Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Quarta-feira, Março 31, 2004
TRIBUNA
Eu sou tão cara de pau que publico esses meus poeminhas imberbes no jornal. A crônica da semana passada estava muito malcriada, resolvi não postar no blog. Essa aí sai hoje, quarta-feira.
Mundo pequeno
1.
uma da manhã
eu faço café
venho fazer o tempo passar
tentar esquecer
essas coisas
e uma menina
dezesseis anos
do interior do belo estado
do rio grande do sul
pisca na tela e diz que
viu minha foto na revista
disse que meus olhos
eram profundos e tristes (!)
e procurou outras fotos minhas
e tem várias no seu computador
perguntou como está o seu o cabelo?
está curto porque eu
fiquei puto e passei máquina
(sempre faço isso)
e ela disse, sim, guri!,
que eu te prefiro
de cabelo bem curto!
com aquele jeito
que as gaúchas têm
disse isso direto
do interior do belo estado
do rio grande do sul
quanta paisagem entre nós
eu e a menina que não conheço
2.
falava de morrer
e ganhou
a experiência
de morrer
por dez minutos
nunca mais
falou de morrer
3.
se ela soubesse
quanta saudade
quanta vontade
deixava de coisa
e vinha dançar
4.
meu amigo gourmet
de gorgonzola, feijão
pimenta, açafrão
narguilê recheado
e tv a cabo
as tardes de vagabundagem
no pequeno apartamento
onde eu tanto já chorei e ri
haja paciência!
5.
no meio da noite
me perdi numa esquina
entre duas sardinhas
Esses dias o blog fez aniversário e eu nem notei - o primeiro post é de 17 de março de 2003.
Um ano e 36 mil visitas depois, livro passado a limpo, publicado e resenhado, estava decidido a matar o blog.
Mas o livro vai continuar a me perseguir. Dei uma entrevista ao Marcelo Moutinho no mês passado, sairá na próxima revista Outracoisa, do Lobão. Na entrevista, entre chopes, um furo - que eu vou dar de primeira mão aqui no blog (foi mal, Marcelo). Estou trabalhando na adaptação do livro. Escrevendo um roteiro baseado no "Corpo Presente" com o Luiz Fernando Carvalho, diretor do belíssimo "Lavoura Arcaica". Isso não quer dizer mais nada do que isso aí. Um roteiro, um documento de word com umas 70 páginas. Se vai ser filmado ou não, é outro papo.
Mais sobre o assunto, por enquanto não posso dizer. Só peço que torçam e, quem tiver algum anjo, que me empreste por uns dias - o meu tá precisando de reforço.
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"A vida sem bruma não é porra nenhuma" (Cazuza/Arnaldo Brandão)
O Digestivo Cultural, do Julio Daio Borges, publicou resenha do livro, escrita pela Renata de Albuquerque.
"Parece incrível que este Corpo Presente seja o livro de estréia de João Paulo Cuenca. A escrita deste carioca de 25 anos tem a maturidade que muitas vezes não se encontra nem mesmo em livros de autores que já estão em sua segunda ou terceira publicação."
"-(...)Pois o amor não é, como pensas, caro Sócrates, o desejo do que é belo!
- Que é então?
- É um desejo de procriação no belo.
- Talvez.
- Não talvez, mas seguramente o é. E sabes qual é a importância da procriação? É que ela representa algo que perdura: é para um mortal, a imortalidade. (...) Aqueles cuja fecundidade reside no corpo, dirigem-se de preferência às mulheres e assim realizam a sua maneira de amar, acreditando que pela criação de filhos atingem a imortalidade, a celebridade e a felicidade eternas. Os que, porém, desejam procriar pelo espírito, pois há pessoas que mais desejam com a alma do que com o corpo (e ela é mais fecunda ainda que o corpo) esses anseiam por criar aquilo que à alma compete criar. Que criação será esta? É do pensamento e das demais virtudes. É a criação desses homens a quem chamamos poetas e a daqueles outros aos quais denominamos inventores.(...) Em permanente contato com o belo, e em sua companhia, concebe e dá à luz aquelas coisas de que estava prenhe há muito tempo. Isso para ele será sempre uma obsessão. Aquilo que criou, ele alimenta em companhia do belo objeto que encontrou."
Platão. Banquete. in: Diálogos I.
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"Eu estendi as mãos para tocar naquele corpo, e estremeci, retirando as mãos para trás, incendiável; abaixei meus olhos. E a Mulher estendeu a toalha, recobrindo as partes. Mas aqueles olhos eu beijei, e as faces, a boca. Adivinhava os cabelos. Cabelos que cortou com tesoura de prata... Cabelos que, no só ser, haviam de dar para baixo da cintura... E eu não sabia por que nome chamar; eu exclamei me doendo:
-"Meu amor!..."
Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo.
(...)
Ela tinha amor em mim."
Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas
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"Lunas, marfiles, instrumentos, rosas...las nueve cifras y el cambiante cero, debo fingir que existen esas cosas. Debo fingir las armas y la pira de la epopeya y los pesados mares que roen de la tierra los pilares. Debo fingir que hay otros. Es mentira.
Sólo tú eres. Tú mi desventura y mi ventura, inagotable y pura."
"E, assim futricado, só escrevo porque tenho uma consciência culposa. Um homem limpo vai pra casa e dorme. Ou vive, ama. E não há fantasmas que o atormentem. Um homem de bem dorme."
apegar2
[De a-2 + pego1 + -ar2.]
V. t. d.
1. Meter em pego; afundar, mergulhar.
V. int.
2. Meter-se em pego; apegar-se.
3. Formar pego: As águas tortuosas do rio apegavam adiante da cachoeira.
V. p.
4. Meter-se no pego; afundar-se, mergulhar, apegar.