Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Sábado, Agosto 28, 2004
REPRISANDO
Ainda não vi.
Reaprise dia 28/08-03h00/ dia 29/08-10h00/ dia 30/08-03h00/ dia 31/08-18h30/ dia 01/09-00h00. Canal 54 (NET do Rio), 3 (NET de SP) e 211 (DIRECTV, rede nacional).
LITERATURA E INTERNET
Neste O MUNDO DA LITERATURA a proposta é conversar com três jovens autores - Daniela Abade, João Paulo Cuenca e Joca Terron - sobre a relação entre literatura e internet. São abordadas questões como se os blogs são espaços privilegiados de divulgação de trabalhos; como é o exercício literário virtual; e, enfim, como pensam e quem são esses escritores que tornaram-se conhecidos através da web.
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Neste sábado, o caderno Idéias do JB publicou parágrafo que me foi pedido sobre o que estou lendo. Aqui segue completo, sem edição:
"Li o "Livro do desassossego" de Fernando Pessoa pela primeira vez aos dezesseis anos. Foi fundamental para a minha formação. Passei anos longe dele e agora, inspirado pela leitura de algumas cartas de Pessoa em evento recente promovido pelo Centro Cultural dos Correios, resolvi encarar novamente o calhamaço. Como era de se esperar, o tempo só faz o livro ficar melhor. O que me impressiona é como Pessoa consegue ser inventivo e universal ao mesmo tempo. Sua narrativa fragmentada compõe um fractal com dimensões diversas, multicoloridas. Sinto o livro como um enorme painel feito de estilhaços. Quando mal percebemos, já estamos envolvidos entre as multidões que se empurram buscando espaço dentro de Pessoa. É uma obra eterna, não só porque vá durar, mas também porque é infinita. Acho curioso ler o "Livro do desassossego" e pensar em alguns críticos falando sobre a "moderna narrativa fragmentada, influenciada pela internet". Uma coisa tem tanto a ver com a outra (fragmentação literária e internet) como ginástica olímpica e tiro ao alvo. Pessoa não tinha um blog, e sim um baú - muito mais seguro. Sorte nossa."
1. Composição polifônica, em estilo contrapontístico, sobre um tema único (sujeito), exposto sucessivamente numa ordem tonal determinada pelas leis da cadência.
[O estilo contrapontístico da fuga baseia-se principalmente na imitação, i. e., na reprodução sucessiva dos mesmos desenhos rítmicos ou melódicos, de duas ou mais vozes, nos diversos graus da escala. Partes da fuga: exposição, episódio, estreto, resposta, contra-sujeito, coda.]
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Meu ponteiro se movimenta sobre falhas. Largas planícies escuras de coisa nenhuma. O diafragma costurado aos meus olhos se abre somente sobre o que não existe e nunca esteve. Mas não sou cego. O mundo é que não me faz ver. E acabo vestindo os buracos colados ao meu corpo, até que eu mesmo me transforme nessa coleção de ausências.
Conforme os segundos aniquilam horas e dias, vou ganhando mais e mais a falta do que nunca tive, até que eu mesmo seja um grande e vazio buraco, repleto de faltas até a boca. Sou mais o que perdi do que o que tenho.
(...)
Com o tempo, a escuridão aumenta. Ganha novos territórios. Em breve, esse momento aqui também será engolido. Desse segundo, nada além das palavras.
(...)
Vivo a sensação de que perdi alguma coisa. Que fiz a escolha errada. Que estou na verdade em algum ponto lá atrás. Que estou nesse ponto pensando na minha vida de agora como uma possibilidade remota. Que eu, atrás da esquina, penso como seria fazer as escolhas que fiz.
Um desvio numa estrada deixa de se chamar assim quando é escolhido - passa a ser a via principal de quem o toma. Cada caminho deixa atrás de si o vazio de todos aqueles que poderíamos ter escolhido. E deixa também a saudade do que não se viveu, do que sequer conhecemos.
(...)
A maioria das pessoas gosta de acreditar que a vida tem alguma estrutura, forma determinada, e que são capazes de distinguir o passado do futuro e do presente.
O trecho do CP que se passa num baile funk fará parte da coletânea "Cenas da favela", organizada pelo Nelson de Oliveira, que será lançada em 2005 pela Geração Editorial. Também haverá uma versão para o mercado francês (tenho pena desse tradutor!). Estarei mui bem acompanhado na antologia, só gente finíssima.
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"Parece-me que deveríamos apenas ler livros que nos mordam e espicacem. Se a obra que lemos não nos desperta como um golpe de punho sobre o crânio, qual a vantagem de a ler? Para que nos torne felizes? Meu Deus, seríamos da mesma forma felizes se não tivéssemos livros. E os livros que nos deixam felizes, a rigor, poderíamos escreve-los nós mesmos. Em contrapartida, precisamos de livros que sobre nós atuem de modo igual a uma desgraça; que nos façam sofrer muito, como a morte de quem amássemos mais do que a nós mesmos; como um suicídio. Um livro deve ser o machado que rompe o mar gelado existente em cada um de nós."
Franz Kafka, como citado na última revista Coyote (ótima)
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Estou relendo o "Livro do desassossego" de Fernando Pessoa. É engraçado ler esse tipo de narrativa e pensar nos críticos falando na "moderna narrativa fragmentada, influenciada pelos blogs e internet". Uma coisa tem tanto a ver com a outra (fragmentação literária e blogs) como ginástica olímpica e tiro ao alvo.
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"Felicidade consiste em ser capaz de contar a verdade sem machucar ninguém" - Guido Anselmi, alter-ego de Federico Fellini interpretado por Marcello Mastroianni em "8 ½", talvez o melhor filme que eu já vi.
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A maioria das pessoas gosta de acreditar que a vida tem alguma estrutura, forma determinada, e que são capazes de distinguir o passado do futuro e do presente.
A coluna na TPM foi, até agora, muito bem recebida. Mais de cinqüenta emails pipocaram no cuenca@trip.com.br, altamente positivos. Gostaria de ter tempo de responder todos. Tentarei.
Para quem não comprou, há um arquivo com as duas que já foram publicadas AQUI.
Fui entrevistado pela STV (Rede SescSenac) na Travessona de Ipanema. Depois me filmaram andando na feira da RONALD DE CARVALHO - esquina dessa foto aí, onde morei enquanto escrevia o CP. Vai passar no canal 54 (NET do Rio), 3 (NET de SP) e 211 (DIRECTV, rede nacional). Outros estados ver aqui.
Dia 26/08 - 23h30
LITERATURA E INTERNET
Neste O MUNDO DA LITERATURA a proposta é conversar com três jovens autores - Daniela Abade, João Paulo Cuenca e Joca Terron - sobre a relação entre literatura e internet. São abordadas questões como se os blogs são espaços privilegiados de divulgação de trabalhos; como é o exercício literário virtual; e, enfim, como pensam e quem são esses escritores que tornaram-se conhecidos através da web.
Reapresentação: dia 27/08-07h00/ dia 28/08-03h00/ dia 29/08-10h00/ dia 30/08-03h00/ dia 31/08-18h30/ dia 01/09-00h00
Quem estiver interessado em participar da minha "Oficina de crônica e libertação espiritual", basta ligar para a Casa da Leitura nos telefones 2557-7437 ou 2556-5978. A oficina será realizada nos dias 13 e 20 de agosto, de 13:30 às 17:30. Como a Casa da Leitura faz parte do Proler, o custo é irrisório (acho que é dez reais).
A Casa da Leitura fica em Laranjeiras, na Pereira da Silva, relativamente perto do metrô. Começa sexta, mas ainda restam vagas! Espero vocês lá.
Obs.: O "libertação espiritual" é sacanagem. Mas se bem que... Um dos objetivos meus é "dar aos alunos a compreensão de que literatura não é um campo mítico, alienígena e desligado da realidade. Literatura se vive e se respira, no cotidiano." Começar a fazer isso usando crônica é interessante: "A partir das leituras, proporei exercícios de ficcionalização do cotidiano de cada um dos alunos para a produção de textos literários."
Obs2.: Alunos tímidos serão bem aceitos. Eu posso ler o texto de todo mundo, sem problemas.
Obs3.: Alguns dos autores: Machado de Assis, João do Rio, Antônio Maria, João Antônio, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Nelson Rodrigues, LFV, Arthur Dapieve, Joaquim Ferreira dos Santos, entre outros.