Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Terça-feira, Junho 29, 2004
RAPIDINHO
Conto meu foi publicado pela revista de literatura latino-americana "Bestiário", aqui.
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Ótima resenha do CP pelo Ronaldo Cagiano, onde ele aprofunda alguns pontos do email que me enviou, aqui.
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quis gostar do namorado
como quem gosta de um peixe
de estimação
Sinto que preciso dar satistação sobre meu sumiço aos leitores que caem aqui diariamente. Meus COPACABANA YEARS estão chegando ao fim e isso está me consumindo tempo físico e mental. A mudança marcada e a correria para fazer tudo a tempo e contento não me permitiram atualizar o blog nos últimos dias e ler os textos que me mandam por email (mas lerei todos).
AGUARDAI, ERMÃOS. BOAS NOVAS AVIZINHAM-SE
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Tirei umas fotos para a TRIP de julho, um editorial sobre "novos talentos", essas coisas.
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Essa semana darei entrevista ao Edney Silvestre, no Globonews. Depois aviso quando for passar na TV.
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A partir de julho serei colunista de uma revista de circulação nacional. Quando chegar mais perto, dou a informação completa.
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vivo contando mentiras
a mim mesmo
desde que você me ensinou
ser feliz é saber mentir
a si mesmo
Foi publicada resenha sobre o "Corpo presente" no Diário Regional, de Ituiutaba-MG, escrita pela Nízia Villaça. "De Copacabana à Budapeste" é o título da resenha dupla.
Eu e o Chico na mesma página de um jornal de Ituiutaba-MG é mais do que eu poderia esperar.
Serei entrevistado amanhã (quarta-feira, dia 16) às 13:30 no evento "jovens escritores têm a palavra", parte do I Painel PUC "O Universitário e o livro". Será no Salão da Pastoral, ao lado da Livraria Carga Nobre, no Edifício Cardeal Leme.
Estava procurando um email antigo na minha confusa caixa de correio quando descobri correspondência enviada por uma leitora das crônicas que cometo semanalmente na Tribuna da Imprensa. Na época não li, provavelmente ficou soterrada sob a montanha de spams e mensagens inúteis que recebo todos os dias. Culpado, resolvi responder a leitora, mesmo que seis meses depois. Mas seu email, ao que parece, não existe mais - minha resposta foi devolvida.
Então, resguardando seu nome, resolvi publicar aqui o email e falar um pouco sobre ele. Espero que essa leitora frequente o blog e que o espaço sirva de mural de recados.
To: >
Sent: Thursday, January 15, 2004 10:48 AM
Subject: Só um pensamento
(...)
Mas tenho lido os artigos que vc escreve pra Tribuna. Eu gosto muito. Não sei comentar, não posso me atraver a falar de nada que vc escreve. Porque às vezes me dá uma raiva de como vc escreve, de como eu me pareço com vc e outras vezes de como vc se parece com meu marido.
Mas essa é uma raiva boa, que depois que dá vai se diluindo e se transformando em admiração.
Continue escrevendo, João Paulo. Tem feito bem pra mim.
Um abraço
Para mim sempre é complicado escrever. Estava empacado numa crônica quando descobri companhia nesse email. E eu, que sempre gostei de falar (e pensar) coisas como "o leitor não existe", gostei do calor. Fez tudo ficar menos solitário por aqui. Encontro identificação até com a raiva que ela diz sentir - eu também sinto. Terminei a crônica da semana em dois minutos depois dessa. Sempre fico sem saber como responder. Só posso agradecer. E pedir desculpas pela demora da resposta.
"Fico imaginando esse livro escrito hoje, por algum dos muitos escritores de 20 e poucos anos que estão tateando por aí - e pelo menos dois deles, Fernando, te amam profundamente, como só se ama um autor, citam muito o "Encontro" e, acredite, eles se acham um pouco órfãos de te conhecerem apenas pelos livros, queriam mais, queriam conversa. Um parêntese: na universidade onde dou aulas, a leitura (para muitos a primeira) do "Encontro marcado" causou reações impressionantes - isso 48 anos depois da publicação do livro. Foi um tal de "puxar angústia" que você nem pode imaginar.
Mas se este livro fosse escrito hoje, num mundo fragmentado, exagerado por si só e muito mais distante da culpa, o jovem Fernando Tavares Sabino poderia ser considerado "maldito", "transgressor" e quantos outros rótulos se tem inventado para enfeixar uma geração que tem pisado fundo nas experiências extremas, na sexualização extremada, numa vontade pouco discreta de afrontar o distinto público. "Os movimentos simulados", Fernando, é puro rock'n roll - e me arrisco a transformar isso num elogio mesmo conhecendo tua devoção ao jazz mais tradicional."
Semana passada recebi email do escritor Ronaldo Cagiano (autor de "Dezembro indigesto" e organizador da "Antologia do conto brasiliense") com comentários sobre o CP. Fiquei muito feliz com a leitura que Ronaldo fez do livro. Com sua autorização publico aqui (afinal, esse era pra ser um site sobre o livro).
Estou com pelo menos meia dúzia de "resenhas do leitor" pra subir, em breve farei isso.
Segue o email:
"Na viagem que fiz há duas semanas para Cataguases, levei na bagagem "De corpo presente". Nas 16 horas do percurso de ônibus de Brasília até lá, fui viajando pela sua prosa fulminante e cirúrgica.
Embora não haja uma linearidade tão comum às narrativas literária e politicamente corretas, existe uma alta voltagem dramática.
Ressalto a disposição dos capítulos em números primos: a novidade funciona como partes autônomas, ao mesmo tempo em que religam-se pela empatia temática e pelas tensões que você vai potencializando a cada novo fragmento.
Nas figuras de Alberto e Carmem reside também toda a carga psicológica da obra.
Percebo nesse trabalho não só o desabafo, mas o testemunho de sua geração que - posterior à minha - não viveu os ciclos da ditadura e da opressão política/repressão sexual - mas os estertores dela, quando já experimentou um clima de liberdade geral e reconquista de direitos, algo que, para muitos, refletiu uma espécie de vácuo num processo de indignação que vinha sendo urdido pelas gerações que lhe antecederam.
"Corpo presente" reflete sobre uma época em que o desbunde e a solidão urbana e humana se consolidaram de tal maneira, que não sobrou mais espaço mais para a utopia e a esperança, desumanizados e coisificados que estamos numa sociedade etiquetada e carente de referenciais.
A Copacaba refletida nesse livro é a metáfora da própria modernidade, com seus totens e valores que mudam velozmente, de uma sociedade fetichizada e cansada da mesmice, embora vivendo a aparência de mudança e escalonamento de valores.
A sua visão de mundo um tanto niilista (compartilhada pela sorte de seus personagens) me faz lembrar da "vida inteira que podia ter sido e não foi", como no poema de Bandeira. Esse livro inventaria esse tão novo e tão angustiado momento de nossa época, diluído nas incertezas, na falta de identidade, que nos traz a sensação de habitar um cemitério de vivos, sentimento que me parece permear o íntimo das pessoas em várias partes do mundo.
"Corpo presente" é avassalador, sem lançar mão de recursos malabarísticos. A ousadia não está em torcer ou contorcer a fórmula, mas em renovar o modo de falar sobre velhos assuntos, como a solidão, o desespero, as incertezas, a desilusão, o desconforto. Um livro com luz e voz próprias, porque o fio da narrativa não prescinde de olhar ou requerer a humanidade que há nas coisas, embora escondida ou negligenciada.
O ser e seu destino vivem um estado de ruptura num mundo cada dia mais voltado para os fetiches do deus-mercado e as exigências da globalização, que tudo relativiza e empobrece espiritualmente.
Um livro para quem não quer deixar pedra sobre pedra, nada no seu lugar, mexendo com a gente, com todos nós que morremos de tédio ou de ócio ou overdose nesse mundo de matéria plástica.
É um romance maduro de um jovem amadurecido interiormente e que demonstra grande segurança e domínio de seu ofício.
Ronaldo Cagiano
Ps.: Esse comentário que fiz sobre "Corpo presente" são impressões sinceras de quem identificou no seu texto as mesmas preocupações que mantém em relação à literatura. Entendo que nosso propósito é tocar nas feridas, sacudir s consciências. Literatura para mim não pode ser apenas o exercício puro e simples de malabarismo verbal, só a ruptura da forma, é preciso ir mais fundo. E creio que você conseguiu, teve fôlego para mergulhar na solidão existencial e extrair daí uma mensgem contundente que, se por um lado denuncia o vazio geral, por outro lança um olhar esperançoso na humanidade e na capacidade de reciclagem espiritual. Não pretendi fazer uma resenha (o livro merece uma incursão crítica mais profunda), mas se você gostou, pode incluir essas palavras no seu site."
Eu tinha sua mãe dançando nua na televisão quando eu quisesse. Abria uma garrafa e chorava. Ela sempre foi bom motivo pra chorar. Foi a tristeza que eu escolhi pra me sentir limpo.
Abracei e ninei sua ausência, como se esse vazio fosse um filho meu.