Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Está ficando bonito. Até a semana vindoura, acho que estará no ar.
Além do fórum, onde debates calorosos sobre literatura ganharão palco, inventei mais uma forma de interagir com os leitores: a seção "resenha do leitor". O leitor vai poder escrever exercitar seu lado crítico e resenhar o livrinho pra todo mundo ler. Não é fantástico?
A princípio o fórum não terá censura ou moderação e sei que terei meu nome vilipendiado sem dó. Mas a seção "resenha do leitor" será por mim moderada, ou seja, só entrarão as resenhas que eu ache relevantes (para o bem ou para o mal). Insultos pessoais só serão aceitos na parte do fórum.
Aí é que os senhores vão perceber mesmo que eu sou uma FARSA. Mas eu me nego a esconder isso. Não tenho assunto pra escrever uma crônica (ou até tenho, mas me dói), então pego uns trechos aqui do blog, misturo com um folhetimbizarro velho, dou uma mexidinha, e sai essa coisa estranha e amarga, sem pé nem cabeça, tacanha, no jornal de amanhã. E ainda termino sempre no prazo estourado. Cara de pau!
Garoto precoce
Anda pela rua plastificado desse mundo. Os pensamentos encapuzados, exclusivamente solitários. Quem vai esbarrar, desiste, passa através. Com o humor, vai-se algum peso. Sempre a mesma gente de atitudes ensaiadas. Saco cheio desse lugar comum. Meta-saco-cheio. Ensaiando discursos velhacos para si mesmo, vai mastigando as palavras, um passo sobre o outro. Letargia vespertina no Lido. O que uma vez já foi piada, passa a estado de espírito permanente, inconteste e, quem sabe, irreversível. O senhor, cada vez mais conservador, reacionário e chato. Fica em casa, trancado em si. Quando sai, toma gosto por uma livraria em especial, um boteco em especial. Bebe no balcão, mas, carrancudo, nada diz. Fica ali, pensando de calças compridas. Atravessa a praça, uma pernada por vez. Ou como diria seu irlandês preferido, um muito curto espaço de tempo através de muito curtos tempos de espaço.
As noites viradas, de finais improvisados e porres homéricos, solitariamente compartilhados, ficam pra trás. Os amigos, cumplicidades incondicionais, quase segredos, pra trás. A mulher e os filhos, nascidos pra dar sentido ao acaso de um encontro banal, pra trás. O emprego, salário, apartamento, estudo, lá bem atrás. Aconteceu mais cedo do que imaginava. O isolamento vai dando num desprezo profundo por tudo que seja humano e aí, é triste e envergonha, mas nojo é a melhor palavra que se pode usar. Nessa sua relação com o mundo, paixão disputa espaço com repulsa. O senhor sabe bem e olha o sinal na esquina, esperando que algum dia criem algum tipo de perdão pros seus pecados. Atravessa a rua, entra no banco. Confere se o carnê está no bolso pela décima vez desde que saiu de casa.
Mas não tem pressa, nem pelo perdão, nem pra mais nada. Pega o tempo que quer e precisa. Não sabe mexer no caixa eletrônico e planta uma fila, sólida e consistente, atrás de si. Alguém reclama. O senhor começa uma discussão com a fila, levanta o tom de voz. Retrucam feio e, finalmente, engata.
"Pra que ter pressa, rapaz? Qual é o seu problema? E vocês, o que estão olhando? Esse seu orgulho é engraçado. Vocês acham que escapam? Acham que podem sair dessa? Pra que pressa, eu pergunto a vocês, seus arremedos de humanidade! Algum de vocês aí, acha realmente que vai ter uma vida melhor? Vocês nunca vão sair dessa fila! Relaxem, não há motivo pra pressa. É circular, essa fila é circular, a vida de vocês é circular, vocês só estão aqui pra fazer parte da fila, sacar uns trocados, comprar alguns presentinhos e encher os burros de quem realmente importa. Vocês são a fila! Vão nascer e morrer fila! Vão comer e cagar fila!"
A gritaria chama atenção dos seguranças, o gerente levanta da cadeira e o bafafá já tomou conta do banco lotado. Uma pequena multidão atônita encara o escândalo. Mas o pior é quando a mãe gira a porta, corre e pega o garoto pelo braço dizendo, "já pra casa, Alberto, que você tem que almoçar, amanhã tem prova, a aula de inglês, que bagunça é essa, demora uma hora pra pagar uma conta, parece que bebe, moleque bobo, quem te ensinou essa besteirada, onde é que eu estava com a cabeça, meu deus, amanhã você tem prova, hoje de tarde tem aula de inglês, tanta coisa pra eu fazer e ainda tenho que me preocupar, a comida lá no fogo, os senhores aí me desculpem, que vergonha, esse moleque, que vergonha, meu deus, esse moleque é...", e vai dando tapas na cabeça do pobre, todo encolhido.
Algumas pessoas comentaram o meu comentário sobre uma idéia de promoção pra distribuir livros, mas o sistema do blogger comeu os comentários. Só pude ler entrando no sistema (e mesmo assim não pude ver quem enviou cada um deles).
Eu estou pensando numa promo pra fazer aqui com os persistentes leitores deste espaço. Vou ver se descolo uns dez exemplares com a editora.
Algumas novidades. A Primavera dos Livros, que vai rolar no Armazém do Rio, do dia 16 a 19 de outubro, vai contar com uma participação minha. O lance é o seguinte: no sábado, 18, vou participar como convidado numa das mesas redondas sobre nova literatura (depois dou a programação completa). Depois disso, de noitinha, eu e a Cecília Giannetti vamos fazer um show de voz e violão (ou voz e guitarra) tocando clássicos do cancioneiro popular e algumas músicas de nossas respectivas bandas (Netunos e Casino). Vai rolar Elvis Costello, Jorge Bem, Aimee Mann, Chico Buarque, e eu estou tentando convencer a Ciça a levar um Elton John, porque, vão se foder, mas o cara é um gênio. Depois disso vai rolar a festa da feira, lá mesmo, com premiados djs como Jesse Kowalsky, Joca Vidal e Edinho (a confirmar). Vou dar uma palha no som também.
Mas, principalmente, essa será a noite do lançamento do site da revista PARALELOS (em breve no papel), uma iniciativa do caralho, capitaneada pelo Augusto Sales, de reunir autores cariocas numa revista literária. A revista sairá pela editora Casa da Palavra, presente na Primavera.
Enfim, acho que será uma noite legal: leituras, debates, feira de livro, show e festa por APENAS dois reais (unzinho pra quem estuda). Com certeza a BOA do dia 18, sábado.
Escrevi uma crônica que eu, relendo, não gosto. Estava com sono, sem idéias, e muito puto da minha vida quando escrevi. É uma frase só e eu não sei se os leitores terão saco de chegar no final, aliás, final este mais brega do que briga de casal em mulheres apaixonadas. Mas foi feito e está lá, no jornal. Acontece. Segue:
Prece de frase solta
Pelos calos nos pés, pela noite mal dormida, pelo sangue escorrido, pela cicatriz aberta, pela raiva contida, pela alegria exígua, pelo orgulho ferido, pelo corpo curvado, pela intimidade devassada, pelo emprego perdido, pela dor de cabeça, pela conta vencida, pelo ciúme provocado, pela tortura disfarçada, pelo mau-caratismo enrustido, pelo fracasso inesperado, pela bola isolada, pela falência dos sentidos, pelo presunto vencido, pelo ônibus cheio, pelo tanque vazio, pelo encontro desmarcado, pela mulher mentirosa, pelo amigo traído, pelo gol contra, pelo estômago dolorido, pela ânsia de vômito, pelo choro guardado, pelo pano de chão, pela água de barro, pelo buraco no asfalto, pelo vácuo mental, pelo boteco fechado, pelo telefone ocupado, pelo tapa na cara, pela falta de luz, pela criança na rua, pela noite perdida, pela companhia solitária, pelo acaso presumido, pela discussão de relacionamento, pelo sono perdido, pelo litígio familiar, pelo móvel quebrado, pela cerveja quente, pelo jogo entregue, pelo elevador parado, pela notícia ruim, pela chave errada, pelo sinal fechado, pelo relógio atrasado, pela janela quebrada, pelo filho vadio, pelo amor desperdiçado, pela agressão gratuita, pela maldade sem pudor, pela mesquinharia arrogante, pelo preconceito estúpido, pela vaidade exacerbada, pela queimadura profunda, pelo arrependimento doído, pelo comentário desprovido, pelo remorso sentido, pela doença sem cura, pela morte anunciada, pela crítica chula, pela falta de alma, pelo sonho frustrado, pelo sexo fútil, pelo escravo no escritório, pela plutocracia sem vergonha, pela cobrança despropositada, pela aliança na privada, pelo gosto de derrota, pela descarga apertada, pela posse desempossada, pelo alvo móvel, pelo reflexo distorcido, pelas palavras cuspidas, pela ausência de cuidado, pela burrice preguiçosa, pela mala direta, pelo intervalo na tv, pelos vendedores chatos, pelo filme dublado, pelo sujeito arrogante, pelo atleta de boutique, pela perua fabricada, pela prostituta emocional, pela frigidez dominical, pelo comportamento viciado, pelo cinismo amargo, pela música ruim, pelo lixo na calçada, pelo bafafá de titia, pelo papo de madame, pelo filme vagabundo e caro, pela perna passada, pelo jovem senil, pelo truque velho, pelo salto alto, pelo horizonte curto, pela arrogância sem talento, pelo talento desperdiçado, pelo livro rasgado, pelo ordinário arrumado, pelo cartão de crédito estourado, pela boate cheia, pelo pesadelo presente, pela pálpebra arregalada, pela futilidade confessa, pela vergonha alheia, pela autocomiseração desesperada, pelo negrume existencial, pelo olho grande, pelo assassinato planejado, pelo senhor desempregado, pela praça gradeada, pelo engarrafamento no túnel, pela vida envidraçada, pela mentira deslavada, pela sutileza malcriada, pela grávida abandonada, pela unha quebrada, pela pia entupida, pela lágrima encravada, pela pirraça descarada, pela lâmpada queimada, pela arrogância disfarçada, pelo cachorro trancado, pelo gato folgado, pela falta de troco, pela guerra no oriente, pela empáfia dos gringos, pelos macacos de imitação, pelo malandro fabricado, pelo anel de doutor, pela ditadura surda-muda, pela ética esgarçada, pela inspiração limitada, pelo fôlego curto, pela idéia viciada, pelo nojo tímido, pelo mau gosto geral, pela angústia distraída, pela carta não respondida, pela falta de paciência, por perder o que não se tem, por acreditar no impossível, pela mediocridade confortável, pela pretensão imperdoável, pela celebridade insossa, pela falta de mérito, pelo dinheiro difícil, pelos pensamentos que envergonham, pela verdade incômoda, pela frase cortada, pela doença plantada, pelo feriado que cai num domingo, pela topada na mesa, pelo asco imprevisto, pela saudade murcha, pelo sorriso esquecido, pela letra mentirosa, pelo estudo inútil, pela falta de consciência, pelo desconhecimento interior, pelo cheiro estranho, pela comida estragada, pelo baile vazio, pelo bloco sem festa, pela fila na esquina, pela viagem esquecida, pelo despertar grosseiro, pelo dia nublado, pela chuva sem amparo, pelo inverno deslocado, pela porta fechada e por essa vida desgarrada, mas vivida, bamba, mas vivida, trágica, mas vivida, doce ou amarga, mas vivida, sempre vivida, eu agradeço.
IT'S KNOWING THAT HE KNOWS YOU NOW AFTER ONLY GUESSING
IT'S THE THOUGHT OF HIM UNDRESSING YOU OR YOU UNDRESSING
I Want You (1986)
Elvis Costello
Oh my baby baby I love you more than I can tell
I don't think I can live without you
And I know that I never will
Oh my baby baby I want you so it scares me to death
I can't say anymore than "I love you"
Everything else is a waste of breath
I want you
You've had your fun you don't get well no more
I want you
Your fingernails go dragging down the wall
Be careful darling you might fall
I want you
I woke up and one of us was crying
I want you
You said "Young man I do beleive you're dying"
I want you
If you need a second opinion as you seem to do these days
You can look in my eyes and you can count the ways
I want you
Did you mean to tell me but seem to forget
I want you
Since when were you so generous and inarticulate
I want you
It's the stupid details that my heart is breaking for
It's the way your shoulders shake and what they're shaking for
I want you
it's knowing that he knows you now after only guessing
It's the thought of him undressing you or you undressing
I want you
He tossed some tatty compliment your way
I want you
And you were fool enough to love it when he said
"I want you"
I want you
The truth can't hurt you it's just like the dark
It scares you witless
But in time you see things clear and stark
I want you
Go on and hurt me then we'll let it drop
I want you
I'm afraid I won't know where to stop
I want you
I'm not ashamed to say I cried for you
I want you
I want to know the things you did that we do too
I want you
I want to hear he pleases you more than I do
I want you
I might as well be useless for all it means to you
I want you
Did you call his name out as he held you down
I want you
Oh no my darling not with that clown
I want you
You've had your fun you don't get well no more
I want you
No-one who wants you could want you more
I want you
Every night when I go off to bed and when I wake up
I want you
I want you
I'm going to say it again 'til I instill it
I know I'm going to feel this way until you kill it
I want you
I want you
Nightswimming
Nightswimming deserves a quiet night.
The photograph on the dashboard, taken years ago,
Turned around backwards so the windshield shows.
Every streetlight reveals the picture in reverse.
Still, it¿s so much clearer.
I forgot my shirt at the water¿s edge.
The moon is low tonight.
Nightswimming deserves a quiet night.
I¿m not sure all these people understand.
It¿s not like years ago,
The fear of getting caught,
Of recklessness and water.
They cannot see me naked.
These things, they go away,
Replaced by everyday.
Nightswimming, remembering that night.
September¿s coming soon.
I¿m pining for the moon.
And what if there were two
Side by side in orbit
Around the fairest sun?
That bright, tight forever drum
Could not describe nightswimming.
You, I thought I knew you.
You I cannot judge.
You, I thought you knew me,
this one laughing quietly underneath my breath.
Nightswimming.
The photograph reflects,
Every streetlight a reminder.
Nightswimming deserves a quiet night, deserves a quiet night.
Se os leitores desse blog quiserem se divertir nesse fim de sexta-feira (19/09), a boa pode ser assistir esse pretenso escritor fazendo biquinho e tocando guitarra: show do Netunos de grátis na praia vermelha.
"Pois é: faremos mais uma pausa na gravação do nosso primeiro disco pra matar as saudades de todos - sobretudo as nossas. Teremos o maior orgulho de tocar na primeira edição do SINTONIA, evento que mensalmente levará bandas independentes do Rio de Janeiro para o CAMPUS DA UFRJ na PRAIA VERMELHA, URCA. Para este nosso show, muitas músicas do álbum que está sendo gravado e algumas outras novidades...ao nosso lado, o britpop bacana do GRANDPRIX. E sabe o que é melhor ? É GRÁTIS! Por isso, anote todas as infos:
NETUNOS e GRANDPRIX no SINTONIA!
Sexta-feira, 19/09, a partir das 19h no CAMPUS DA PRAIA VERMELHA-
Avenida Pasteur, nº250, fundos, Urca - o palco ficará ao lado da piscina"
Outro dia vi trechos de um documentário chamado "The Comedian". O filme contrapõe as histórias de dois comediantes norte-americanos, Jerry Seinfeld, vocês sabem quem é, e um novato que me esqueci o nome, sujeito tão desconhecido quanto neurótico. Na única cena do filme onde os dois contracenam (na verdade, se encontram, afinal, é um documentário), o Seinfeld tenta apaziguar os ânimos histéricos do colega desconhecido, sedento por fama e reconhecimento, "tenho vinte e nove anos e meus amigos todos já são pais de família etc". Jerry, incrédulo com o papo família do rapaz, conta uma história que diz ter acontecido com dois músicos da orquestra do lendário Benny Goodman, clarinetista, pai do Swing (não a fudelança entre casais, mas o estilo musical surgido em NY nos anos 30).
Numa cidade perdida nos cafundós do judas norte-americano, o vento gelava sobre dois músicos que enfrentavam a neve segurando os estojos dos instrumentos. Perdidos no caminho do clube onde tocariam naquela noite, viram, através da névoa, as luzes de uma casa. Pela janela, uma família jantava alegremente, um belo pernil sobre a mesa, linda esposa, crianças bem educadas. Ao fundo da sala, uma lareira esquentava. Um dos músicos vira pro outro e pergunta:
Acredito que o que já vem se insinuando entre as letras publicadas nesse espaço durante os últimos meses passou de humor temporário a estado de espírito permanente, inconteste e, talvez, irreversível. Temo ter me transformado num jovem senhor, cada vez mais conservador, reacionário e chato. Entrar em qualquer lugar cheio, barulhento ou esfumaçado, se transformou em tormenta, pesadelo de pálpebras arregaladas. Fico em casa, trancado em mim, tomo gosto por restaurantes e botecos velhos, museus, samba canção, piazzolla e folk. Pensamentos de calças compridas.
As noites viradas, de finais improvisados e porres homéricos, solitariamente compartilhados, ficaram pra trás. Aconteceu mais cedo do que imaginava. Não é ruim, mas às vezes essa tendência ao isolamento se traduz num desprezo profundo por tudo que seja humano e aí, é triste e me envergonha, mas nojo é a melhor palavra que se pode usar. É estranha essa relação com o mundo, paixão disputando espaço com repulsa. Espero que algum dia exista perdão pra isso.
"Max Planck provou que toda energia é irradiada em pacotes individuais chamados "quanta", em vez de em correntes fluindo sobre um espectro contínuo. Os "pulos" ou "saltos" surgiram alguns anos depois quando Niels Bhor demonstrou que os elétrons pulam de um estado energético a outro por meio de saltos quânticos descontínuos, cujo tamanho depende de quantos quanta de energia os elétrons absorveram ou liberaram. (...) Numa região onde a realidade parece constituir-se não de realidades fixas que podemos conhecer mas sim de probabilidades que talvez conheçamos, quanto mais se procura analisar os movimentos de qualquer partícula, mais enganosa ele se torna. Esta qualidade enganosa é o maior problema levantado pela teoria quântica. O outro grande problema é o destino de todas aquelas probabilidades não aproveitadas."
Quanto mais se procura analisar os movimentos de qualquer partícula, mais enganosa ela se torna. Quanto mais se procura analisar os movimentos de qualquer partícula, mais enganosa ela se torna. Quanto mais se procura analisar os movimentos de qualquer partícula, mais enganosa ela se torna.
Lá pelas três ou quatro da madrugada, vão chegando lá embaixo. Uma tropa silenciosa se estica pela calçada, equilibra tábuas e monta as barracas da feira. Amanhã é aquela zorra de fruta, vegetal e peixe escorrendo pros bueiros, moleques segurando sacolas, velhas empurrando carrinhos, pechinchas e gritos batendo na janela. Depois da disputa pela xepa, a rua faxinada à mangueira e muito rodo pra limpar a imundice.
Acordamos embrulhados um no outro. Os pedaços de cama vão sendo conquistados sem cerimônia durante a noite, entre lençóis enrolados nas pernas, travesseiros jogados, cotoveladas e joelhaços involuntários. Quando dou por mim, o braço caído pelo chão, ocupo um canto, sem ter onde apoiar a cabeça. Com a manhã, o torcicolo e as costas moídas. Enquanto tento me ajeitar, ela domina o território, estica-se sem remorso sobre mim, sossegada. Nessa guerra surda pelo colchão, sou perdedor assumido.
Quando abre os olhos, dispara beijinhos e diz que me ama, esbaforida. Abraça forte e não quer largar. O que foi é que sonhou feio, de morte. Diz que vai chorar, mas não chora e conta. Mas contar sonho antes de tomar o café dá azar, então demora pra contar, adoça. Depois de vários depois, veio o enfim: o sonhado foi que eu morri. Daí o drama. Ônibus pra São Paulo, pego pro lançamento do livro, duas horas depois o acidente e a lista dos mortos na televisão. Ainda fresco, o sonho vai saindo derramado, cheio de detalhes e desencontros. Depois de morto, digo coisas através de fotos. Respondo perguntas, projeto imagens dentro da sua cabeça.
E foi dizendo sobre o sonho. Agarrando-se a mim e a minha ausência sentida, de morto presente. O que se tem, ganha um gosto diferente com o medo. A sombra e a saudade pesam mais do que a presença. Sentimentos temperados por risco, feridas que se abrem só pra espiar. Às vezes eu penso que as coisas fáceis são as melhores de complicar. E também penso em algumas equações idiotas pra simplificar a conta. Que o amor ensina as pessoas a mentir, desde sempre. E que mentir ensina as pessoas a morrer, desde sempre. E que amar e morrer são duas pontas dessa maior mentira de todas: estar vivo. Sem amor, não há morte - não há o que perder. E sem morte, não pode haver amor, essa efemeridade prolongada. Respiram um dentro do outro numa relação incestuosa, parasitária. Entrelaçam-se como as nossas pernas disputando espaço na cama.
Ficou o dia todo com esse gosto de morte anunciada, e não houve o que tirasse. Nos olhares, a eternidade do casal traída pelo sonho ruim. E depois de morto, quanto tempo ela demoraria pra encontrar o próximo homem? Uma semana, três meses, dois anos? A viuvez simulada não deu gosto e veio uma angústia doída entre os peitos. Sabor de nostalgia precoce, solidão acompanhada no dia preguiçoso, cheio de sonos, cochilado sem dó nem piedade, "pra apagar o sonho ruim".
Aqui deveria transcrever os últimos suspiros da crônica passada sobre Espinosa e seus conceitos de paixão. Por algum erro, foi impressa pelo jornal sem o final, onde, além de fechar algumas idéias sobre entristecer paixões alegres e alegrar tristezas do coração, declarava outra paixão, a minha própria. Meu plano era juntar as idéias e terminar com o final não publicado. Mas não irei reproduzir nada. Fica um daqueles buracos que o acaso manda fazer dentro de nós. Peço desculpas ao amigo leitor.
O espaço e a inspiração que me sobram são poucos, mas o suficiente para imprimir outro final nestas linhas. Menos impactante, talvez. Mas é o que se coloca. E, do pouco que sei sobre isso que é escrever, respeito uma regra (talvez uma limitação): não brigar contra minhas pulsões.
Morto, só espero uma coisa: que ainda ame dentro de quem ficar.
Hoje de manhã morreu um dos sujeitos que mais me acompanharam no processo de editar e rereescrever esse livro. Já estava planejando o trabalho que daria seqüência ao "American IV: The man comes around", mas foi pego de calças curtas. E esse disco acabou se transformando no canto de cisne mais bonito da história do roque. Não há uma única canção que não seja repleta de significados na vida do homem - e na nossa. O mundo vai ficando um lugar pior pra se viver.
Hoje minha crônica na Tribuna foi publicada com o final cortado por um erro de diagramação. Acontece.
Segue abaixo. Na verdade é uma reciclagem de um post desse blog. Não estava conseguindo escrever nada, então dei uma incrementada no que já existia e escrevi um final.
Paixão mutante
Gilles Deleuze escreveu nos anos setenta um livro sobre um filósofo do século dezessete. ¿Espinosa, Filosofia prática¿ saiu pela Editora Escuta no ano passado. O que mais me chamou atenção na filosofia prática do Espinosa, que com certeza o nosso amigo bigodudo Nietzche leu até secar a última letra, foi o conceito de "paixão triste". Ao contrário do que possa parecer, esse conceito de tristeza não carrega nenhuma moral intrínseca ou oposição entre bem e mal. Espinosa é um imoralista. Não acredita em Bem ou Mal puros, mas em relações boas ou más entre dois corpos, duas pessoas, relações que podem se compor ou não: "O bom existe quando um corpo compõe diretamente a sua relação com o nosso e, com toda ou com uma parte de sua potência, aumenta a nossa. Por exemplo, um alimento. O mau para nós existe quando um corpo decompõe a relação do nosso, ainda que se componha com as nossas partes, mas sob outras relações que aquelas que correspondem à nossa essência: por exemplo, como um veneno que decompõe o sangue."
A filosofia espinosista pretende denunciar o que nos orienta contra a vida, "envenenada pelas categorias do Bem e do Mal, da falta e do mérito, do pecado e da remissão": culpa, ódio e... Estamos chegamos às paixões tristes.
Todo sujeito é um grau de potência, uma essência singular, que tem poder de afetar e ser afetado por outros. Um dos tipos de afecções estabelecidas por esse indivíduo, não explicadas pela sua essência ou natureza, derivando do exterior, é a paixão. A paixão (qualquer paixão, inclusive as provocadas por ditadores, astros de rock e padres) preenche nossa capacidade de sermos afetados e nos separa da capacidade de agir. A grande zebra é que, quando encontramos um corpo exterior que não se compõe com o nosso, ocorre uma subtração da nossa potência. Já quando encontramos um corpo que nos convém, ocorre a adição da potência desse corpo ao nosso. É uma paixão alegre.
As paixões tristes, sejam lá quais forem, "representam o grau mais baixo da nossa potência: o momento em que estamos separados ao máximo de nossa potencia de agir, altamente alienados, entregues aos fantasmas da superstição e às mitificações do tirano." A Ética de Espinosa diz que somente a alegria é valida, só ela permanece e nos aproxima da ação. A paixão triste é sempre impotência.
Ahá! Só que não é moleza só escolher paixões alegres. Então Espinosa define três problemas práticos em sua ética: como alcançar o máximo de paixões alegres, como conseguir formar idéias adequadas, como chegar a ser consciente de si mesmo, de Deus e das coisas O drama é que a gente parece sempre condenado aos maus encontros, às tristezas e a ter de nosso espírito e de nosso corpo idéias inadequadas. Além disso, A NOSSA CONSCIÊNCIA PARECE SER INSEPARÁVEL DE ILUSÕES.
Colocando a idéia empiricamente, sob esse manto de ignorância que me cobre, imagino que as paixões entre duas pessoas nunca sejam inteiramente tristes ou alegres. Digo mais: existem paixões mutantes, que se transformam do dia pra noite, entristecem em telefonemas raivosos e ataques ciumentos. Após um final de semana daqueles infinitos, cheios de planos e declarações de amor, a tormenta chega na segunda de manhã, por um motivo nenhum. Depois da noite intensa, o olhar cúmplice e os planos feitos, a grosseria despropositada e o tapa na cara. A promessa de amor negada, o dito pelo não dito. Acredito que é possível deliberadamente entristecer uma paixão alegre. Normalmente isso é feito por medo ou insegurança, e aí voltamos aos problemas práticos de Espinosa: a consciência de si mesmo, as ilusões, os espelhos refletidos. Alegrar paixões tristes é trabalho mais complexo - muito mais fácil destruir do que construir sobre destroços.
Enfim, chego ao meu ponto: pra abraçar e querer alegrar uma paixão mutante, só estando muito apaixonado. Eu estou.
Ontem fui à casa do Paulo e, juntos, terminamos de rever a preparação do texto. Depois de um litro de café e algumas rápidas horas, acabou. A criança foi pra diagramação, esfaqueada, sangrando, mas enxuta. Deve sair na última metade de outubro.
Não consigo ter nenhuma opinião formada sobre o livro. Acho que nem é pra ter.
Caminho pela plataforma traçando linhas retas com os olhos, marco meu caminho através da gente ocupada carregando pastas, documentos, sacolas e muita pressa até entrar no vagão. Consigo um posto entre a porta e a massa imóvel de pessoas, um bloco de carne emparedada. Estou na passagem do fluxo. Sob mim, um pequeno pedaço de chão. Apertados uns contra os outros, parecemos pequenos macacos de laboratório. Quando as portas se abrem, nos libertamos e ganhamos a estação com raiva. O cerco da cidade.
Além do aperto no metrô, algo mais me sufoca. É o colarinho apertado, envolto por uma gravata. Estou de terno. A gola aperta minha garganta como uma lembrança ruim. Gravata parece remorso. O que para muitos é comum como tirar o pé da cama, para mim ganha ares de missão militar - um terno e uma gravata. E o nó da gravata. Saio do vagão pisando firme, me esforço em parecer natural. Mas é impossível, sou um daqueles caras de terno e gravata. Mereço respeito. Olha lá, senhor, estou passando. Dá licença, senhorita, presta atenção.
Quando saio da Uruguaiana e ando até a Rio Branco, começo a perceber olhares, cumprimentos calados, uma certa reverência. As moças que reparam são diferentes das que normalmente me notam. Vestem tailleurs, cabelos montados, refletem meus passos em seus óculos metidos a besta, executivas modernas, independentes, solteiras, lavando a louça e as cuecas da corporação. Em casa, usam o serviço do apart-hotel. Ou a doméstica, essa instituição ultrapassada.
Mas o que me surpreende não é isso. Vem do outro lado. Em poucos minutos percebo que os distintos jovens e velhos senhores que usam ternos formam uma silenciosa confraria, se encaram orgulhosos, confiantes, reparando nos trajes alheios. Secretamente imaginam os cargos uns dos outros em suas respectivas organizações, a procedência dos tecidos, a qualidade dos sapatos. Pude perceber dois senhores discretamente notando meus sapatos - miravam de soslaio, com indiferença planejada. Não estavam combinando com minhas calças, os sapatos. Coisa parecida, talvez só aqui na Prado Júnior, quando as profissionais se esbarram pela madrugada, medindo decotes curtos e saltos altos, entre fricotes, trocando farpas e abraços.
Sei de papo de estrangeiro malandro, bem apessoado, grisalho, ar de galã espanhol, que, acordando de pá virada, "sentindo mal", levanta da cama e veste um Armani. Sai, impecável, lenço na lapela, e vai engraxar os sapatos. Senta no trono de madeira, daqueles que os moleques tomam conta, e, com ar de chefia, manda o pobre engraxar. Duas vezes. Abre a carteira, mas a grana esqueceu. Pendura o moleque, diz que volta depois do almoço. E parte pro boteco, o homem do terno. Puxa uma. O boteco sublinha a nobreza do homem de terno. Os outros chegam pra lá. Abaixam as orelhas pra ouvir o terno falar. E puxa outras. Um sanduíche de pernil. Bolinho de bacalhau. E mais uma e outra e chega a tardinha. No caminho de volta, o malandro desvia dos outros botecos onde tem as contas penduradas, anda na diagonal, fugindo da mira dos galegos. Troca de esquina pra não esbarrar no engraxate. Mas o povo, esse dá licença, o terno abre passagem e o gringo olha reto, cheio de convicção.
Mas eu, que de malandro tenho pouco e que não visto nenhum Armani, sigo pela calçada, tentando parecer alguém direito dentro do terno. Tentando merecer os olhares, o respeito e o caminho aberto. E o algum, é claro. Levanto as sobrancelhas, levo um par de óculos escuros ao rosto. Protegido, encaro o mar de gente, seus horizontes particulares, únicos nessa correria desgovernada sob cipós de metal e troncos de concreto. Os macacos de laboratório, soltos no apito e no abrir das portas. Um carro parado e me enxergo no vidro. O terno, a gravata, os óculos escuros de armação dourada, sapatos que não combinam. Tento enxergar uma nesga de céu entre o topo dos prédios, mas só vejo sombra entre os passos no chão. A gente correndo suas vidas atrás de mim, jogando o jogo que é jogado. Afrouxo o nó da minha garganta e, andando, me misturo. Agora que uso essa gravata, procuro as regras.
Recebi o texto preparado. Na quinta me encontro com o Paulo para fecharmos a novela juntos. Depois, a gilhotina sem volta.
Uma curiosidade: o revisor disse que bauru não tem ovos, o americano é que vem com um ovo frito. Mas aqui no Rio o Bauru tem ovos. E vai ficar assim, com ovos, o meu Bauru. Aliás, meu não. Do El Cid.
O livro entrou em processo de espera. O editor mandou o arquivo de Word pro preparador, em São Paulo, creio eu. Depois revisaremos juntos. Aí é a marca do gol. A capa já chegou, gostei do conceito. Vai chamar a atenção entre os outros livros.
Enquanto aguardo essa bigorna cair sobre a minha cabeça, procuro emprego. Quem puder me ajudar, me manda um email, por favor.