagem, como se as malas fossem vedetes de um peepshow.

O que me levou à civilização (no caso, São Paulo) foi o convite para participar de um colóquio de escritores. Os Encontros de Interrogação ocorreram nas modernas instalações do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, reunindo cerca de 90 autores, entre prosadores, poetas e ensaístas. A programação do evento teve oficinas literárias e debates. Iniciativa importante e necessária. Qualquer espaço para falar sobre literatura no país é fundamental. Bem organizado como esse, é um exemplo a ser seguido. Desembarquei, ainda sob o efeito da despressurização, direto para o coquetel de abertura. Era domingo à noite. Rebati o mal-estar com duas ou seis doses. Matei o enjôo com algumas dezenas de salgadinhos goela abaixo. Tinham gosto de ar.

O salão estava abarrotado de gente. Imaginei que o chão fosse ruir, engolindo o Itaú Cultural e duas gerações de escritores. Nem tanto pelos quilos medidos na balança, literatura não dá dinheiro e os autores normalmente são magrinhos - sua dieta básica é composta por petiscos distribuídos em eventos como esse. Mas sim pelo peso dos egos inflados, o choque das vozes, o gesticular expansivo de cada um de nós. Certa vez disse William Faulkner que ''o bom artista acredita que ninguém é bom o suficiente para lhe dar conselhos. Ele tem vaidade suprema.'' Atalho feito, passo a quinta marcha: como concordo com Faulkner e acredito que estava acompanhado por alguns bons escritores, chego ao enfim. Éramos todos imperdoavelmente um bando de vaidosos empertigados. Graças a Deus.

Participei de uma mesa-redonda cujo tema era a manjada pergunta: ''Blog é literatura?'' Respondo a perguntas chatíssimas sobre isso há uns três anos e fico com pena dos sujeitos que inauguraram a crônica publicada em jornal. Pode não parecer, mas um dia também se questionou se a crônica era uma forma literária. Como um dia acharam que a televisão acabaria com o cinema, que acabaria com o rádio, que acabaria com os livros... Vejo a discussão ''literatura versus internet'' como anódina perto do que realmente importa: a qualidade da produção literária recente no país - esteja ela na internet ou não.

(Acredito que o cronista deva ser didático e explico rapidinho pra senhora, em poucas linhas, que papo é esse. Blog é um papel em branco na tela do computador que você pode botar num mural pro mundo todo ver. O mural é a internet. Eles ficam querendo complicar, mas é fácil.)

Algum leitor pode ter ficado intrigado com a declaração do Faulkner. Algum colega escritor pode ter ficado ofendido por ter sido chamado de vaidoso. Não é para tanto. Se vaidosos somos todos, escritores principalmente, o pior é que muitos são escritores somente por vaidade. Há muita gente por aí que se lança às letras pela foto na orelha do livro. Pelo lançamento do livro e o bochincho. Pelo debate e a pose de escritor. Pela microfama nas festinhas literárias. Não tem idade definida. Podem ser inéditos, consagrados, vencedores de prêmios, escritores de mimeógrafo, não importa. Se estão infiltrados ou se formam a maioria, ainda não descobri. Fato é que formam um grupo estranho, que fala muito em ''projeto literário'' e fica enumerando influências e leituras, sem esconder a arrogância no olhar. Essa gente se acha até melhor. Em se achar melhor, nenhum problema. Como Faulkner, acredito no escritor delirante, que quebra o espelho retrovisor para que não possa sequer enxergar o cânone. O escritor que vive através das palavras, pelas palavras. E não das palavras. Essa é uma diferença sutil - do tamanho de uma alma.

Falou-se, num dos últimos debates, em encontrar o ''novo Rosa'', a ''nova Clarice''. Apesar do respeito e admiração pelos dois autores, vasculhei os meus bolsos, minha pasta, revirei o quarto do hotel, os armários e o frigobar, mas não encontrei nenhum deles. Confesso que, ultimamente, ando preocupado mesmo é em descobrir o novo ''Cuenca''. Esse é o único projeto literário que eu tenho. E, por mais que eu tente, não consigo separá-lo da minha vida.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:12 PM


Quinta-feira, Dezembro 02, 2004

CHIC

Não sei se alguém notou, mas a página principal do www.corpopresente.com.br foi hackeada.

Já está de volta.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:59 PM
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João Paulo Cuenca/Male/21-25. Lives in Brazil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro/Copacabana, speaks Portuguese and English. Spends 60% of daytime online. Uses a Fast (128k-512k) connection. And likes Música/Cinema.
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