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chico queiroz

Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Quarta-feira, Agosto 27, 2003

CRÔNICA NA TRIBUNA DA IMPRENSA

Hoje, quarta-feira, nas bancas minha primeira crônica num jornal. Ainda estou titubeando. E não sei quando não titubearei.

O link pro site da Tribuna é esse.

Como eu não sei fazer um link permanente disso, vou publicar aqui a crônica na íntegra.

Tanques em Copacabana

Gostaria de inaugurar esse espaço escrevendo sobre um dia claro aqui em Copacabana. Um daqueles dias azuis, o vento leve pelas ruas, nem vazias, nem cheias. Nos botecos, a cerveja gelada de antes do almoço, um salgado pra tapear. Os porteiros entornam cachaça, furtivos, apostam com palitos - esquecem das portas. Crianças correm soltas, reclamam, arrastam brinquedos velhos, puxam os bonés dos senhores bronzeados jogando biriba, equilibrando suas barrigas sobre cadeiras de praia nas calçadas. Jogam sobre engradados de cerveja, mesas improvisadas. Alguém organiza um churrasquinho e sobe a fumaça da carne queimada nesse dia claro aqui em Copacabana. Desperto sem pressa, dobro o Arpoador a tempo de ver o sol se esconder por trás do morro Dois Irmãos. Ainda consigo acompanhar as meninas se despedindo do mar, amarrando cangas na cintura, tirando a areia dos pés daquele jeito que as meninas fazem. Queria escrever, de um jeito simples, aquelas coisas que escrevem os cronistas sobre um dia desses, claro aqui em Copacabana.

Queria escrever, como fazem os cronistas, sobre uma nova paixão, daquelas que nascem sem aviso ou telefonema, brotam prematuras num dia claro desses em Copacabana. Sobre o amor estendendo a mão a quem não acredita, o peito oco e hálito amargo. Sobre o sono diurno, livre e arrebatado das moças que insistem em dormir, mesmo nesse dia claro em Copacabana. Queria escrever uma crônica inteira sobre o encontro diário de dois desesperados, órfãos de filhos natimortos, que se descobrem e enlevam-se como quem precisa. Escrever sobre o amor arrancado a fórceps ou sendo enforcado num crime culposo, até nesse dia claro em Copacabana. Queria escrever outra crônica só sobre esse impulso, tão natural como respirar, que sufoca e desidrata o que hoje nos sopra o ar. Não é que o amor simplesmente acabe, de todas aquelas formas magistralmente escritas por Paulo Mendes Campos. O amor é morto em dias claros como esse. Carrega em si a semente desse assassinato. Às vezes o crime é culposo. Noutras, cheiramos a fumaça que sai do buraco da bala com prazer dissoluto. Mas o normal é que seja morto corriqueiramente, como um tropeço. O fato é que matamos, enforcamos, esquartejamos o amor. Depois, nos resta a biriba, o churrasquinho, a cerveja. E as crianças.

Queria escrever sobre os moleques jogando bola no Posto 2, sobre como um moleque magrelo enfia uma bola no ângulo superior direito e faz as peças do mundo se encaixarem. E a minha morena, nos dias em que está feliz, e eu adoro quando ela está feliz, faz as peças do mundo se encaixarem dentro daquele sorriso enorme que virou uma necessidade. Queria escrever sobre os momentos curtos e poucos que parecem fazer sentido. Isso também daria uma crônica por si só.

Queria escrever minha cota semanal de palavras sobre essas coisas que escrevem os cronistas, mas não consigo. O dia claro, o sol e o mar me surgem como uma embalagem esgarçada para uma realidade áspera, onde as peças não se encaixam, o jogo não faz sentido. Além da generalizada falta de grana, simpatia e sanidade, além da desesperança, desemprego dos amigos, talento desperdiçado em cada esquina, além dessa irritante alienação meta-classe-média, militantes de coisa alguma ruminando doutrinas, velhas mastigando cartelas de bingo em templos de mármore e eucalipto, além de tudo isso, o que me impede de escrever todas essas coisas singelas dos primeiros parágrafos, o que me desperta da claridade desse dia e me emputece definitivamente, é a televisão anunciando mais uma vez a morte do enviado especial da ONU no Iraque, Sérgio Vieira de Mello. Segundo homem na hierarquia das Nações Unidas e figura fundamental na resolução de crises espinhosas em Kosovo e no Timor Leste, Vieira de Mello me pareceu sempre ser um carioca como eu e você, daqueles que encontramos tomando chope numa esquina, sob uma marquise onde os velhos jogam biriba e fritam churrasco como naquele dia claro em Copacabana. Certa vez disse, sobre a reação do povo iraquiano à invasão do seu território, "eu não gostaria de ver tanques estrangeiros em Copacabana".

A estupidez da sua morte é signo desses tempos escrotos, unilateralistas e imperiais. Vivendo nessa fauna de crianças sem comer e adultos mal comidos, eu pergunto ao leitor, já pedindo desculpas pelo mau humor e dizendo que espero que passe e acreditando que vai passar: escrever sobre o quê? Peço que me acordem quando os tanques chegarem.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:52 AM


Segunda-feira, Agosto 25, 2003

I WON'T BACK DOWN

A canção é do Tom Petty, mas ouço a pungente versão do bardo Jonnhy Cash. Faço isso agora, quatro da matina, enquanto tento parir uma crônica.

Tenho até amanhã de manhã pra isso. Enquanto não vem, Mr. Cash me acompanha.

Well I won't back down, no I won't back down
You can stand me up at the gates of hell
But I won't back down

Gonna stand my ground, won't be turned around
And I'll keep this world from draggin' me down
Gonna stand my ground and I won't back down

Hey baby, there ain't no easy way out
Hey I will stand my ground
And I won't back down.

Well I know what's right, I got just one life
In a world that keeps on pushin' me around
But I'll stand my ground and I won't back down


Hey baby there ain't no easy way out
Hey I will stand my ground
And I won't back down
No, I won't back down

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:00 AM

BIG BROTHER

Copacabana será vigiada 24 horas por dia através de câmeras de vídeo

A governadora do Estado do Rio de Janeiro, Rosinha Matheus, inaugurou na última quarta-feira, dia 20 de agosto, um novo sistema de segurança que terá como principais beneficiários os moradores do bairro de Copacabana. Trata-se de um esquema de monitoramento que será realizado através de câmeras de vídeo espalhadas em 20 pontos estratégicos da região. O local escolhido para sediar toda esta parafernália de equipamentos foi o 19º Batalhão de Polícia Militar, também inaugurado no mesmo dia à Rua Figueiredo Magalhães, n.º 550.

Oito dessas câmeras estarão destinadas exclusivamente para cobrir a orla do bairro, cujo funcionamento acontecerá 24 horas por dia. Todas elas já foram distribuídas e instaladas pelas fachadas dos hotéis Leme Palace, Meridien, Lancaster, Trocadero Othon, Califórnia Othon, Rio Othon, Sofitel e Miramar. Tanta precaução não é de se espantar, afinal de contas, Copacabana abriga cerca de 700 mil moradores e recebe uma média de 25 mil turistas por mês.

Doze policiais foram selecionados e serão eles os responsáveis pelo acompanhamento dia e noite das imagens por meio de computadores e um telão, instalados dentro de uma sala do 19º Batalhão. Desta forma, se forem constatados problemas como assaltos, acidentes, identificação de pedestres suspeitos ou mesmo de placas de carros roubados, o operador poderá entrar em contato direto com uma das 24 viaturas disponíveis ou ainda com policiais a pé. O objetivo é tornar a ação policial muito mais eficiente, além de auxiliar na diminuição de crimes no bairro.

E os demais pontos a serem monitorados? Segundo o comandante do quartel, tenente-coronel Dario Cony dos Santos, esta é uma informação sigilosa devido a uma estratégia de segurança. Importante destacar ainda que tais câmeras de fiscalização possuem lentes altamente potentes, capazes de captar desde uma imagem panorâmica da rua até mesmo detalhes dos rostos das pessoas. Sem falar que a central de controle também estará apta a monitorar a localização dos carros da polícia, rastreados via satélite pelo sistema GPS (Global Positioning System).

Todo o trabalho de monitoração eletrônica será também acompanhado pela Secretaria de Segurança Pública, através de uma central que ainda deverá ser instalada em um prédio localizado no centro da cidade. E como todo o cuidado é pouco, com o objetivo de impedir a adulteração das imagens, o sistema não permitirá que sejam feitas edições em cima da gravação. (Fonte: APSA)

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:12 AM


Sexta-feira, Agosto 22, 2003

LIMITE

Concordo com o Pellizzari: é preciso criar um limite artificial e intransponível e ser fiel a ele. No meu caso esse limite me foi criado pelo meu editor - até esse final de semana. Acabei de enviar o livro com as correções e cortes feitos na quinta-feira. Daqui pra frente não tem muito mais o que ver, o texto segue pra preparação e diagramação. Eu faço questão de ler a "última" prova, então o lance tem que rolar rápido se quisermos lançar em setembro/outubro.

Admito ter sido negligente e preguiçoso com esse livro em vários momentos. Fui um procrastinador profissional com o "Corpo Presente". Talvez o problema seja o fato do texto ainda me irritar e enervar em muitos trechos. Não que isso seja propriamente ruim, é só uma relação maluca e extremamente pessoal com o que escrevi.

Sobre o "Corpo Presente", algumas pessoas comentaram sobre o fato do meu editor ter escolhido o título. Não me incomoda porque, além do fato de eu mesmo ter sido incapaz de escolher um bom nome (Carmen sempre foi provisório), esse título não foi uma imposição. Dentre alguns poucos que apareceram, foi o que bateu melhor com o sentido que o livrinho tenta fazer. Topei praticamente na hora.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:11 PM


Quinta-feira, Agosto 21, 2003

RETALHO

Acabei de cortar duas páginas. Estou apagando frases, adjetivos, apostos desnecessários. Cada vez que releio, corto mais uma coisa. Se eu continuasse a revisar o texto por mais tempo, entregaria um livro em branco.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 5:31 PM

UNDER PRESSURE

"Seguinte, brou: teremos este original até o fim de semana? isso precisa entrar em gráfica uuuuuurgente pra preparar e diagramar. pq ainda tem a tua leitura (e a minha) depois. Me diz como estão las cosas?"

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:19 PM


Quarta-feira, Agosto 20, 2003

NOME

O nome do livro é "Corpo Presente".

Por vários motivos. O Paulo deu a idéia baseado no fato do livro inteiro ser narrado no presente do indicativo. Tudo acontece agora. O presente eterno. E, sim, porque sempre existe um corpo presente, presente demais: Carmen. Acho um nome forte, curto. Pode pegar. Gostei porque me remete a idéia de missa de corpo presente. Alguém que está sem estar, a casca enrijecida, oca. E isso tem um sentido pessoal nesse ano perde-ganha de 2003.

E aí, o que acharam?

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:10 AM


Terça-feira, Agosto 19, 2003

FILIGRANAS

Pois é, dei uma sumida do blog. Não fui viver a glória, como já me disseram pelo icq. Muito pelo contrário, ando encalacrado pra caralho (que bonito). Como não quero transformar esse espaço em mais um tijolo nesse enorme muro de lamentações de blogs e sites, resolvi ficar um pouco quieto. A revisão do livro tá indo. Filigranas. Tenho que entregar até amanhã, a editora está pressionando. Será feito.

Fui convidado pra ser cronista na Tribuna da Imprensa. Toda quarta-feira, 600/700 palavras. Taí, do caralho. Vai me obrigar a escrever semanalmente. Só não faço muita idéia sobre o quê. Sempre fico curioso sobre o que vai sair quando começo a escrever e acho que isso é uma das forças que me fazem seguir em frente. É um mistério. Talvez a miopia que tenho sobre a minha própria persona seja um dos combustíveis dessa minha escrita chocra e malcriada.

O livro já tem nome, perguntei ao editor se já posso divulgar aqui. Acho que sim. Estou pensando em abrir um site com o nome do livro, dentro dele um fórum livre pro público discutir o livro.

Alguém aí já matou uma aranha e chorou de remorso?

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 6:48 PM


Segunda-feira, Agosto 11, 2003

EFEITO ORLOFF

Um morcego acabou de bater a cabeça contra a janela.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:36 AM

DISSOLUÇÃO

Revendo as revisões do livro feitas pelo meu editor. As páginas são pegajosas, é o inferno em times new roman, tamanho doze, espaçamento duplo. Tenho que terminar a revisão do romance e um conto que preciso escrever sobre SEXO pra uma coletânea que vai sair pela Planeta no final do ano. Além disso, preciso arrumar um emprego ou algum dinheiro pra me mudar desse apartamento. Tenho uns quinze dias pra fazer isso tudo.

Ontem tive quatro horas de sono. Hoje comi as dez da manhã e fiquei quinze horas em jejum - quebrei agora pouco com um sanduíche de presunto. Por que faço isso? Não sei. Talvez porque mereça. Ou porque alguém mereça.

Nuca leve e a cabeça pesada, sem muito pensar. A raiva vem em ondas, aos poucos e crescendo.

Se eu continuar falando assim, logo entra alguém com uma camisa de força nesse quarto.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:22 AM


Domingo, Agosto 10, 2003

COMPRE

Parati para mim está sendo vendido nas melhores casas e sites do ramo. Uma boa pedida é o submarino, que está oferecendo desconto. O que você está fazendo parado, dando bobeira e marcando touca? Largue essa vida modorrenta e aponte longo essa seta pra .

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:11 PM


Sexta-feira, Agosto 08, 2003

LANÇAMENTO

O lançamento do Parati foi ótimo. Grandes presenças, grandes amigos. Alguns momentos surreais, os fotógrafos chatíssimos caçando momentos, aves de rapina do instantâneo, mercenários da lembrança (oh!), e todas aquelas pessoas pertencentes a diferentes planetas no mesmo ambiente, cerveja, cerveja - alguns autógrafos. Agradeço aqui ao carinho de quem foi. A quem não foi, peço que debelem tão grave e profunda ferida no lançamento do meu livro "solo" que vai rolar mui provavelmente em setembro.

Abaixo seguem algumas fotos da pausa para o lanchinho, tiradas pelo excelentíssimo amigo Joca Vidal.







posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:55 PM

HIATO

Percebam os senhores que há um hiato neste blog: a estrelar FLIP. Estou organizando minha cabeça e vou, assim que puder, terminar e publicar o relato sobre a festa.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:52 PM

RESENHA NO JB

O livrinho de Parati foi bem resenhado pela Beatriz Rezende. Leia aqui.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:51 PM


Quinta-feira, Agosto 07, 2003

URGENTE

HOJE na casa da matriz comemoração do meu aniversário e lançamento do Parati para mim e da revista Ácaro #2, as duas publicações com contos meus. Espero todos vocês lá:

Lançamento do livro "Parati para mim", de Chico Mattoso, João Paulo
Cuenca e Santiago Nazarian

E do segundo número da revista "Ácaro" - literatura e outras mumunhas.

Dia 07 de agosto - quinta-feira - a partir das 20h

Casa da Matriz - Rua Henrique de Novaes 107 - Botafogo - RJ - Tel
2266-1014.

Informações:assessoria@casadamatriz.com.br

Atenção: das 20h às 23h30 a entrada é franca. Para permanecer na
festa, será oferecido o ingresso promocional de R$ 6 por pessoa.


Não tenho tido tempo pra postar nada aqui. Estou preparando um texto grande sobre a Flip - se eu não conseguir vendê-lo pra pagar o aluguel, publico no blog. Virei uma puta das letras.

Ontem discuti com meu editor alguns detalhes do livro. Foi tudo certo, ele disse mais ou menos o que eu esperava ouvir, canetou o que era pra ser canetado e me ajudou a manter um tom coerente no livro todo. Estou com a coisa rabiscada, vou passar as mudanças pro computador e enviar. Depois ele confere, o texto vai pra preparação e eu reviso a prova final. Reta final. Ficamos conversando sobre a capa. Algumas referências, Fracis Bacon e Bispo do Rosário.

Já volto.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 11:49 AM
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João Paulo Cuenca/Male/21-25. Lives in Brazil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro/Copacabana, speaks Portuguese and English. Spends 60% of daytime online. Uses a Fast (128k-512k) connection. And likes Música/Cinema.
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