Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Sexta-feira, Novembro 28, 2003
O PREÇO DA ADMISSÃO
"Você tem que vender seu coração, suas reações mais poderosas, e não apenas as pequenas coisas que o tocaram ligeiramente, as pequenas experiências que você poderá contar ao jantar. Isso é especialmente verdadeiro quando você começa a escrever, quando não desenvolveu ainda os recursos com que prender os outros ao papel, quando nada tem da técnica que leva tempo para aprender. Quando em suma você tem apenas emoções para vender. O amador, vendo que o profissional, depois de aprender tudo que podia em matéria de escrever, consegue pegar um assunto trivial , como as reações mais superficiais de três moças comuns, por exemplo, e dar-lhe encanto e graça o amador só consegue realizar sua habilidade de transferir emoções a outra pessoa através do expediente desesperado e radical de arrancar do coração a trágica história de seu primeiro amor, e expô-la nas páginas para que os outros vejam. Este, de qualquer forma, é o preço da admissão." - Scott Fitzgerald.
Espero, com este livro, já ter pago.
Roubei essa citação do blog da ciça, mas ela me disse que roubou a citação do Sabino, então ficou tudo em casa.
Tava fuçando meus emails e encontrei esse texto que escrevi sob encomenda do jornal O Globo, em ocasião da Flip. Era pra continuar a frase, "quando eu escrevo..."
Acho que ficou meio brega, viadinho mesmo, mas é bom republicar pra me lembrar de certas coisas.
"Quando eu escrevo dou um nó nessa folha em branco, torço o papel, crispo os dedos até que escorram as palavras. Logo descem pelo ralo, num redemoinho de trincos quebrados e portas batidas. Deitam longe de mim, sem controle.
Quando eu escrevo os segredos não se evitam, surgem inocentes, pelos cantos, até que sejam agarrados, examinados com lentes e raio-x. Escarafunchando o pensamento, estou nu em praça pública. Não aguardo julgamento.
Quando eu escrevo é pra entender, ligar as pontas, afrouxar o tempo. Recriar as pequenas eternidades perdidas num sorriso de mulher, no sol riscando o céu. Fotografar a vida que se vive, emoldurar o que se sente, esculpir as ilusões. Em palavra.
Recebi uma cópia da resenha que saiu no último sábado no Correio Braziliense escrita pelo Rosualdo Rodrigues. Página inteira, foto minha estampando o jornal (eu sempre acho isso estranhíssimo), e um texto bastante elogioso. Fiquei muito feliz. O Rosualdo com certeza andou por esse blogue pra escrever a matéria, acho bacana quando isso acontece. Assim que conseguir escanear a página, boto aqui.
"Há uma conspiração para prejudicar o trabalho do escritor. Há um demônio a perturbá-lo. A criação é que salva o escritor. E se você não escreve, você vai pra cucuia. Eu espero que vocês tenham um bom anjo da guarda que os proteja do demônio, da conspiração."
"O enredo é uma coisa muito secundária no romance. Você só usa o enredo para distrair o leitor enquanto lhe bate a carteira".
"olha só: outro dia estava navegando na internet e descobri que a real academia espanhola tem um dicionário on-line. pra ver se o conteúdo era o mesmo do dicionário de papel, adivinha o que teclei? pois sim, "cuenca". acabei descobrindo que, além do que já sabíamos, existe uma expressão na república dominicana que é a tradução fiel do seu atual estado:
En cuenca.
1. loc. adv. En quiebra, en bancarrota.
Na quinta-feira fiz um intervalo numa bebedeira e corri em casa para receber um telefonema. Era uma entrevista sobre o livro para a rádio CBN, em rede nacional. Fui muito bem tratado pelas moças e, apesar de sempre me sentir um enrolador em entrevistas, acho que fui bem. Engraçado foi uma hora que deu branco, me perdi na metade da pergunta da locutora e fiquei pensando em outras coisas, no chope interrompido, sei lá. Daqui a pouco, uma pausa: era a deixa pra minha resposta. Mas não tinha noção da pergunta feita. Um segundo de pânico, imaginei os rádios ligados nos táxis, em lanchonetes, sobre lajes, em cima de geladeiras, todo mundo esperando o que eu iria dizer. Imagino que a CBN tenha uma audiência de algumas dezenas (ou centenas?) de milhares de pessoas por minuto. Respirei fundo e improvisei diante do estádio lotado, espalhado pelo país. Enfim, espero que alguém tenha tido vontade de comprar o livro, ou se interessado por literatura. Não sei se sou bom vendedor.
Santiago Nazarian, colega de Parati e Flip, venecedor do prêmio Fundação Conrado Wessel de literatura e autor de Olívio, fala sobre meu livro:
"É um horror. Um pesadelo. Fiquei com pena de você. Nem sabia que essas coisas todas existiam. Se você as viveu, devia ir passar o resto da sua vida numa fazenda cheia de carneirinhos. Se é tudo criação, devia ser morto a facadas hoje mesmo.
Quero dizer, é praticamente um livro de terror. Uma doença. No qual o sexo perde todo o sentido afetivo, erótico ou até mesmo pornográfico e se torna uma tortura. Cada ejaculação é uma assassinato.
(Nesse aspecto, me lembrou um pouco o filme "Irreversível", já viu?)
Obviamente, não dá para questionar a qualidade poética, estilística, blah, blah, blah. Você sabe bem o que está fazendo.O ritmo é interessante, não exatamente de um romance, mas também não é outra coisa. É um ritmo próprio, "cuenquiano".
O que eu posso dizer? Gostei? Acho que sim. Dá vontade de ler umas passagens de novo. Tem imagens fortes. Mas não me fez bem. O que importa é que você é um escritor que importa. Faz diferença. Tem um universo próprio, e acho que é isso que todos devem buscar.
O que eu não gostei de jeito nenhum? Não sei. Talvez seja carioca demais, digo, muito situado. Pode perder um pouco a universalidade. Mas de repente era o que você queria...
Isso é tudo o que eu posso dizer antes de mais um gole de vodka. Parabéns, sinto muito, sei lá. De qualquer forma, você sabe que eu não entendo nada de literatura e também estou infestado de doenças."
Depois que o livro está publicado, não há muito mais o que se fazer. Fico na espera de resenhas e matérias, ando por algumas livrarias perguntando do livro - está em todas, o que me enche de um misto de orgulho e preocupação.
Como minha vida anda complicada, alguns dias são piores, bastante piores do que outros. Hoje era pra ser um desses.
Mas então leio a resenha do "Corpo Presente" escrita pelo Daniel Galera para no site da Fraude, e esse dia insuportavelmente quente fica até mais agradável, como se eu tivesse tomado um banho de chope gelado na cabeça. O cara entendeu meu livro melhor do que eu mesmo, e entendeu bonito. Essa resenha foi a melhor coisa q li até agora sobre o livro. Emocionou.
Escrevi há pouco para o Galera contando que só estou entendendo direito o livro que escrevi agora, depois de ler as resenhas que estão saindo, as opiniões e emails que recebo. Lendo a resenha vejo que a compreensão que ele teve do livro é, sem dúvida, muito maior que a minha. É engraçado, não? A comunicação que se consegue estabelecer com literatura alcança níveis maiores do que qualquer outra coisa. Nessas horas, sem querer enumerar apesares, fico feliz simplesmente por estar vivo e ter o que compartilhar. E acho que escrever acaba sendo isso, só isso.
Na quinta fui citado no Estadão numa matéria sobre o lançamento dos livros da Índigo e sobre "escritores e internet": "E já são incontáveis os autores que escrevem para as duas mídias - João Paulo Cuenca, autor de Corpo Presente, mantém até hoje, em www.carmencarmen.blogger.com.br, um "diário do processo de edição e finalização" (agora, já com as primeiras "recepções") do livro, lançado em outubro pela Planeta."
Acontece das palavras saírem voando pela praia, soltas num longo plano-sequência. Sem grua, câmera ou autor. Só as palavras. Desatadas. Jogam-se por essa janela e vão por aí, metem-se onde não foram chamadas, fazem a ronda dos bares em Copacabana, jogam-se sobre os plásticos azuis dos camelôs da Central, visitam a pérgula de restaurantes caros em Ipanema, espiam por trás dos espelhos falsos dos motéis da Barra, levantam as saias das meninas da Lapa, escalam as paredes dos sobrados ocos, colocam-se sobre os ombros de quem está no balcão de um boteco, onde o líquido dourado escorre nos copos, desce cremoso, gelado de fazer fumaça no ar.
As palavras sem dono, invisíveis, tudo sabem. Não precisam se esforçar, os caminhos vão se abrindo de acordo com sua direção, navegam na proa de um barco em águas tranqüilas, voam moldando a realidade ao seu redor, como se o mundo abrisse espaço e se adaptasse à sua prosa estranha. Como se elas, as palavras, vestissem o universo. Planando sobre o fio d¿água, as palavras escolhem seu rumo, indiferentes com essa ficção cristalizada em realidade, donas de si.
Já eu, não tenho a autonomia das palavras. Sequer sei escolher meus caminhos. Entre uma coleção de possíveis destinos para o meu olhar, me concentro no que incomoda. É uma escolha deliberada, sem acidentes. Sempre me atrai o lado espinhoso, exploro as reentrâncias das paredes ásperas, afundo os pés no concreto pegajoso. Não existe a percepção do passado e o cimento não endurece, está sempre pronto para prender meus sapatos. Quando percebo essa sala, e ela se cria a qualquer momento na minha frente, as paredes estão todas úmidas, frescas, projetando imagens que se misturam num caldo multicolor e efervescente, as figuras se encontram num ponto de não-tempo, tão confuso quanto óbvio, e eu posso ouvir as vozes, os suspiros, o alarme de relógios que não chegaram a tocar. Nunca encaro as janelas, as possíveis saídas por onde escapam as palavras. Fecho-me nos cantos, nas encruzilhadas do quarto, nos pontos de encontro das três linhas que projetam pirâmides sobre o meu corpo.
Assim vou andando encaixotado pelas ruas, tentando correr o caminho das palavras, imitar as palavras, ganhar a intimidade das palavras com o mundo, querendo tentar esticar o pescoço pra fora. Querendo tentar, digo assim, pois sequer chego à tentativa. Tentar pressupõe desejo. E algo há nessa mistura de terra e água que não me permite sequer querer olhar para fora. Algo me aprisiona nesse olhar. Não me resta nada além de me arrastar por essas paredes, engatinhar sobre as lembranças, me lambuzar e esfregar em cimento amolecido, até que eu e a parede formemos essa única coisa, indivisível. Penso em arrancar-me dali a marretadas e escalar essa caverna aberta no meu peito, mas amalgamado com a parede como estou - é uma impossibilidade. Andando, levo a mão ao meu rosto suado e encontro o tato de uma parede, o frio e a indiferença de uma parede branca. É o concreto que me engana e às vezes endurece. São as palavras que me iludem e logo depois voam longe, soltas de mim. Desatadas.
Fico feliz quando me dizem que encontram o livro bem exposto nas livrarias por aí.
Vocês vão achar estranho, mas eu não tenho o livro. Não tenho o meu livro. Todos que eu recebi da editora (tive direito a uma cota de 20 exemplares), vendi ou dei. É engraçado, não gosto muito de emprestar livros, tenho certo apego. Mas ao meu livro, com o meu nome na capa, não tenho nenhum. Não consigo ver nenhum exemplar como se fosse meu.
Coisas que ouvi sobre o livro essa semana. Que a mãe de um amigo leu a primeira página e disse, "escreve muito bem esse rapaz", mas na página terceira, jogou o livro longe, "é um doente mental".
E também ouvi que é redentor, que fez alguém se sentir perdoado. E isso foi a coisa mais bonita que já ouvi sobre ele até agora.
Entre uma coleção de possíveis destinos para o meu olhar, me concentro no que incomoda. É uma escolha deliberada, sem acidentes. Sempre me atrai o lado espinhoso, exploro as reentrâncias das paredes ásperas, afundo os pés no concreto pegajoso. Não existe a percepção do passado, o cimento não endurece, está sempre pronto para prender meus sapatos. Quando percebo essa sala, e ela se cria a qualquer momento na minha frente, as paredes estão todas úmidas, frescas, projetando imagens que se misturam num caldo multicolor e efervescente, as figuras se encontram num ponto de não-tempo, tão confuso quanto óbvio, e eu posso ouvir as vozes, os suspiros, o alarme de relógios que não chegaram a tocar. Nunca encaro as janelas, as possíveis saídas. Fecho-me nos cantos, nas encruzilhadas do quarto, nos pontos de encontro das três linhas que projetam pirâmides sobre o meu corpo.
Assim vou andando encaixotado pelas ruas, querendo tentar esticar o pescoço pra fora. Querendo tentar, digo assim, pois sequer chego à tentativa. Tentar pressupõe desejo. E algo há nessa mistura de terra e água que não me permite sequer querer olhar para fora. Algo me aprisiona nesse olhar. Não me resta nada além de me arrastar por essas paredes, engatinhar sobre as lembranças, me lambuzar e esfregar em cimento amolecido, até que eu e a parede formemos uma única coisa, indivisível. Penso em arrancar-me dali a marretadas e escalar essa caverna aberta no meu peito, mas amalgamado com a parede como estou - é uma impossibilidade. Andando, levo a mão ao meu rosto suado e encontro o tato de uma parede, o frio e a indiferença de uma parede branca.
Tenho recebido uns pedidos de entrevistas pra trabalhos de faculdades, coisa assim. Acho bacana. Nessa semana, o glamourama Marcelo Caldas, resolveu fazer um perfil meu pra uma matéria do Arthur Dapieve na PUC. Achei o perfil interessante e engraçado, mas não me reconheço direito em nenhuma declaração, nem nas minhas, muito menos das dos outros. Tem umas coisas que não concordo. E esse papo de "temperamento por vezes difícil" me veio com certo estranhamento - eu sou tão chato assim? E, pra não esquecer: porra, Márvio, meu querido, vai se foder!
Mas enfim, acho que o "perfilado" não tem que necessariamente concordar com o seu perfil - foge do seu controle.
Como assunto tem faltado por aqui, tomalá:
"Um dos nomes de maior destaque da nova safra de escritores cariocas, João Paulo Cuenca é uma grata surpresa de sua geração. Depois de ver seu blog, "Folhetim Bizarro", ser considerado um dos melhores da internet brasileira, agora, aos 25 anos, está lançando pela Editora Planeta seu primeiro romance, "Corpo Presente", com distribuição nacional, em uma oportunidade que tem sido cada vez mais rara no mercado literário brasileiro, normalmente cauteloso em relação a novos autores.
- Fico feliz que ele tenha sido contemplado, porque hoje reconhecimento é pura sorte. Você pode ficar anos fazendo um trabalho relevante e não ter uma linha de aplauso. João Paulo recebeu uma honra à altura. - diz Márvio dos Anjos, jornalista da Folha de São Paulo e vocalista da banda Glamourama, amigo do escritor há alguns anos.
"Corpo Presente", no entanto, não é a primeira publicação de Cuenca, que assina a co-autoria do livro "Parati para Mim", lançado também pela Editora Planeta, na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) desse ano. Além disso, seus contos já saíram em edições das revistas Ficções, Play e Ácaro. A princípio, parece que a literatura foi um caminho natural para ele, algo que sempre esteve presente em sua vida, mas o próprio escritor se apressa em corrigir:
- Escrevia quando era criança, depois disso só aos 17, 18 anos... mas pensava muito, o tempo todo.
Talvez por isso outras atividades dividam o tempo e o espaço de Cuenca, que é guitarrista da banda de surf music Netunos e formado em Economia pela UFRJ, curso que escolheu porque "acreditava que poderia ficar rico antes dos 30 anos e comprar um barco para viajar pelo mundo" .
- Fracassei..., afirma, sorrindo.
A música, aliás, é o outro canal para dar vazão ao que pensa e escreve o jovem autor. Há pouco mais de um ano, ele era também guitarrista de outro grupo, o Glamourama, cujos integrantes se vestem com roupas brilhantes e abusam da maquiagem. Com bom-humor, Cuenca lembra dessa passagem como algo "interessante":
- Nunca me senti tão bicha e, ao mesmo tempo, tão cobiçado pelas mulheres. E aprendi a pintar o meu olho sozinho.
Apesar de as críticas a "músicos-escritores" serem uma constante, Cuenca parece conseguir livrar-se do estigma, transitando entre os dois campos com talento e competência. Para ele, conciliar as duas atividades não chega a ser um problema, já que, no momento, nenhuma delas gera um grande retorno financeiro.
- Aliás, no momento simplesmente não tiro meu sustento, então esse conflito sequer existe.
O vocalista e companheiro de Netunos, Carlos Alexandre Monteiro, também não vê problemas na "vida dupla" de seu guitarrista.
- São vivências diferentes, experiências que, direta ou indiretamente, podemos e devemos deixar que influenciem o nosso trabalho musical. João Paulo tem um espírito centralizador e um grau às vezes até exagerado de exigência com o trabalho, mas, ao mesmo tempo, tem um coração muito bom e é extremamente talentoso.
Filho de um publicitário argentino com uma dona de casa brasileira, Cuenca faz jus à mistura e costuma ser uma pessoa difícil de definir. É dono de opiniões fortes e um temperamento por vezes difícil, por isso não é raro encontrar quem tem alguma ressalva quanto a ele. Até mesmo amigos, como o próprio Márvio dos Anjos:
- É uma figura egocêntrica, obsessiva, paranóica, um prato cheio para ótimas teses de mestrado e doutorado em psicologia.
Cuenca não se importa. Para quem na adolescência era "basicamente rejeitado" e, poucos anos depois, viu seu nome repercutir quando começou a mandar por e-mail para conhecidos os diálogos que mais tarde seriam reunidos no blog "Folhetim Bizarro", esses extremos são tão coerentes quanto sua própria rota na vida. Talvez por isso sua escrita traga tanto de sua experiência pessoal.
- Minhas maiores influências como escritor foram as burradas onde me meti, desde que tenho uns 2 ou 3 anos de idade, e essa visão alienada do mundo.
- O que salta aos olhos é a incapacidade de encarar as coisas com menos dramaticidade. É óbvio para mim que essa percepção influi em sua escrita, e ele sabe descrever muito bem suas dores, desde um pé na bunda até uma unha encravada, lembra Márvio dos Anjos.
João Paulo Cuenca é quase a síntese da Copacabana curiosa e imperfeita que escreve em "Corpo Presente". Se depender das primeiras críticas, seu romance de estréia pode significar o início de uma carreira promissora, mas quando se trata desse jovem autor, nada é tão certo quanto parece.
- O que representa o livro? Um enterro talvez. Ou um recomeço. Não sei bem... pode ser um tiro n'água, uma pagação de mico ou uma estrada que vai se abrir. Posso falar melhor sobre sensações. Vendo as palavras impressas, me vem nítida a imagem: estou andando sobre o meu próprio túmulo."
Saio de casa com o dinheiro contado e recontado da passagem. Chego ao bar combinado, ali no Posto 6, em Copacabana, e lá me aguarda uma equipe para a sessão de fotos que ilustrará uma matéria sobre, espero eu, meu trabalho de escritor. Há um iluminador operando um grande conjunto de lâmpadas sobre um tripé, um diretor de arte, uma produtora, um produtor de moda e uma fotógrafa. Eu chego com a roupa de sempre, tênis surrado, calça jeans e uma camisa de botão meio suja. Mas não posso fotografar com minhas roupas "mortas" e tenho várias opções, todas aparentemente ridículas, para usar. Escolho, com a ajuda da minha namorada, e contando com a paciência infindável da competente equipe da revista, algo que fique menos distante do que costumo vestir normalmente. É uma permuta, não reclamo - o jogo é jogado. O peculiar da cena é que vou aparecer numa revista com roupas caras que não tenho dinheiro para comprar, lançando meu livro que, surpresa!, também não tenho dinheiro para comprar. Aliás, se o objetivo é vender e divulgar meu livro, aproveito enquanto sou "jovem", aproveito esse senso do ridículo claudicante, e me jogo no que for necessário. Aceito até aparecer de cueca (e fique a vontade pra fazer trocadilho com o meu nome) em revista feminina, embora acredite que não exista curiosidade do público para isso, sem contar a que sente, e aí agradeço a deus diariamente, a linda mulher que escolheu me amar, e está suficiente.
Corta a cena, avança três dias, e estou em Porto Alegre como convidado da 49a Feira do Livro da cidade, confortavelmente instalado num hotel quatro estrelas, deitado numa cama de mola, king-size, enquanto escrevo isso aqui num bloco de papel. Apesar da opulenta hospedagem e recepção, desembarquei no aeroporto com apenas alguns trocados no bolso. Não pude aproveitar bem a viagem, não comprei livro algum, não bebi as Serra Malte que planejava, cheguei cedo todas as noites no enorme quarto, andar alto, de onde vejo a catedral da cidade e o palácio do governo. Na madrugada, Porto Alegre esfria e aquieta lá embaixo.
"Vou pro hotel" é a frase, e deixo os colegas de escrita Marcelino Freire, autor do excelente "BaléRalé", Mojo e Galera, escritores e fundadores da gaúcha Livros do Mal, Joca Terron, catedrático renascentista, escritor, poeta, editor da Ciência do Acidente e artista gráfico, colegas da mesa redonda "Novos autores, novas mídias" que rolou no belíssimo Centro Cultural Santander pouco antes de ir autografar meu livro "Corpo Presente" (Ed.Planeta) na tenda de autógrafos da feira, enfim, deixo os escritores depois de um lauto almoço num rodízio de costela (subsidiado pela venda pessoal de um livro ao mestre Cardoso, embaixada da sabedoria em Porto Alegre) e vou ao hotel tentar esquecer que não tenho mais do que dez reais no bolso, tentar também esquecer que meus problemas são um grande nada perto de quem realmente é pobre e fodido no mundo, enfim, tentar abafar essa angústia classe-média remediada, e abro a água quente da banheira para dar cabo à leitura de "Depois que o cão morreu" (Ed. Livros do Mal), romance do Daniel Galera que havia começado a ler na noite anterior, quando fui a um jantar oferecido pela organização da feira num luxuoso restaurante, onde me senti desolocado e desfocado, cada vez mais incapaz de ocultar minhas idiossincrasias em lugares sofisticados, de gente cheirosa demais, falando da Europa, eu nunca fui à Europa, e sem grana pra beber, já que eles não são bobos nem nada e as bebidas eram pagas a parte, passei cerca de duas horas num transe monástico até a chegada da comida. Cansado (aliás, palavra chave desse estado de espírito atual), disse novamente, "vou pro hotel" e vou ao hotel começar a ler o livro do Galera, que terminei no dia seguinte, na banheira com água quente, como vinha contando, e achei o livro um retrato contundente da letargia dessa geração informada demais, fodida demais, desesperançosa demais, que enxerga o mundo com olhos vazados, cinzentos, identifiquei-me com o protagonista do Galera em diversos momentos da narrativa, encontrei-me na sua ânsia vazia, no uso de uma paixão e de um lindo corpo de mulher como escape e solução única para a sua vida, ou o que chama de vida, enfim, ótimo o livro do Galera.
No checkout do hotel descubro que os cinco ou seis telefonemas locais que dei custaram a bagatela de quarenta reais, valor que tenho que pagar, mas só tenho dez pratas no bolso e ligo para a Letícia da Editora Planeta em São Paulo (à cobrar) e ela resolve a situação prontamente, o que me faz sentir, mais uma vez, agradecido aos céus por ter uma editora grande apostando em mim, mas também me sinto um adolescente durango e dependente, meleca escorrendo pelo nariz. Termino de escrever esta crônica à mão, aqui no salão de embarque do aeroporto, onde uma gente arrumada me olha estreito, ou nem olha, mas eu me sinto assim, talvez por achar que mereça. Enfim, como o personagem do livro do Galera, preciso de um emprego. Qualquer um.