Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Terça-feira, Dezembro 30, 2003
EDITOR
Queria aproveitar o momento de cinto largo e folga mental para agradecer publicamente a paciência quase infindável de um sujeito que eu tenho orgulho de conhecer. E bato no peito, dizendo "é meu amigo". Amizade que nasceu nesse ano, depois do livro contratado, diga-se de passagem - quem conhece sabe que o cara não é e não ia ser bobo de me publicar por conchavo ou coleguismo.
Mesmo encarando uma pemba gigantesca, no caso uma pemba multinacional, editando quase 60 livros em praticamente meio ano, Paulo Roberto Pires sempre foi bom papo, conhecedor enciclopédico das maiores bagaceirices até música clássica e cantoras de jazz, das melhores companhias para beber do planeta, coisa de horas de chope no Jobi, na Guanabara ou em Parati, sempre um puta ouvido pras minhas reclamações de "jovem escritor", pros meus planos mirabolantes, só o Paulo sabe o quanto eu enchi o saco dele nesse 2003 que solta os últimos estertores, o ano que vai marcar essa minha vida para sempre, morra eu amanhã ou daqui a quarenta anos. Por essas e outras, é um grande cara, o Paulo. Pelo culhão de publicar esse meu livro despirocado e me lançar aos leões, sei lá como agradecer. Talvez continuando a encher o saco dele?
Agora, chega de viadagem porque daqui a pouco eu faço o homem chorar de emoção. E vai o recado, Paulo: 2004 vai ser o ano que eu vou começar a te pagar os chopes.
No último sábado, o Estado de São Paulo publicou matéria sobre "Corpo presente".
"Os personagens estilhaçados de Copacabana", assinada por Ubiratran Brasil, traz algumas repercussões sobre o livro pinçadas aqui nesse blog e dá um rápido panorama sobre o autor. Bem legal, mas houve um vacilo - compreensível, hoje em dia sei de dentro como funciona um jornal.
É que no primeiro parágrafo uma citação minha, retirada do cabeçalho deste blog, saiu com um erro. Diz a matéria: "Relatei tudo que envolveu meu processo, desde joguinhos mentais até o uso de substâncias químicas e livros de auto-ajuda", conta o escritor". Mas eu escrevi aí em cima "substâncias químicas e auto-ajuda" sem o "livros". Na verdade eu nunca li nenhum livro de auto-ajuda, nada contra quem gosta, mas não faz a minha cabeça. Não que eu não precise deles, acho que sim, preciso muito, mas na verdade estava eu me referindo a auto-ajuda pura e simples, "auto-ajuda de mim mesmo", usar esse espaço para desabafar sempre foi algo que me fez sentir melhor sobre o processo estúpido e violento de escrever o livro.
Sempre acho curioso reproduzir aqui uma matéria que fale sobre o blog ou o cite. É como colocar um espelho na frente de outro. Faz sentido pra vocês?
Muita coisa pra dizer, mas simplesmente não consigo formular nada.
E também não tenho ficado parado na frente do computador.
Quem me escreve, saiba que leio tudo, estou tentando responder todos. Tenho uma semana de email pra administrar - com calma chego lá. Mas calma é o que tem mais me faltado.
Ontem a capa do Megazine, caderno do jornal O Globo, foi sobre os 21 anos do livro "Feliz ano velho", de Marcelo Rubens Paiva. A ótima matéria "Ano velho, livro jovem" é do jornalista Bruno Porto.
Depois, rola uma página com alguns "artistas" citando influências literárias dentro do que se convencionou chamar de "livro de geração". Curiosamente, fui o único a citar um autor brasileiro (o próprio Marcelo).
O mais legal foi ler a opinião do Marcelo sobre meu livro. Já sabia que ele tinha gostado por intermédio de um jornalista lá da Folha. Mas ler no jornal que o cara achou meu livro "deslumbrante" me emocionou sobremaneira, um daquels momentos que a gente guarda pra sempre. Lembro que, ainda moleque, morador do Leblon, o vi algumas vezes na orla aqui do Rio. Quase fui falar mas fiquei na minha, tímido. Nunca iria imaginar algo assim:
"Cuenca e Marcelo Rubens Paiva
Uma porrada. É como o jovem escritor carioca descreve o impacto de "Feliz ano velho" em sua vida. "Lembro que fiquei impressionado com o tom direto do livro", conta Cuenca. Coincidentemente, Marcelo Rubens Paiva acabou de ler o primeiro romance de Cuenca, "Corpo presente", e o considerou "deslumbrante". "É um autor jovem com uma semântica muito bem elaborada. Explora Copacabana e seus personagens no limite. Tomara que ele continue", torce Marcelo."
Aqui eu copio um dos emails que mandei ao Bruno, quando entrevistado:
"bruno,
o livro brasileiro de "geração" que mais me influenciou foi o encontro marcado do fernando sabino. acho legal, se vc puder, citar o sabino. a molecada precisa ler esse livro. é fundamental.
quando era bem moleque também li coisas que foram muito importantes, como o feliz ano velho. lembro que li depois que o filme baseado no livro já tinha sido feito (em 88, creio eu). o feliz ano velho foi publicado em 1982, qdo eu tinha 4 anos. eu li mais ou menos com 10, 12 anos de idade, bem depois da sua publicação. era um leitor bastante precoce e só vivi na pele a maior parte das inquietações que o autor descreve tão bem anos depois. acho que o reli novamente com 16, mais ou menos. lembro que fiquei impressionado com o tom direto do livro, com a sua coragem... essa coragem em se expor, mostrar suas feridas e renunciar a muita coisa em prol da criação uma obra literária que se justifique é algo que me norteia e o marcelo é um belo exemplo disso.
além de me identificar e me sentir acompanhado, cúmplice do autor, por várias passagens, o livro me deu um senso de compreensão sobre a geração anterior a minha, dos meus pais, que cresceram sob a ditadura militar. moleque, eu não tinha idéia dos absurdos cometidos pelos militares (e da herança deles na nossa sociedade até hoje) e o livro me ensinou isso, antes das aulas de história."
Depois pretendo escrever mais sobre Sabino. Também sou Eduardo Marciano, desde criancinha.
O João Ximenes Braga, sugerindo livros para dar de presente neste Natal, escreveu isso no blog dele:
"Corpo presente, de João Paulo Cuenca. É um moleque de 25 anos (entrevistei-o para reportagem a ser publicada este sábado no caderno "Prosa & Verso", do Globo). E o livro é intenso, maduro, impressionantemente bem acabado. A estrutura é interessantíssima: está no meio do caminho entre um romance tradicional e um livro de contos. Mas eu não gosto de livros por conta de criatividade estrutural, não tenho o menor interesse por debate literário. Eu gosto de livros que tenham o que dizer, e o de Cuenca tem muito a dizer sobre desejo e sexualidade, sobre o Rio de Janeiro contemporâneo, sobre a geração dele."
E o comentário mais legal foi o da Malu:
"Cuenca: Tomei alguns tapas na cara enquanto eu lia o livro. Tive que ficar ixzsperta para não me pegar de surpresa. Bastante bem sacada aquela jogada "Carmen" múltipla, a cabeça gira no ritmo dos acontecimentos. Pega. Uma situação constrangedora enquanto eu lia: Eu estava no ônibus do metrô voltando para casa. Eu estava sentada e um entregador de ração em pé, quase em cima de mim. Era uma daquelas passagens BEM sexuais. Paguei o mico de ficar escondendo a página direita com a mão enquanto eu lia a esquerda e, para ler a página direita, enfiava a cara no livro. Vai que o cara tem uma ereção carregando 10kg de ração... B.m."
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Eu já passei por esse tipo de situação com alguns livros. Sempre tem alguém querendo ler com o canto do olho.
Mas não posso reclamar muito, vivo fazendo isso com os outros. Aliás, o Instituto Cuenca de pesquisa indica que 90% dos livros lidos em ônibus e metrô são religiosos e/ou evangélicos.
Meu blog foi citado na página principal do Blogger.com.br, o que faz com que centenas de novos visitantes apareçam por aqui. Contextualizada rápida pro pessoal: este blog só existe por causa de um livro que escrevi e lancei esse ano. Comecei o blog em março de 2003, quando já estava com contrato assinado com a Editora Planeta. Antes disso, tinha outro blog e publiquei contos em algumas revistas literárias (conto um pouco disso tudo ao longo da vida deste blog, visitem o histórico). O objetivo do site é e sempre foi escrever sobre o livro, o processo de editá-lo, os detalhes do lançamento e suas repercussões várias. De vez em quando falo sobre mim, por pura incompetência em separar uma coisa da outra.
Outro dia vi que o conto que escrevi para a PARALELOS ganhou mais de 20 comentários. Um arrivista daqueles foi lá bater ponto e tomou porrada dos leitores.
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Depois de passar uma semana dormindo de quatro a cinco horas por noite, o mundo fica mais áspero.
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Continuo recebendo os emails mais surreais. No fundo, gosto.
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Vou voltar a publicar aqui as crônicas da Tribuna da Imprensa. Hoje a noite preciso driblar o sono e escrever a da semana. Assim que estiver pronta, mando pra cá.
Eu estou vestido com as roupas
e as armas de Jorge.
Para que meus inimigos tenham pés
e não me alcancem.
Para que meus inimigos tenham mãos
e não me toquem.
Para que meus inimigos tenham olhos
e não me vejam.
E nem mesmo um pensamento
eles possam ter para me fazerem mal
Armas de fogo
meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar.
Cordas e correntes arrebentem
sem o meu corpo amarrar.
Pois eu estou vestido
com as roupas e as armas de Jorge
Na TPM de dezembro tem um perfil meu, bem sacado e escrito pela Renata Leão. A parte estranha do negócio é se acostumar com minha imagem na página da revista. Não gosto de ficar olhando, fico cheio de pudores. Quando li o texto, virei a página da foto pro outro lado. Não que a foto esteja mal tirada, muito pelo contrário. Mas é estranho.
Acho que o livro está sendo bem circulado e vendido. Todo dia recebo o email de alguém comentando ou me contando repercussões várias. Aos poucos, e com a autorização das pessoas, vou dividindo isso por aqui.
O que tem me deixado mais satisfeito é ver que tem uma galera realmente feliz com esse sucesso. Não conheço a maioria dessas pessoas, mas estão torcendo por mim, me dando força. De certa forma, se sentem representadas por mim. Essa é a conquista mais importante.
Gostei da matéria do Ximenes, embora eu sempre fique meio receoso, achando que estou me expondo demais. Talvez esteja mesmo. Mas acho que, por enquanto, não sei fazer diferente.
Repito o que já disse por aqui, tudo que leio sobre o livro é de enorme aprendizado para entender o que escrevi, e para entender a mim mesmo. Esse processo tem sido do caralho.
Faço uma pequena observação sobre a resenha do Flávio: nada contra, mas nunca li nenhum livro do João Gilberto Noll.
Essa semana me deixou sem saber muito bem o que dizer. Recebo emails de gente dizendo que descobriu o "seu" Alberto na página tal, fazendo relações com a própria vida e com coisas que escreve. Recebo relatos rascantes de gente que se encontrou, teve sentimentos adormecidos despertados com o livro. Gente que não podia ler o livro de noite. Gente que ficou sem dormir. Gente que se identifica. Gente que relê o livro várias vezes. Gente que leu quase tudo na livraria, porque não conseguia parar de ler. Gente que interpreta o livro das formas mais tresloucadas, completamente diferentes. Gente que fica com cenas e capítulos na cabeça por dias.
E ainda teve a resenha sensacional do Bernardo Carvalho que emocionou todo mundo aqui em casa.
E o Chico Mattoso encontrando pureza sob todo aquele escombro.
No que cada pessoa diz sobre o livro, eu vou aprendendo sobre o que escrevi e sobre mim mesmo. Fico sentindo um desejo enorme de agradecer a todos. Não sei como, talvez só escrevendo outro livro. Hoje não consigo muito bem pensar no próximo, acho que tenho que esperar que esse morra dentro de mim, como disse amigo meu. Acho que vai morrer, e acho também que o outro vai ser bem diferente.
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Ontem lançamento da nova edição do belíssimo livro do Hélio Pellegrino, "Meditação de Natal", na Dantes do Leblon. Depois da festa e de algum vinho, fomos ao Jobi. A mesa estava tão agradável que eu, feliz pela resenha do Bernardo na Folha e pela reunião de gente legal, enchi a cara - o que não tenho feito, diga-se de passagem. Certa hora um anjo me cutucou, levantei antes de todos e fui pegar um ônibus, sozinho na madrugada do Leblon. No caminho de casa lembrei que saí sem pagar, dando despesa extra ao meu editor (fora a paciência pra me aturar, ainda paga minha cerveja).
Ainda em Ipanema, dormi. Fui acordado no ponto final pelo trocador.
From: "Chico Mattoso"
To: "João Paulo"
Subject: puríssimo
"gran canalha,
que maravilha a resenha do bernardo carvalho, hein? bela surpresa: me pegou logo cedo, com a xícara de café na boca. parabéns, rapá. você merece. aliás, sei que é jogo duro competir com os comentários do cara, mas o fato é que só ontem terminei de reler o teu livro - e queria te escrever agora, enquanto a coisa ainda tá quente. o negócio é o seguinte:
o que eu acho é que você escreveu um livro sobre a pureza. é um livro que a gente lê sem saber se está se enchendo de lama ou tomando uma ducha definitiva - e talvez não haja mesmo a menor diferença. às vezes a gente patina ali no meio, fica difícil manter-se em pé. algumas cenas me deram um asco parecido com o que sinto quando leio nelson rodrigues. acho que você tem um leve parentesco com o tiozão, não tanto pela crueza das passagens mas principalmente pelo que parece estar por trás delas: a necessidade se encontrar uma verdade em meio ao tumulto. há um risco nisso, um risco que todo bom livro corre, que é o de que essa busca engula a literatura e transforme a ficção num rebolado epilético. você passou por essa, de cabeça erguida.
mesmo aqueles trechos que me incomodavam, onde você fica explicando demais a paranóia - eu achava que o livro podia ser mais "substantivo" - agora desceram direitinho. o livro tem uma estrutura que permite os excessos, quer dizer, que os absorve e torna coerentes. só não saquei essa tal de "paudurescência". que porra é essa? aqui em são paulo não tem disso não, meu caro.
eu não sei pra onde você vai depois dessa, jp. estou curioso pra ver o que vem por aí. mas você não me engana: por trás da merda toda, por trás do mar de porra e sangue e cus latejantes, está um puro, um puríssimo, da linhagem das calcinhas de renda e das nuvens de algodão. e isso é realmente do caralho.
João Paulo Cuenca publicou um conto poderoso no número nove da
revista "Ficções" (primeiro semestre de 2002). Narrava a ida a um
baile funk no morro do Pavão, em Copacabana. O conto foi desmembrado
e alguns trechos foram incluídos no primeiro romance do autor, "Corpo
Presente", que acaba de sair pela Planeta.
O título do romance, seguido de uma epígrafe de João Antônio, pode
causar algum mal-entendido: Cuenca presta homenagem ao escritor
paulista que elegeu a Copacabana do bas-fond, "civilização do quarto-
e-sala", "cloaca", como cenário de uma realidade que, para ele,
era "mais autêntica" do que a vida "de mentirinha" da pequena
burguesia carioca. A diferença é que Cuenca tem 25 anos e começou a
publicar na internet, a exemplo de muitos outros da sua geração.
A combinação entre real e virtual, entre a idealização da descida aos
infernos como "vida mais verdadeira", à maneira de João Antônio, e o
mundo dos paraísos artificiais dos blogs e chats faz diferença e deve
servir de alerta para os que tendem a se contentar com as aparências
e ler romances como se fossem relatos da experiência dos autores. A
experiência em "Corpo Presente" é o confronto com um mundo físico em
permanente fuga, num tempo marcado pelo narcisismo, pela
imaterialidade e pela irrealidade dos encontros virtuais.
Se Cuenca é de fato uma bela estréia literária, isso se deve a
fatores bem mais interessantes do que um suposto relato da
experiência "verdadeira" do autor. Todo escritor que se preza sabe
que os infernos reais, quando transpostos para a literatura, são
sempre imaginários, são sempre uma criação. Se a literatura é um
espaço privilegiado e libertário, é justamente por dar à imaginação o
mesmo peso da vida.
O romance de Cuenca, em que não há propriamente uma progressão
narrativa, é composto por capítulos designados por números primos
(divisíveis apenas por si mesmos e por um). Há uma lógica
intransitiva na progressão dos capítulos que anula a própria
progressão: os números primos são todos iguais a um (quando divididos
por eles mesmos) ou iguais a eles mesmos (quando divididos por um).
Para dar um pouco mais de materialidade a esse princípio, os três
protagonistas do romance (Carmen, o narrador e Alberto) são
intercambiáveis, todos um e o mesmo. Formam uma espécie de triângulo
em que o narrador pode ser filho ou amante de Carmen, amigo de
Alberto ou o próprio Alberto (que também pode ser marido, amante ou
filho de Carmen), ou pode ser Carmen, que às vezes é mãe, outras
vezes é puta.
Carmen encarna o real na cabeça do narrador, um sujeito em permanente
estado amoroso, em permanente sentimento de perda. Ela é o seu objeto
do desejo, em oposição à irrealidade ou à hipocrisia que o
cerca: "Carmen não me dá vontade de escrever. Se o mundo fosse real
como Carmen, não teria nada a dizer". O que dá vontade de escrever é
a falta dela. Só Carmen é real, "a única coisa que realmente existe".
Contrariando o que diz, entretanto, o narrador escreve por causa dela
(o livro é dedicado a Carmen, seja ela quem for). O que dá a entender
que Carmen é um corpo ausente ("Ao redor do corpo de Carmen, todos
pensam que teria sido melhor terem morrido no seu lugar"). Se o
narrador escreve, é para suprir, pela imaginação, a ausência que
nenhuma presença pode suprir.
O título do livro ganha, assim, uma rica ambiguidade. O "corpo
presente" não é apenas o corpo da morta, ou o relato da experiência,
mas também o próprio livro, transfiguração da falta. O que leva o
autor a escrever é a vontade de transformar a experiência ausente
(passada ou perdida) em presença, a morte em vida. O motor da escrita
é a ausência. O corpo ausente é motivo do desejo, o que não tem
matéria nem fim (ao contrário da experiência), o que leva a escrever
sem nunca se consumar ("O melhor que Alberto já escreveu é o que
nunca conseguiu escrever").
A literatura é uma forma de transfigurar a ausência em presença para
sempre: "Carmen entrou na categoria de acontecimentos eternos. (...)
Mesmo morta você está quente, Carmen. Eu não consigo fazer você
morrer em mim. Sei que você está aqui neste quarto, mesmo não
estando. (...) Morta, não vai parar de falar dentro de mim (...) essa
prece interminável (...). Carmen está em mim".
Seria preciso uma certa dose de pobreza de espírito para defender a
esta altura do campeonato a ilusão de que só faz boa literatura quem
viveu na carne o que tem para contar. Seria endossar uma concepção
empobrecida do que significa viver (e escrever). Seria reduzir a
literatura ao depoimento. Seria descartar 90% do que de melhor já se
escreveu na história da humanidade, o fim da imaginação, da invenção
e da arte.
Basta estar vivo para contar. Em literatura, a experiência é sempre
imaginária, por mais que tenha sido vivida pelo autor (e ela sempre é
vivida, de uma forma ou de outra, o que torna essa questão totalmente
secundária). O texto literário não é apenas o relato de uma
experiência prévia; ele é a própria experiência. O "Corpo Presente",
de João Paulo Cuenca, está dizendo isso o tempo todo. Para quem
quiser ouvir.
Fiquei tão feliz que vou reproduzir o comentário todo aqui, incluindo a citação do livro que ela fez.
"Dica Perfeita
Não costumo fazer isso por aqui, mas também não costumo me assombrar com a qualidade de um romance, como aconteceu com Corpo Presente, de João Paulo Cuenca. Ainda estou sob o efeito do livro - li em pouco mais do que uma hora, liguei para meia dúzia de amigos, deixei recados histéricos em diferentes secretárias eletrônicas e acabei aqui, dividindo essa descoberta da mesma forma que o autor dividiu a personagem Carmen - com a diferença que na estranha operação que ele realizou, acabou somando centenas de mulheres numa mesma personagem.
Ao contrário de alguns autores, que acreditam que ser classificado como romântico é negativo, é ofensa, é fora de moda, João Paulo transgride sua geração escancarando romantismo em cada linha de sua obra. Um romantismo visceral, cruel, doentio e sem-vergonha. Não vou me alongar aqui com uma crítica a respeito do livro, porque nem me acho apta para tanto. Só termino dizendo que desde As Vinhas da Ira, de Steinbeck, não leio e releio uma página, com tanto susto, paixão e incredulidade. Deixo abaixo a tal página para vocês tirarem suas próprias conclusões:
Espero uma pausa. Abro os botões da camisa um a um. Arranco a pele do meu peito com as unhas, uso a faca e o garfo para estripar meu coração entre costelas, o sangue respinga pela mesa, espirra no rosto impassível e nervoso de Carmen, cheio de espinhas, o choro escuro. Seus olhos ficam mais claros com a luz da praia, enxergam-se nos meus. Faço tudo sem desviar o olhar. Carmen agora tem os cabelos pretos vestidos do sangue que escorre até sua boca, cai pela nuca e pelas costas lisas e brancas. Seguro seu queixo e nos beijamos. De pé. Carmen ajuda a abrir mais o tecido do meu tronco, me abraça por dentro da pele - seus dedos pequenos deslizam sob minhas vértebras, os mamilos duros encaixam-se nas minhas costelas aparentes. Seu cheiro agora é meu sangue. Com as mãos ainda trêmulas, entrego o pedaço de carne vermelha, jogo no prato.
Chamo Carmen de mal-criada e, num estertor ridículo, digo:
"Come"
A escada de pedra escorre vermelho até o mar. Peço a conta ao garçom - Carmen vai pagar."
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Hoje li também a resenha que o Eduf escreveu pra revista Radar. Legal, mas não entendi se ele gostou ou não do livro (não que uma resenha precise explicitar isso, mas sempre fico curioso).
Ainda tentando me desintoxicar desse corpo presente, ando ouvindo discos novos e/ou diferentes dos que passaram pelo meu som quando eu estava burilando a obra.
No disco novo do Paulo César Pinheiro, pela primeira vez solito, pesquei uns três versos absolutamente matadores. Formam a chave de ouro da pequena obra-prima "Amor Ausente", faixa cinco:
"Prefiro ter muito mais o amor que mata a gente
Que viver de amor ausente
Ou morrer sem mais amar."