Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Quarta-feira, Julho 30, 2003
NO MOMENTO
Já estou em Parati, acompanhado por Chico e Santiago, desfrutando a linda paisagem, comida de graça e hospedagem classe A.
Acertei com o meu editor de revisarmos juntos o "manuscrito" do meu livro assim que acabar a Flip. Alguns comentários foram feitos e concordo com o fato do meu texto ser palavroso demais em vários momentos. Mas nem tanto.
Hoje acordamos e rolou matéria pro Jornal Hoje da TV Globo. Deve passar amanhã de tarde. Protejam as crianças.
Ontem saiu uma matéria muito boa no Megazine do jornal O Globo feita pelo Mauro Ventura. Quem quiser ler, aqui.
Peço desculpas pelo estilo telegráfico, mas estou num cyber e, vocês sabem, não existe poesia num cyber.
Prevejo dias de destruição em Parati. Sob os cuidados de São Plasil, Engov e Santa Neosaldina. Amém.
Na última quinta-feira, mesmo febril e com uma dor de garganta mal curada (ainda), fui ao Jobi com meu editor e bebemos algumas horas falando do livro. Aparentemente bem aceito, progressos desde janeiro. Algumas observações pertinentes, outras que não concordo, mas nenhum motivo pra porrada. A boa notícia é que acho que temos um nome, forte e intimamente ligado a todas as linhas. E, fundamental, relacionado também ao que não está escrito.
O livro "Parati para mim" já está aqui. É lindo, belamente encadernado e editado. Fiquei orgulhoso. É estranho ler o texto assim, impresso num livro. A sensação é de estar andando sobre a própria cova. Nessa estranha nostalgia, lendo meu texto, me sinto morto.
Sábado fui ao jornaleiro e me encontrei em três veículos da "grande imprensa". O livro de Parati foi alvo de uma resenha muito boa no Prosa e Verso do Globo. No Idéias do JB, uma foto dos três. E na revista Istoé Gente uma foto minha pavorosa, nunca mais dou um sorriso pra um fotógrafo. Mas a matéria foi legal e deu espaço a novos autores (eu, Mojo, Galera e Daniela Abade) num espaço que normalmente não deve prestar muita atenção nisso - é uma revista de colunismo social.
A Flip se tornou algo como o rock`n rio dos livros e começo a ficar assustado quando leio que "a maior parte das 6.000 vagas de pousadas e hotéis de Paraty já está ocupada".
filtro
[Do b.-lat. filtru, 'feltro', pelo fr. filtre.]
S. m.
1. Qualquer peça de material poroso (como papel, cerâmica, etc.) ou com pequenos orifícios, através da qual se faz passar líquido, ou gás, para que sejam retiradas partículas sólidas que neste estejam dispersas.
2. Utensílio que purifica água fazendo-a passar por uma peça, ger. cilíndrica, de cerâmica porosa, denominada vela.
3. Pequena porção de substância porosa na extremidade de certos cigarros e que serve para reter parte da nicotina e do alcatrão da fumaça.
4. Peça de papel, ger. cônica ou circular, para reter o resíduo sólido de uma infusão, como a do café.
5. Tela feita de fibras sintéticas, colocada na entrada dos condicionadores de ar.
Hoje sonhei e os sonhos vieram parar no meu nariz. Acordou entupido de sangue.
Não chegamos em agosto, mas já faço um balanço desse ano.
Minha impressão é que está servindo como um grande filtro. De pessoas e atitudes, principalmente.
Esse livro será uma tela fechada, daquelas que guardam até as menores sujeiras.
Não sobra muita coisa. Que fique o fundamental. Estou forte e só.
E a dona das sete vidas, se continuar a me dar a mão, terá não menos do que tudo.
Ah, a feira zunindo na rua, os quixotismos dessa manhã luminosa!
Quando saio à noite, vou plastificado desse mundo. Os pensamentos encapuzados, exclusivamente solitários. Quem passa por mim desiste de esbarrar, passa através. Com o humor, vai-se algum peso. Sempre a mesma gente de atitudes ensaiadas. Saco cheio desse lugar comum. Meta-saco-cheio. Ensaio discursos velhacos pra mim mesmo, vou mastigando as palavras, encaro o computador absorto. Letargia vespertina no Lido. A garganta dói.
Enviei uma versão preliminar do livro ao capista. Será o multitalentoso Joca Terron - além de escritor, ainda é editor e artista gráfico. Joca, autor do excelente "Não há nada lá" editado pela sua Ciência do Acidente (que também publica o Glauco Mattoso, entre outros), vai lançar seu próximo livro pela portoalegrense Livros do Mal, "Hotel Hell". O bonito disso tudo é que Joca provavelmente irá fazer um lançamento em Paraty, junto com o Mojo, expoente da editora gaúcha. Vai ser ótimo encontrar esse pessoal em Paraty.
E no dia quatro de agosto, meu aniversário (presentes serão aceitos na C/C 81450 AG 3519-X Banco do Brasil, porque, amigos, tá foda a cousa), o Eduf lançará seu ótimo romance de estréia "Prazer de Decepcionar" aqui no Rio, na Berinjela, à noite. Estaremos todos lá.
Prevejo esse início de agosto com alguma bebedeira e boa companhia. A Flip ganhou uma projeção de assustar. Matérias pipocando em jornais e revistas. Em breve alguma coisa na TV também, os holofotes e câmeras apontadas, máquinas de fazer babaca. E Chico, Santiago e eu desfrutando essa minicelebridade invernal - com certeza, absolutíssima, não vai prestar.
Cecília Giannetti, talentosa amiga de infância, me envia trechos espetaculares do livro que está escrevendo e aproveita pra articular um festival paralelo a Flip, o FLIDO. Aqui, faço-o público.
Cecília diz:
Como você já sabe, eu e mais uma penca de coleguinhas não vamos ao FLIP por razões de força econômica.
Mas não desanimamos. Não, jamais. decidimos organizar o FLIDO: Festival de Escritores Falidos. O evento deverá ocorrer no El Cid, afamado bar da Prado Júnior, depois do FLIP.
E vai sair baratinho, preço de uns chopes. Presenças garantidas: escritores do Lido e adjacências que requentam resto de miojo do almoço na janta e aqueles que preferem sopas Maggy (queijo, brócoli, etc.), além de dois jovens beletristas de SP que pretendem se hospedar em Copa pra dar o confere na área.
Os ingressos do FLIDO não se esgotarão, nem será necessário fazer reservas nos moteizinhos da vizinhança, a menos que nasçam simpatias mais profundas entre os participantes do evento. Amanhecerão todos no bar reclamando da vida, sem eira nem beira, como compete à desqualificada classe dos escribas financeiramente desfavorecidos. Aguardem notícias sobre datas oficiais. Ou simplesmente se juntem lá a nós qualquer dia desses.
Es el amor, tendré que ocultarme o huir. Crecen los muros de su cárcel, como un sueño atroz.
La hermosa máscara ha cambiado, pero como siempre es la única ¿de qué me servirán mis talismanes; el ejercicio de las letras, la vaga erudición, el aprendizaje de las palabras que usó al áspero norte para cantar sus mares y sus espadas, la serena amistad, las galerías de la biblioteca, las cosas comunes, los hábitos, el joven amor de mi madre, la sombra militar de mis muertos, la noche intemporal, el sabor del sueño?.
Estar contigo o no estar contigo es la medida de mi tiempo. Ya el cántaro se quiebra sobre la fuente, ya el hombre se levanta a la voz del ave, ya se han oscurecido los que me miran por las ventanas, pero la sombra no me ha traidor la paz.
Es, ya lo sé, el amor; la ansiedad y el alivio de oír tu voz, la espera y la memoria, el horror de vivir en lo sucesivo. Es el amor con su mitología, con sus pequeñas magias inútiles.
Hay una esquina por la que no me atrevo a pasar. Ya los ejércitos se cercan, las hordas (esta habitación es irreal; ella no la ha visto). El nombre de una mujer me delata. Me duele una mujer en todo el cuerpo.
Mandei os originais revistos e com acréscimos na sexta-feira passada ao meu editor. Até agora silêncio ronda nossa correspondência. Como se sobre minha cabeça pairasse um enorme telefone fora do gancho. Enquanto fico esperando uma palavra do meu editor, libero o material para três ou quatro almas. Esses poucos soltam coisas como "imbatível", "excelente" ou "desnecessário" e "inutilmente corajoso". Tenho a consciência estranhamente tranqüila, sei que o escrevi sem objetivar nada. As reações serão genuínas, viciadas ou não, mas nunca induzidas. Pode parecer anormal, mas mesmo que o detestem, não me sentirei frustrado. Não escrevi para que gostassem.
Fora isso, nesses dias invernais, me descubro muito mais conservador do que imaginava.
Nessa semana recebi de uma amiga do colégio a cópia de um bilhete que escrevi a tenros dez anos atrás, com quatorze anos de idade. Na aula de laboratório. Não me lembrava disso de forma alguma - minhas lembranças de escola são completamente nebulosas. Creio que esse bilhete prova, entre outras coisas, que sempre fui um babaca. É só notar os termos utilizados, "situação de embaraço", "epístola" e a forma absolutamente pedante com a qual assino a carta. Agradeço a colega de sala Marina dos Anjos por me ajudar a avançar um pouco na minha arqueologia pessoal.
A Festa Literária Internacional de Parati recebe, do dia 31 deste mês até 3 de agosto, Eric Hobsbawm, Ana Maria Machado, Milton Hatoum, Chico Mattoso, João Paulo Cuenca, Santiago Nazarian, Luiz Ruffato, Tabajara Ruas, Julian Barnes, Hanif Kureishi, Zuenir Ventura, Adriana Falcão, Joaquim Ferreira dos Santos, Ferreira Gullar, Jurandir Freire Costa, Drauzio Varella, Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, Ruy Castro, Daniel Mason, Bernardo Carvalho, Marçal Aquino, Patrícia Melo, Don DeLillo e Eduardo Bueno.
Meu editor está cobrando os originais do livro com as revisões e acréscimos que fiz depois que ele leu a coisa em janeiro. A verdade é que quando eu tenho que abrir o arquivo de Word, enrolo por horas. Boto um cd pra ouvir, converso com amigos pelo icq, fico navegando sem sentido pela internet. Levanto daqui, deito na cama, ligo a tv, desligo, aumento o som, pego o violão, vou pra janela ver as outras janelas, imaginar as outras janelas fora desse computador. Ou então saio, me perco disso tudo.
O fato é que tenho medo. Ler meu livro me desagrada, entro em mil questionamentos por minuto, não me reconheço. Travo um embate silencioso com meu texto, como se estivesse encarando uma outra versão minha. É outro sujeito, esse.
Não o farei, mas queria escrever com calma sobre minha performance como "palestrante" convidado na Escola de Comunicação da UFRJ. Filmado e com microfone de lapela, respondi algumas perguntas sobre literatura - como se eu pudesse. Mas foi divertido.
Queria também escrever sobre as músicas que tenho escutado nos finalmentes do livro. Minha relação com música é obsessiva e posso passar uma semana inteira ouvindo uma só música ou disco. Ultimamente, são três eleitos: "Hail to the thief" (Radiohead), "O" (Damien Rice) e uma canção do disco novo do DJ Shadow chamada "Blood on the motorway". Em Paraty, overdose de Chico Buarque, agora estou dando um tempo de música brasileira pra escrever.
...
Querendo ficar limpo, daqui pra frente.
...
Li numa entrevista com o irlandês Damien Rice. Faz sentido:
Q: What is your ultimate dream?
A: To be able to be happy without having to write songs, to release my unhappiness.
Hoje saiu na Folha de São Paulo uma matéria sobre o trabalho em Paraty e, por coincidência, no mesmo dia recebi o comentário mais amistoso da história desse blog.
Fiquei tão satisfeito com a raiva que despertei nesse sujeito que resolvi postar seu comentário. A única observação que faço é que "Carmen" é o título provisório do meu livro, como está escrito no cabeçalho dessa página. Ou seja, o nome do livro não será "Carmen". Carmen é o nome da protagonista, por antonomásia ou não, mas não será o nome do livro.
(Ah, também achei maldade sacanear o nome do Chico que não tem nada a ver com a história. Ia ser mais fácil fazer isso com o meu nome: Cuenca se presta a várias galhofas muito mais divertidas.)
Mesmo também achando meus poeminhas ruins de doer, eu ficaria ofendido com o texto abaixo. Mas a frase "aposto que vc é incapaz de conceber uma rima rara" me deu a certeza do quilate do autor do comentário. Boa sorte para todos nós.
"Bem, só o que salva desse seu "trabalho" é a citação do Graciliano Ramos. E a tua autocrítica também:chamar essas merdas calcadas na poesia marginal setentista de poemas é brincadeira, de fato sao a baranga da bagaça do esmegma. Aposto que vc é incapaz de conceber uma rima rara. Quanto à CARMEN, começa mal, já tem um livro famoso com mesmo título, do Prosper Merimée, sem falar da ópera. Ou seja, criatividade zero, o máximo que te ocorre pra conceber uma femme fatale é chupar a femme fatale por antonomásia de um francês do século XIX. Tsc, tsc. Ah, o JP também é extremamente ridículo, com razao vc sente vergonha do seu nome bíblico, Joao, José, essas merdas, sinal de um entorno familiar católico onde o contato com a leitura e as artes em geral foi desprezível. E além do mais foi preciso que o outro boçal de intelecto "comattoso" te mandasse a etimología do seu próprio nome, puta merda, tio, vc vai fazer 30 anos e jamais te ocorreu investigar a palavra que te define, que cazzo de escritor é esse, meu deus?"