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chico queiroz

Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Sábado, Janeiro 31, 2004

SOLUÇÃO? PUDIM.

Um leitor chamado Sérgio Barcellos Ximenes tem um site chamado "blog do romance" onde pretende escrever sobre a técnica do romance literário, do ponto de vista do leitor. A idéia é interessante.

Recentemente, Sérgio partiu de uma breve explicação do que entende como "mundo moderno" para analisar a obra de novos autores, enquadrando os livros como "soluções" para o "problema de lidar intelectual e emocionalmente com o enigmático e opressivo mundo moderno". De acordo a classificação dele, Marcelo Rubens Paiva escreveu o romance-símbolo da solução biológica, "Malu de Bicicleta". Marcelo Mirisola estaria, em seu "Bangalô", resumindo a solução psicológica. Já eu, com o meu "Corpo Presente", entro como solução filosófica.

"3. A solução filosófica.
A fuga para o niilismo (ausência ou negação de qualquer valor).
Domínio do intelecto.
Vivência básica: o tédio.
Romance-símbolo: Corpo Presente, de João Paulo Cuenca"


Logo Sérgio já comete o que é, para mim, o equívoco primário de toda a sua análise. Diz que "nenhuma das opções acima é uma solução verdadeira para o problema. As três situam-se nos níveis da recepção (o impacto do mundo sobre o indivíduo) e da reação imediata ao incômodo, embora a própria existência dessa reação indique um desejo de solucionar o problema. Sendo assim, outras conclusões óbvias são, primeiro, o baixo grau de elaboração ou de sofisticação das tentativas, e segundo, o próprio fracasso delas. O problema do mundo persiste, e o indivíduo não conseguiu lhe dar uma solução satisfatória."

Quem disse que literatura tem que dar solução para qualquer coisa? Um quadro soluciona os problemas da humanidade? Um músico precisa compor uma canção que anestesie ou ofereça mensagens de paz e amor ao seu público? Nada contra Sting ou Paulo Coelho, mas uma manifestação artística não merece esse fardo.

Cito Paulo Coelho, pois Sérgio cita o homem como:

"4. A solução espiritual.

A fuga para a religiosidade.
Domínio da alma.
Vivência básica: a esperança.
Romance-símbolo: O Alquimista, de Paulo Coelho."


Para o persistente Sérgio, Coelho oferece "a única solução que oferece um conjunto articulado de valores para o julgamento da conduta humana. Nas outras três percebe-se, na terceira, a ausência ou negação total de valores (o niilismo) (...) Enquanto os três primeiros autores limitam-se a retratar uma situação desesperadora, Paulo Coelho indica o caminho esperançoso para resolvê-la. Enquanto eles se limitam a descrever, o Mago prescreve. Para quem procura soluções (e problemas exigem soluções), trata-se de um passo além. É inegável que os romances de Paulo Coelho oferecem uma solução para o problema da relação do indivíduo com o mundo conturbado - com todos os defeitos que ela possa apresentar: Mas, enquanto os três primeiros autores limitam-se a retratar uma situação desesperadora, Paulo Coelho indica o caminho esperançoso para resolvê-la. Enquanto eles se limitam a descrever, o Mago prescreve. Para quem procura soluções (e problemas exigem soluções), trata-se de um passo além."

Aqui, Sérgio fala sobre meu livro. Só concordo com ele quando reclama sobre o preço, também acho caro. Mas a resenha podia ser melhor, Sérgio passa boa parte do tempo citando frases fora de contexto e fazendo uma salada com o que escrevi. De resto, confesso que acho graça em ler coisas como "O (primeiro capítulo) de Corpo Presente é o mais escandalosamente gratuito ou gratuitamente escandaloso já encontrado na minha "carreira" de leitor."

Uma observação em particular merece destaque. Sérgio escreve: "A quem se interessa pela questão do ponto de vista ou foco narrativo, sugiro a leitura da página 57, quando a situação cênica é descrita da perspectiva de uma criança brincando no escorrega.

"Olho para o lado e observo a praça em panorama, os edifícios art deco ocupados por tropas e guarnições intermináveis de viúvas e babás, ..."

Uma criança superdotada?"


Foco narrativo? Não passou pela cabeça desse leitor que a cena em questão seja uma lembrança do mutante narrador desse meu livro? Que os tempos e narrativas todas se confundem um presente interminável - daí o nome do livro e a narrativa sempre em tempo presente?

Na sua conclusão, Sérgio ressalta que "um ficcionista também dispõe da opção de ultrapassar o nível da descrição e ousar prescrever uma solução por ele considerada viável: não somente retratar os efeitos perversos do mundo moderno nos indivíduos, mas também sugerir uma forma de neutralizá-los de algum modo."

Eu poderia formular isso de outras formas, escrever parágrafos defendendo certo tipo de visão, rebatendo as ladainhas sobre literatura sempre promovidas por grupelhos de cagadores de regra, mas prefiro resumir tudo e dizer a Sérgio o seguinte: quer moleza? Senta no pudim.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:27 PM


Sexta-feira, Janeiro 30, 2004

CERTAS COISAS NÃO MUDAM

Sobre certo tipo de "critico":

"Há criaturas cuja única ocupação é espernear. É um passatempo como outro qualquer..."

Benjamim Costallat, 1923

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 9:40 PM


Terça-feira, Janeiro 27, 2004

TRABALHO

"Era 1928. (...) Eu trabalhava. Honestamente. Tinha conseguido um lugar de travesti sambista no teatro Casa de Sapê da Casa de Caboclo. Praça Tiradentes. Ganhava 18 mil réis por semana e andava com um sorriso que começava numa orelha e acabava na outra. Isso porque a minha pessoa sempre tinha desejado ser artista porque artista era profissional e boêmio e eu era boêmio e queria uma profissão.

Estava louco para ter uma profissão certa que me permitisse viver em paz comigo e com os outros."

Madame Satã, em depoimento a Sylvan Paezzo, 1974

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 7:47 PM

REVISTA PARADOXO

Estou na capa da Revista Paradoxo - a matéria é de Fernando Mascarello.

Rolou também uma entrevista, aqui.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:33 AM

TEMPO

O tempo passa e certas coisas não mudam.

Rio, 30 de junho de 1982

Jardim Escola Belisário de Souza
Relatório do 1o. semestre/1982
Aluno: João Paulo Vieira Machado de Cuenca
Turma: Maternal II Turno: Manhã

1-Aspecto Sócio-emocional

João Paulo demorou um pouco para se adaptar, tanto a escola, quanto a turma, mas, ao fim de um mês, tudo passou a correr bem com ele, chegando a "pintar o sete" um pouquinho. Brinca com todos, sem demonstrar preferência por nenhum amigo, tendo um ótimo entrosamento com o grupo. Mostra ser uma criança feliz, independente dentro da sala, sabendo usar muito bem as dependências da escola. Em suas brincadeiras tem preferência pelo banco de areia, escorrega, bola, pneu e brincadeiras que enfatizem a corrida e jogos dirigidos. Já em sala, suas atividades preferidas são: modelagem, livros de estória, jogos de construção e desenho. João Paulo está sempre estimulado para qualquer atividade proposta, participando com muito interesse. Já utiliza, divide e arruma corretamente os materiais de uso na sala. Não necessita de ajuda na hora do lanche.

2- Aspecto Aprendizagem

João Paulo apresenta uma capacidade de assimilação muito boa, participando com muito interesse de todas as atividades, apenas se recusando a participar de atividades relacionadas à vida prática como: vestir blusa, short e meias, abaixar e levantar a cueca, uso do papel higiênico etc. Por ser muito interessado, capta as noções com muita facilidade e durante as atividades relacionadas responde corretamente, demonstrando desembaraço e interesse. É uma criança muito esperta e percebe as coisas nos mínimos detalhes, tendo sempre uma resposta a tudo. Demonstra muito interesse por estórias, pintura e colagem. Apresenta uma ótima coordenação motora, demonstrando muita facilidade em atividades desta área como por exemplo: rasgar na linha de figuras, picar e rasgar papéis de variadas texturas etc.

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Rio, 30 de novembro de 1982

Oi, João Paulo
Lembra daqueles dias que passamos juntos no maternal do Jebs? Foi ótimo, não é? Você chegava quase sempre caladinho, cheio de vergonha, precisando que a Tia fosse falar com você, só depois de algum tempo é que se soltava e brincava com os outros colegas, ficando bem "levadinho", pulando e correndo, enfim, "pintando o sete". Adorava ver você brincar com os amigos e eles com você, sendo que tinha uma que era a preferida, a Carol, lembra que você dizia que ia casar com ela e que ia levar pra sua casa e o bebê era a boneca que engatinhava, que ia comprar mamadeira, mas a Carol dizia que a boneca não podia ser um bebê de verdade e você dizia que queria assim. João, lembro de você, sempre trazendo brinquedos, revistinhas e livrinhos para a hora das novidades, hora em que conversamos muito, contando o que tínhamos feito, enfim, trocando experiências. Era gostoso ver como você fazia os trabalhinhos que a Tia dava sendo quase sempre o primeiro a terminar e fazendo-os muito bem, cheio de vontade, principalmente desenho, recorte e colagem, e pintura. Sabe, João, você sempre tinha a resposta na ponta da língua para qualquer coisa que a Tia perguntava! Sabe por quê? Porque você é uma criança muito esperta e que presta atenção a tudo. Eu adorava ver como você participava das atividades que nós fazíamos e você gostava quando chegava a hora de fazer algum trabalhinho, sendo um dos primeiros a correr para a mesinha. Você é uma criança que sempre teve uma capacidade enorme para guardar tudo que a Tia ensinava dentro dessa cabecinha. Puxa! E como tem coisa guardada aí dentro, não é? Durante as brincadeiras com os seus amigos, você conversava bastante com eles e eu gostava de ver como você sabia falar direitinho, e todos o entendiam perfeitamente. Sabe, eu vou ficar com muitas saudades desse menino fofinho e gostoso de apertar e que era muito convencido dizendo que é inteligente. Como foi gostoso e legal esse ano que passamos juntos, onde fizemos tantas coisas alegres! Foi maravilhosos ver você crescer, desabrochar, se sentir livre e feliz. Não preciso nem dizer que vou ficar com saudades, pois já estou sentindo desde agora. Mil beijos nessa bochechinha gostosa, Tia Celeste.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:29 AM


Segunda-feira, Janeiro 26, 2004

Um processo é o de escrever sem amarras, sem pauta, sem nenhuma obrigação que não seja a auto-imposta. Outro é o de escrever sendo conduzido, com orientações e certos limites.

Acabam sendo atividades tão distintas quanto cantar e cortar cana.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:06 AM


Domingo, Janeiro 25, 2004

TARADO?

No blog da Antônia Pellegrino:

"Vou até a página 63 sem dizer nada. "Esse cara é completamente tarado". "Isso quer dizer que você tá gostando". Vejo Carmen rebolar. E eu que tento ver alguma coisa percebo que não enxergo nada. Carmen não pára de rebolar. Alguma memória faz sentido. O homem deu a mão e Carmen engoliu o corpo todo. Vejo Goya. Aqui na contracapa o Cuenca me olha, camisa de botão entre o cinza e o verde escuro, tudo tranquilo. E isso que me embrulha as víceras vem da onde?

Corram pra livrarias, "Corpo Presente" já deve estar esgotando."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:21 PM


Sábado, Janeiro 24, 2004

ADAPTAÇÃO

O que me impressiona em certos sambas é que parecem carregar com eles o segredo da existência. São eternos.

Preciso me encontrar
(Candeia)

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém for me perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver

Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:23 PM


Sexta-feira, Janeiro 23, 2004

Deu lá no CAPITU

Mas vejam vocês que do caralho. Estou aqui tentando espremer alguma inspiração desse peito cansado e acabo sem forças, desisto por hoje. Fico ouvindo Van Morrison, Ryan Adams (não é o Brian) e falando sozinho na sala. Resolvo passear por aí e descubro que fui eleito pelo ilibadíssimo site Capitu o autor revelação do ano de 2003. Fizeram uma votação sigilosa com alguns escritores, editores e leitores e deu o Cuenca aqui.

Corado, agradeço a confiança dos senhores. Maravilha. Agora vão ter que me aturar.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:09 AM

Sei lá se devo ficar falando disso por aqui. O fato é que arrumei trabalho, me mudei. Por isso a escassez de posts. Não, ainda não estou lavando pratos. Quer dizer, só os meus. O emprego é bom e honesto. Quando puder, falo mais.

Quero agradecer a força e a boa onda dos leitores que entraram em contato comigo nos últimos meses. Tem sido genial o contato - vocês me deram a mão num momento bastante complicado.

Pra quem ainda não leu e quer comprar. O livro acabou em várias livrarias, mas vale a pena perguntar. Se não tiver, peçam e encomendem que ele chega em todo o país. Logo rola reposição de estoque.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:55 AM


Sexta-feira, Janeiro 16, 2004

LITERAL

Destaque lá no Portal Literal:

Narrativa fragmentada e tom confessional marcam livros de quatro novos autores, dos quais João Paulo Cuenca parece ser o mais promissor, segundo Claudio Figueiredo.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 6:40 PM

CRÔNICA DA TRIBUNA

Hip hop e a Cufa

Domingo, quase meia noite, peguei um táxi da Tijuca ao Cosme Velho. No
volante, depois fiquei sabendo, Nando E, dj de hip hop na rádio 94 FM,
documentarista e membro atuante da ONG Cufa (Central Única das Favelas).
Ficamos conversando sobre como o bicho anda pegando em algumas favelas da
região, principalmente na área do Rio Comprido. Nando E me contou que fez
parte da produção de um documentário sobre jovens recrutados pelo tráfico e
entrevistou dezesseis garotos. Hoje, quinze já morreram.

Conclusão bastante rápida, logo no segundo parágrafo da crônica. A renovação
dos jovens no crime, atraídos ao crime pelo status, pela isca da grana, pelo
falso brilho da roupa de grife e do tênis de marca (que lhes garantem as
melhores popozudas do salão), é rápida, rapidíssima. Morrem logo, as peças
se repõem. Um traficante de vinte e cinco anos é um veterano. O papo de que
as ações do estado só podem dar resultado "para a próxima geração", "para
daqui a cinqüenta anos" é uma inverdade. Se o estado e a sociedade civil,
através de ONGs e iniciativas individuais, se mobilizarem para dar opções a
essa rapaziada, o esvaziamento do tráfico, pelo menos na ponta do seu
recrutamento, pode acontecer em prazo muito menor. O irritante é que o
discurso da classe média é sempre baseado no "pega pra capar". Morrer eles
acabam morrendo, normalmente de forma horrível, a madame deve imaginar. Mas
sempre tem mais um, de bobeira por ali. A saída está na qualificação e na
valorização desses jovens e isso é tão claro quanto um dia desses de verão.

A Cufa é organizada por jovens do movimento hip hop, presidentes
de associações de moradores, lideranças comunitárias, sambistas, artistas e
trabalhadores em geral de diversas comunidades do Rio que se juntaram em
torno de uma idéia simples: valorizar os potenciais e talentos da periferia,
não valorizados por conta do preconceito social e racial. Com esse objetivo
a Cufa promove atividades com as comunidades carentes nos campos da
educação, cultura, cidadania e desenvolvimento humano. Capacita os jovens
com cursos de djs, graffiti, dança, canto, operador de audiovisual, assim
como promove debates, mesas-redondas e congressos. A cultura hip hop é eixo
principal dessa estratégia, e é promovida e veiculada em discos, vídeos,
shows, programas de rádio, concursos, festivais, oficinas de arte,
exposições, grifes e outros meios.

Madame também não deve entender direito o que é isso de hip hop.
Deve ter ouvido falar que, fim de semana passado, plaiboizada se refestelou
no Hip Hop Manifesta, festival de mauricinhos para mauricinhos, organizado
por figurinhas como Luciano Huck e Pedro Paulo Diniz (com outros oito,
formam o que chamaram de G-10 (?!)). Muito lança foi cheirado, maconha
legalize, a cachorrada rebolando, dando gritinhos com as duas ou três
músicas que conhecem. Nada contra a elitização, oitenta reais de ingresso,
que excluiu da festa quem mais tem identidade com ela. Paga quem tem, quem
não tem fica de fora. Mas fica anotado: o que está acontecendo hoje com o
hip hop é o que já rolou com o samba. Apropriado pelo asfalto e pela grana,
virou coisa pra gringo ver, protegido por muros altos. Mas não é o gringo
de fora. É o gringo nosso, daqui mesmo. O gringo que vai passar carnaval em
Cancun, a cachorrada que alisa o cabelo e enfia silicone nos peitos, o
gringo que toma bomba e pega as meninas pelo braço, a cachorrada que adora e
pergunta qual é o carro do gringo - ah, é um Pathfinder? E por aí vai.

Mais do que música pra mauriçola rebolar, o hip hop é um
movimento social e cultural originado na periferia que usa como expressão
quatro elementos: o rap dos mc's, os scratches dos dj's, o graffiti e o
break. Nada mais contundente, com sua urgência regada a improviso, tem sido
produzido na cultura ocidental. Hoje, o hip hop é o principal caminho para a
conscientização dos moradores das comunidades carentes e para a elevação de
sua auto-estima. Subestimar isso é, no mínimo, estupidez. O resto é papo de
madame ou apropriação de malandro socialite.

Quem quiser entrar em contato com a Cufa e ajudar com o seu trabalho
voluntário, entre no site www.cufa.com.br ou mande email para
renatahutus@terra.com.br.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 6:36 PM


Segunda-feira, Janeiro 12, 2004

UOL

Matéria bacana do Rafael Spoladore no UOL:

João Paulo Cuenca revela Copacabana desesperançada em "Corpo Presente"

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 11:51 PM

Estou devendo atualização aqui.

Mas essa semana devo ficar com a respiração presa e o dedo na tomada.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:02 AM


Quarta-feira, Janeiro 07, 2004

EMOCIÓN

Recebo este email de Joca, o terrível:

"cuenquita, mi hijo

tou de férias, dando uma banda por presidente prudente, terra
de minha rádio-patroa, interior de são paulo.
acabo de passar numa nobel e, felicidade das felicidades,
NOSSOS LIVROS estavam expostos lá.
maravilha, hein?
agora só falta vender.
abraz
joca"

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 9:00 PM


Terça-feira, Janeiro 06, 2004

TRIBUNA DA IMPRENSA

Carta ao Filho II

Segue a belíssima (permito-me a corujice) continuação da crônica da semana passada, escrita pelo meu pai, Juan Cuenca, sobre sua chegada ao Rio de Janeiro, trinta anos passados:

"De cara achei Copacabana confusa, muito cheia, zoológica, felliniana, igualzinha a atual mas com alguns cinemas, aquele da Pompeu Loureiro onde ainda te levei para ver um filme dos Muppets, e o outro da Prado Júnior que se chamava Cinema Um com balcão para bebericar no fundo da sala e algumas fileiras separadas por um vidro para poder fumar, sanduba no Cervantes na saída e tinha o Ricamar na Atlântica. E também o Veneza já em Botafogo onde você com dez anos me arrastou para assistirmos um antológico documentário em preto e branco sobre aqueles irlandeses de alma negra do U2 em gira pelos states bebendo na fonte blueseira da sua música. Quando a sessão acabou, sala quase vazia, olha pai quem está ali, pertinho da gente, sentado, pensativo, sozinho, mastigando o filme, era o Herbert Vianna.

E me amarrei em Ipanema e Leblon, sua bossa, suas meninas, suas ruas arborizadas, prédios ainda com gabarito de quatro andares, harmonia que logo viria a ser quebrada por inúmeros letreiros "mais um lançamento sergiodourado", códigos alterados ao sabor da especulação imobiliária.

Na altura do píer de Ipanema levei meus primeiros caldos mas aprendi e até hoje pego jacaré, uma das minhas primeiras turminhas freqüentava o Nove, pertinho da então Montenegro, no fim da tarde multidão de morrinhos na areia encabeçavam suaves depressões esculpidas por corpos deitados que incendiavam meu imaginário, Sônia Braga bronzeava sua Gabriela a centímetros da gente, o pessoal ainda chamava o Garota de Veloso, o Luna no Leblon com aquele salão refrigerado e fumacento dos fundos onde se falava mal e em voz alta do governo militar, rufava na Ataulfo.

No rádio tocava aquela música do Gonzaga "eu só quero um xodô...", conheci o samba nas noitadas de segundas feiras do Teatro Opinião, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho, Zé da Cuíca e outros famosos eram presenças constantes, minhas primeiras caipirinhas foram lá. No meu primeiro carnaval, o desfile era na Primeiro de Março, trepado em algum poste abrindo uma fresta entre alguns milhares do lado de fora vi a Velha Guarda abrindo o desfile da Mangueira, belo.

A Barra só tinha um prédio alto, aquele charuto chamado Athaideville, praia selvagem, imperdível, Prainha, Grumari, nossa trilha até a praia do Perigoso. O bar do Oswaldo no Largo às sextas era impossível de badalado assim como a rua dos motéis ao lado que eram must - para um pouco menos, ainda se podia se namorar dentro e fora do carro no Arpoador.

Durante anos freqüentei a estrada das Paineiras para correr sempre acompanhado por nossa bela cadela pointer Nena, que cresceu contigo. Duas, três vezes por semana, com frio, calor ou chuva, lá estava eu, você vinha sempre que ficava comigo, vimos coisas belíssimas, micos, bichos preguiça, passarinhos incríveis, aquelas borboletas azuis de março e, acreditem, um cachorro do mato.

Havia no quilômetro três, numa grade de concreto uma marca de tinta que indicava o melhor lugar para desovar cadáveres, era cruel imaginar que lugar tão abençoado servisse para isso, de lá mesmo pude testemunhar ano após ano a estúpida e criminosa degradação da mata para o lado da Rocinha e do Vidigal, arrependo-me não ter tido a visão suficiente para uma foto anual que testemunhasse o crescimento da tumorosa ferida no verde que é de todos nós e vira rio da merda de alguns, omissão que vale votos.

O Rio não o seria sem a carioquice dos bairros da zona norte e oeste que fui conhecendo aos poucos, e sem as favelas em toda sua geografia que nas últimas décadas só não cresceram igual à violência, prova física e sem glamour do descaso dos governos com as questões sociais. Sobre algum glamour na favela não enxergo, enxergo falta de compaixão dos senhores políticos encalhados no vale tudo de seus negócios com nosso dinheiro.

Mas, em contrapartida, ao fluir da vida com alegria temos para lembrar o frescobol tão bem jogado por anos em dupla com você, garoto que começou segurando a raquete com as duas mãos e viramos mestres, e tem a indescritível experiência de te ver crescer, e os amores vividos, os amores perdidos, e o trabalho com seus sucessos e insucessos e temos o mistério do futuro com nossos sonhos.

E a convicção aprendida de saber que índole e caráter não tem nacionalidade e a felicidade de saber que você tem índole, caráter e dignidade, de ser pai de um valente pelo que escreve com tanto talento, orgulho único e incomparável. Creio que muitas páginas não dariam para tanta lembrança, apenas tentei rabiscar traços cênicos de uma referência belíssima, o Rio de Janeiro que amamos, onde desenvolvemos a vida."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:13 PM


Segunda-feira, Janeiro 05, 2004

ESCLARECIMENTO

Rogério Pereira, editor do Rascunho, escreveu na última edição do suplemento paranaense:

"Os chamados blogs (que para mim ainda não passam de diários juvenis e grupos psicanalíticos on-line) transformam-se em livros, ganham admiradores e têm um público fiel. Os exemplos se multiplicam a cada dia: o mais recente pode ser notado neste Rascunho, à página 6, em texto de Ricardo Sabbag, sobre João Paulo Cuenca, que acaba de lançar o fragmentado Corpo presente, pela Planeta - uma das grandes editoras a acreditar nesta moçada."

Antes de tudo e pela milésima vez: meu livro não é "exemplo de blog que vira livro". Meu blog é que é sobre o livro e seus processos - exatamente o inverso. Rogério está mal informado. Mistura alhos com bugalhos e quer me colocar num saco onde não tenho como caber.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:26 PM

Nunca tenho tempo pra responder a todos os comentários que recebo por aqui. Fico muito feliz com tanta boa onda que recebo - para cada mensagem "chata" ganho umas 100 positivas em troca. Quando ando por aí e estou puto, querendo desistir, muitas vezes penso em vocês, e muitas vezes é o que me segura. Fico com remorso, achando que deveria corresponder melhor. Mas se responder a cada um com o cuidado que merece, não escrevo e não faço mais nada. Acho que a única (e melhor) forma de retribuir isso é continuar escrevendo. E aí, escrevendo sem pensar em ninguém - nem em vocês, nem em mim mesmo.

Já tenho um projeto pro próximo livro. Não vai ser fácil de escrever, mas se fosse, qual seria a graça?

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:28 PM

Sábado passado, na sua coluna sobre literatura na Folha de São Paulo, Cassiano Elek Machado fez um breve balanço do ano de 2003 para as letras:

O ano recém-dobrado não foi ruim qualitativamente para o livro brasileiro. A literatura tapuia deu frutos, como o novato João Paulo Cuenca, o melhor Chico Buarque, ótimos Bernardo Carvalho e Marcelo Mirisola, os "achados" Ronaldo Correia de Brito e Davi Arrigucci Jr., e por aí afora.

Nada a ver, eu sei, mas foi bonito ver meu nome na mesma linha do Chico Buarque.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:33 PM


Sábado, Janeiro 03, 2004

CUENCA?

Seria engraçado se não fosse assustador.

Hoje um leitor aqui do blog me procurou no icq pra perguntar se eu tinha conversado com ele de manhã numa sala de bate-papo do UOL. Respondi que não, não costumo freqüentar chats, muito menos no sábado de manhã.

A história é a seguinte: tinha um sujeito com o nick "Cuenca" numa sala de bate-papo gay (!) do UOL. Dizia-se autor do meu livro, falava sobre Copacabana, filosofia, poesia e suas influências literárias. Inclusive chegou a dizer, "depois do Corpo presente, estou pensando em escrever um livro sobre o amor".

Definitivamente, perdi o controle sobre o meu nome.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 5:31 PM


Sexta-feira, Janeiro 02, 2004

RASCUNHO

Saiu boa resenha do livro escrita por Ricardo Sabbag, lá da Gazeta do Povo (PR):

Sexo, mentiras e alucinação em Copacabana
Em seu romance de estréia, João Paulo Cuenca oferta as peças de um quebra-cabeça, mas não as monta


"J. P. Cuenca é um dos nomes da chamada "nova geração" da literatura brasileira.(..) Desses, Cuenca é o que parece menos otimista de todos."

É...

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 8:16 PM

2003

Tudo que aconteceu no ano que passou veio sem expectativa, sem previsão.

Se alguém me contasse em primeiro de janeiro de 2003, exatamente há um ano, o que aconteceria nos próximos meses, não acreditaria, mandava passear. Nem os meus sonhos mais delirantes poderiam incluir meu nome na lombada de dois livros até o final do ano. Que iria parar na capa do Segundo Caderno e do Prosa e Verso. Que iria ser escritor convidado de uma festa literária internacional em Parati. Que iria ser tão bem resenhado por gente relevante, ter fotos de página inteira em revistas e jornais em todo o país. Aparições pela TV, culminando em alguns segundos de Jornal Nacional. Que iria ser pago para escrever e ter um romance nas livrarias - já esgotado em muitas delas.

Hoje, a impressão que tenho é que foi o ano em que perdi o controle. Sobre tudo.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:59 AM

Na última quarta-feira, dei espaço a meu pai na Tribuna da Imprensa. Faço o mesmo aqui, é uma honra.

Carta ao filho I

Meu pai, como o sobrenome sugere, não é brasileiro de nascença. Nasceu em Buenos Aires e chegou ao Brasil há 30 anos. Pensando no aniversário da data, sugeri que relatasse algumas impressões sobre as mudanças que a cidade sofreu nesse tempo, e que também escrevesse sobre o que permaneceu inalterado. No último domingo, num bar na Praça Serzedelo Correia, em Copacabana, chegamos à sofisticada conclusão, regada a chope e vinho branco com gelo (!): a cidade pode mudar, mas Copacabana continuará sempre a mesma merda.

Enfim, deixo os senhores com meu pai que certamente lhes entreterá bem melhor do que tenho feito. Escreveu tão bem e tanto, que precisei dividir sua crônica em duas. Com vocês, o Cuenca de verdade, meu pai, Juan Cuenca:

"A leitura do que segue não deve ser tomada como algo muito datado, são apenas lembranças anacrônicas desse cenário amoroso chamado Rio de Janeiro, registros pipocados da minha memória enquanto escrevo, um observador nem muito arguto, cuidando de abstrair o íntimo para dar um traço do contraste físico entre aqueles anos e hoje deste continente iluminado onde se passam os infinitos movimentos de uma vida, no caso a minha, a nossa.

Trinta anos faz que, numa manhã quente e mormacenta de novembro, saltei de um ônibus numa transversal qualquer do Leblon e andei em direção ao traço de horizonte marinho que enxerguei no final daquela rua. Enquanto andava era por acaso acompanhado por meninas lindas, morenas, louras, cangas e miçangas, garotos parafinados e cabeludos com pranchas, íamos todos na mesma direção recepcionados por uma brisa com o salgado cheiro de uma maresia que desconhecia - fui descobrindo aos poucos que o Rio tinha cheiros inverossímeis e desconhecidos. Quando vi aquele mar, aquela praia, e lembro como se hoje, me disse com culpa "porquê não vim antes", sem um "pô" antes da frase porque não arranhava lhufas de português.

Esse meu primeiro contato com aquela nova realidade, Rio de Janeiro, me alertou de cara a infantilizar meu assombro aristotelicamente, como aconselhava o filósofo para aprender, no caso aprender e apreender esta cidade com todos meus sentidos, trazendo-a para mim, ao corpo e à alma, afinal era o lugar onde ia morar e onde, salvo viagens, tenho passado os últimos trinta anos, uma vida. Diria que o Rio e eu temos um relacionamento que começou com aquele clique longínquo e passamos por muita coisa, a cidade da mais bela natureza que conheço sobrevive apesar dos políticos, eu sobrevivo também apesar, como diz o Chico "apesar de você", e aqui apesar conota um monte.

Vim ao Rio com emprego já acertado, foi numa empresa que funcionava no prédio que fica na esquina da Nilo Peçanha com a rua México, no térreo tinha uma loja Ducal e, da minha janela, observava o buraco do Lume, um escândalo da época, onde hoje é a praça que refresca a convergência da São José com Nilo Peçanha e Rio Branco, no Largo da Carioca outro buraco imenso, poeirento, o do metrô.

Existia um botequim num sobradinho na São José antes de chegar na Primeiro de Março onde hoje, creio, prédio novo, tem um cartório. Freqüência eclética, operários da construção civil, algum malandro, bancários, despachantes, funcionários públicos, executivos de unhas esmaltadas, ternos satinados e lapela com vinco!, um horror, lá tinha geladinha, petiscos, caranguejo, siri, caldinhos, scotch e cana, da brava, nos fins de tarde, bombava.

Meu primeiro dia no centro foi muito interessante, o prédio da Caixa Econômica novinho em folha tinha pegado fogo, o povo se espremia para ver o negrume nas janelas dos andares baixos, nada demais, já tinha sido apagado, mas se configurava diante dos meus olhos uma inédita textura morena cheia de nuances para mim, essa coisa brasileira que desde então me toma e encanta, suas mulheres, nossas, nossa. A multidão atravessando a Presidente Vargas ou a Rio Branco no fim do expediente chamava minha atenção, era muita gente, os homens que trabalhavam no centro eram maioria, hoje as damas dominam a cena, melhorou, táxis fusca, que repetiam a frota nacional da época, na hora do rush faziam lotação para Copacabana e lá voltava eu para casa.

Perplexo lia nos jornais da época que o governo recomprara a empresa de energia que nos iluminava dias antes dela ser encampada pelo próprio governo, era ministro um senhor de olhos oblíquos que virou fazendeiro no Texas e presidente daquela companhia um brasileiro, seria brasileiro?, de sobrenome italiano, a ponta deste iceberg secular navegava como até hoje, só mostrando a ponta." (Continua na próxima quarta-feira).

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:54 AM
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