webdesign:
chico queiroz

Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Quinta-feira, Fevereiro 26, 2004

CRÔNICA DE ONTEM

Para a quarta de cinzas, escrevi uma crônica em quinze minutos. Taí:

Unhas

Eu poderia pensar em escrever sobre um homem que agora estaria em casa fazendo as unhas sobre uma cama de casal desarrumada, catando as unhas, juntando as unhas sujas num pote, pensando nas unhas que seguirão crescendo depois que o homem morrer, o que faria a coleção de unhas ter um sentido especial para o homem que faria e colecionaria as unhas. Esse homem poderia ter um filho que venderia esquadrias para janelas, esse filho poderia ter uma mulher manca que é trocadora de ônibus, Central-Cosme Velho, 180, e a mulher manca poderia almoçar um X-tudo na Central do Brasil sob o reflexo do sol, pintado de azul pelos toldos das centenas de camelôs que se aglomeram por ali. O empregado da barraca que vende o X-tudo poderia ter tido, naquela manhã, um ataque de nervos no trem, logo quando saiu da estação de Oswaldo Cruz, mas poderia ter olhado para o chão, coisa que lhe faria acalmar, e comprado uma água de um ambulante. Essa água poderia ter sido produzida em Bom Jesus do Itabapoana, engarrafada por empresa familiar. A água poderia ter sido descoberta por índios habitantes da região e explorada pelos proprietários das terras que poderiam ter projetado a captação da água em 1923. O administrador da empresa poderia ser o filho mais velho de um morto, casado com uma mulher ruiva, mãe de dois filhos. Mas, talvez, somente um deles poderia ser realmente filho do filho mais velho de um morto, administrador da empresa. O outro poderia ser produto de furtivo envolvimento da mulher ruiva com outro homem. Este outro homem poderia ser irmão ou sócio do filho mais velho de um morto. Este outro filho, que não se saberia direito de quem, poderia, ontem à noite, terça-feira de carnaval, ter tomado todas num baile de carnaval aqui mesmo, no Rio de Janeiro. O baile poderia ter sido, de acordo com as palavras do filho não se sabe de quem, "muito louco", e o sujeito hoje poderia ter acordado na companhia de um desconhecido, quem sabe um travesti, ou uma criança de treze anos. Hoje, se tivesse acordado ao lado de um travesti, acordaria sem se lembrar de nada, e beijaria o homem ao seu lado. Mas se tivesse acordado ao lado da criança, poderia ter sido morto a facadas num hotel na Glória, localizado à Rua Cândido Mendes, em frente a uma sauna gay que funciona num sobrado sujo e mal freqüentado. Esta criança assassina poderia sair do hotel no meio da tarde e pegar uma Kombi até Santa Tereza, onde veria o pôr do sol, mas não se importaria muito com o pôr do sol, da mesma forma em que não se importaria com a morte do homem com que haveria estado há poucas horas, pois a criança não se importaria com nada, a não ser com um sonho em que sua mãe, maquiagem borrada, vestida numa mal ajambrada camisola, o aterrorizaria com um revólver carregado, e a criança acordaria todos os dias, hoje inclusive, sentindo cheiro de pólvora. A sua mãe, dentro do sonho, poderia estar pedindo ajuda, ou simplesmente perturbando a criança, mas pensando apenas em chamar a atenção do filho, de uma forma ou de outra, pois a mãe do sonho não pensaria direito, mas lembraria muito bem de um ou outro dia, bastante específicos na sua vida, como o dia em que teria sido demitida da loja de calçados na Rua da Carioca, e de lá saído direto para a Praça Tiradentes onde poderia ter encontrado abrigo num duvidoso bar, e isso poderia ter acontecido numa tarde de sexta-feira, e até segunda, a mulher poderia ter ganho o salário do mês em três dias de trabalho, e a primeira coisa que poderia ter feito é uma escova no cabelo. O salão poderia ser um desses ali na Praça Saes Peña, e a dona do salão poderia ser uma ex-dona de casa esforçada que poderia ter perdido o marido de ataque de coração, e poderia ter herdado um ou dois apartamentos espaçosos no Grajaú, e vendido os apartamentos para comprar o Salão. O negócio poderia ter sido feito por um corretor de imóveis espertalhão que poderia ter roubado todo o dinheiro da dona do salão na Praça Saes Peña. Mas, se assim fosse, não haveria salão, nem mãe do sonho, nem criança de treze anos, nem mulher ruiva, nem filho não se sabe de quem, nem filho mais velho de um morto, nem empresa de água mineral, nem X-tudo e ambulante, nem trocadora manca, nem vendedor de esquadrias para janelas, nem homem que coleciona unhas e muito menos o escritor de toda a história.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:55 PM


Terça-feira, Fevereiro 17, 2004

CRÔNICA DA TRIBUNA

Dessa quarta-feira:

Aquarela do Brasil

"Vejam esta maravilha de cenário/É um episódio relicário/Que o artista num
sonho genial/Escolheu para este carnaval/E o asfalto como passarela/Será a
tela/Do Brasil em forma de aquarela"

Até hoje freqüentei poucos ensaios de escolas de samba, bem menos do que
deveria - erro que nunca é tarde para corrigir. Mesmo assim, inexperiente e
sem nenhuma malandragem, afirmo sem hesitação que vi algo especial acontecer
na quadra do Império Serrano no último sábado.

A quadra de Madureira estava absolutamente lotada, mas sem a muvuca
insuportável que inflaciona ingressos e faz o ambiente virar uma mistura de
lata de sardinha e sauna, como tem acontecido nas quadras mais populares,
invadidas por gringos, mauricinhos e celebridades globais. Ali, quem comanda
o coreto são as famílias, os jovens passistas, as senhorinhas de vestido
verde, o coração da escola pulsando em cada um deles. No final da quadra, lá
no alto, um enorme São Jorge abençoa a alegria que começa no esquenta da
bateria e acaba só depois do Carnaval. Mas recomeça depois - e recomeça
sempre.

Antes que comece eu a digressionar sobre o eterno retorno do carnaval, preciso
confessar que fui à Madureira como um turista acidental, atraído por amigos
e principalmente pelo samba de Silas de Oliveira, que o Império reedita esse
ano, aproveitando a deixa da LIESA por conta dos vinte anos da nova
passarela do samba. "Aquarela brasileira", de 1964, quarenta anos que soam
como uma eternidade, é um dos sambas-enredo mais bonitos da história. Ouvir
a quadra inteira cantá-lo em uníssono, do início ao fim - e não é um samba
pequeno, culminando no refrão épico, grandioso, entrou na minha galeria de
epifanias particulares.

Paulo Roberto Pires, amigo e editor, escreveu melhor sobre a experiência
que hoje representa um ensaio da escola de Madureira: "É bom
remédio para quem acha que já viu tudo em carnaval, para quem está cansado
da confusão das quadras, para os que vêem na reedição de "Aquarela
brasileira" um atestado da falta de criatividade dos compositores de hoje. É
excelente prova também para quem pensa ter perdido a capacidade de
emocionar-se, sem bula ou cara de inteligente, com uma festa tão surrada e,
ao mesmo tempo, inigualável."

Passei a maior parte do tempo no chão da quadra, hipnotizado pela marcação
da bateria, segurando uma garrafa de cerveja e tentando sambar
desastradamente, como não poderia deixar de ser. Fico sem saber como
descrever a serena euforia que testemunhei nos sorrisos de cada uma daquelas
pessoas, e também me faltam palavras para falar sobre o que fizeram os
passitas e as passitas (e que passistas) executando passos impossíveis como
se todos nós tivéssemos nascido para isso. Na hora, sem dúvida alguma no
coração, pensei no seguinte: são a evolução da raça humana. Mantenho a
idéia.

Foi quando, mais pra lá do que pra cá, distraído pelo "Rio dos sambas e
batucadas/De malandros e mulatas/De requebros febris", mal ouvi quando o
puxador pegou um papel e começou a falar, pausadamente, sobre "os ilustres
convidados que abrilhantavam a nossa quadra com sua presença, gente do mundo
das artes e da política, como o cantor João Bosco, a apresentadora de TV
fulana de tal, a modelo X, o deputado Z, o jornalista H, o editor Paulo
Roberto, o escritor João Paulo".

Vocês podem achar besteira, mas quando ouvi meu nome, olhei pro São Jorge no
alto, a bateria pulsando, ao redor a galera feliz, tomei um gole da cerveja,
dei um tapa nas costas do meu editor, e ri e chorei, ri dessa
vida, como não fazia há muito. Fica combinado: meu nome ecoando na quadra
lotada foi a melhor coisa que já me aconteceu nessa vida de escritor e esse
reconhecimento, embora ninguém ali soubesse quem sou, me bateu muito mais
forte do que qualquer resenha e qualquer capa de caderno, matéria em jornal
e revista, passadas ou futuras. Quinta é o último ensaio e a escola é a
quarta a desfilar na segunda-feira de carnaval. Estarei lá - de um jeito ou
de outro.

----

OBS. Registro aqui grande abraço ao amigo Marcelo Moutinho, que possibilitou minha ida ao Império com providencial carreto. Valeu!

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:12 PM


Sábado, Fevereiro 14, 2004

NÃO É TODOS OS DIAS QUE A GENTE RECEBE UM EMAIL DESSES

"----- Original Message -----
From: Sergio Sant'Anna
To: João Paulo Cuenca
Sent: Sunday, February 08, 2004 7:05 PM
Subject: Muito bom


Caro João Paulo, li em três horas o seu livro, me deixando levar pela prosa absolutamente livre e criativa, que põe e dispõe sobre os personagens, Carmem, Alberto, captando suas sensações lá de dentro onde se formam as emoções, idéias, literatura, os corpos presentes e seu erotismo. (Posso estar falando muita bobagem, mas foi saindo assim.) E também Copacabana, com seus mistérios, ritos, acontecimentos, tudo vai sendo montado com extrema liberdade, de modo que não temos - e você sabe disso - uma história, mas um caleidoscópia de cenas que vão se fazendo e desfazendo. Muito bom. Como primeiro livro, então, é bem mais do que isso. Entenda bem que não estou fazendo uma crítica organizada, mas deixando sair espontaneamente meus comentários. E o último deles é: li o livro como se ouvisse música, mas com acontecimentos e cenários ao fundo, como numa ópera, mas com os ritmos da noite de Copacabana. Parabéns e um abraço. Sérgio Sant´Anna."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:20 AM


Sábado, Fevereiro 07, 2004

BÊBADO, MULHERENGO, MACHISTA, SAFADO, VAGABUNDO, MARGINAL, URBANÓIDE

"O primeiro dos estragos que sofre um escritor iniciante e desconhecido é o do estereótipo. Ele deve fazer de tudo para fugir dos estereótipos. Se bebe algumas cervejas, é bêbado. Se troca freqüentemente de namoradas, é mulherengo. Ou machista. Se é escritor, deve se resignar a se vestir mal, andar pelos cantos deprimido, ter alguma paixão impossível, se for uma prima melhor ainda, não gostar de nenhum exercício físico, ter tendências homoafetivas reprimidas e detestar qualquer tipo de aventura que ultrapasse o seu lar doce lar.

Não. Sei que existiu Hemingway."

Sábias palavras do amigo Marcelo Benvenutti.

Mais, você lê aqui.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:10 PM


Sexta-feira, Fevereiro 06, 2004

ENCONTROS E DESENCONTROS NO JB

Hoje o Jornal do Brasil publica crítica tripla de "Encontros e desencontros".

As outras duas pessoas chamadas a escrever sobre o filme, o poeta Carlito Azevedo e a cineasta Sandra Werneck meteram o malho, com direito a uma patriotada bobíssima da última no final do artigo. Eu adorei o filme, como vocês podem ler aqui.

Fiquei de contraponto. Vai ver é sina. Ao ler o que os dois não gostaram no filme, discordei tanto da opinião deles que o filme de Sofia Coppola passou a me agradar ainda mais.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:21 AM


Quinta-feira, Fevereiro 05, 2004

ME INCLUAM FORA DESSA

Sobre matéria do José Castello no Nomínimo, li no blog do Galera:

"O José Castello escreve no Nomínimo sobre o que significa ser um escritor/artista maldito hoje em dia. O texto vale pela revisão interessante de diversos autores malditos, dos óbvios Poe e Baudelaire, que deram origem à estampa moderna do maldito com suas vidas marcadas pela pobreza e por flertes com a loucura e a doença (...)

Mas a conclusão do Castello, de que ser maldito hoje em dia é uma opção estética tomada pelos autores, que passam a agir segundo a "cartilha da maldição", me parece meio chutada. O engraçado é que ele cita, entre outros nomes, o Daniel Pellizzari e o João Paulo Cuenca como representantes dessa suposta nova geração maldita. Olha, eu conheço bem ambos, principalmente o Mojo, e tenho certeza que nenhum dos dois está interessado em parecer maldito. Tampouco acho que escritores como Bukowski, Fante e os beats estejam entre as principais influências de qualquer um dos dois. Imagino com base em quê o Castello chegou a essa conclusão. Duvido que tenha sido lendo os livros de ambos, o que não faria nenhum sentido (às vezes, me parece que estou lendo livros diferentes do que as outras pessoas lêem, apesar deles terem os mesmos títulos...). Só pode ter sido por reverberação, depois que tantos jornalistas incapazes de ver abaixo da superfície fizeram essas comparações. Ou talvez por causa das fotos. O sujeito olha a foto do mojo numa matéria qualquer e já pensa "a-háááá, MALDITÃO, heiin?". Pô, o cara escreve um livro que tem alguns trechos com sexo, tem um conto aqui e outro ali onde aparece alguma droga, usa a palavra "pau" de vez em quando, usa camisetas do Motorhead e tem essa lata aí? Só pode estar querendo ser maldito, e Bukowski é sem dúvida sua maior influência literária.

É triste, mas acho que é isso mesmo que acontece."

Pois é. Eu também acho.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 11:29 AM
archives

on-line

João Paulo Cuenca/Male/21-25. Lives in Brazil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro/Copacabana, speaks Portuguese and English. Spends 60% of daytime online. Uses a Fast (128k-512k) connection. And likes Música/Cinema.
This is my blogchalk:
Brazil, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Copacabana, Portuguese, English, João Paulo Cuenca, Male, 21-25, Música, Cinema.