Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Quinta-feira, Junho 26, 2003
ORDEM
A dificuldade no momento é colocar os fragmentos em ordem. Conversando com meu editor, encontrei eco em algo que já vinha rondando meus pensamentos. Preciso de uma regra, qualquer uma, pra fazer isso. Algo bastante arbitrário e simples.
Ontem, almoçando com meu pai num galeto aqui perto, tive uma idéia. Uma regrinha que vai explicitar as elipses do livro e deixar claro que estou ignorando certos limites. Os nossos dias já são amarrados demais uns nos outros. Mas no meu livro, quem cria as regras sou eu. Vou abandonando leis físicas e naturais. Qual a graça de escrever se você ficar seguindo regras? Crie as suas. Aos poucos, vou tendo mais idéias sobre isso e anotando, anotando. Claro que subverter a narrativa simplesmente por exercício pode ser interessante, mas fica claro pra mim que não é esse meu objetivo - um exercício.
O mundo seria um lugar melhor se as pessoas percebessem que a realidade não é nada além da SUA versão particular dos fatos.
"Somos uns animais diferentes dos outros, provavelmente inferiores aos outros, duma sensibilidade excessiva, duma vaidade imensa que nos afasta dos que não são doentes como nós. Mesmo os que são doentes, os degenerados que escrevem história fiada, nem sempre nos inspiram simpatia: é necessário que a doença que nos ataca atinja outros com igual intensidade para que vejamos nele um irmão e lhe mostremos as nossas chagas, isto é, os nossos manuscritos, as nossas misérias, que publicamos cauterizadas, alteradas em conformidade com a técnica."
É que hoje eu acordei antes do meio-dia e escrevi uns poeminhas de péssimo gosto, bagaceiríssimos.
Como eu não tenho absolutamente nenhuma vergonha na cara, compartilho com os senhores.
1.
sentado no ônibus
na última janela
do lado direito
a gente na rua
virando mancha
e eu percebi
que nem se
quisesse
conseguiria
lembrar da sua
voz dizendo
no meu ouvido
(quando eu tentei
parecia entupido)
2.
têm vezes
que eu não preciso
de uma canção
ou uma calcinha
pra lembrar de você
têm vezes
que é só
o sol batendo
na calçada
3.
já eram umas quatro da manhã
na porta do fornalha
os mendigos insones
(surgem como plantas
no chão de pedra portuguesa)
um táxi parado na esquina
e a ambulância pinta vermelho
dentro dos seus olhos
já eram umas quatro
comemos folheado de queijo
na porta do fornalha
quando você me abraçou
e disse baixinho
"eu te amo"
então virou de costas
sem esperar, correu louca
virou uma esquina
e eu, sobre meus pés,
chorei como uma menina
porque não imaginava
que iria ouvir
ou dizer
isso outra vez.
4.
meus amigos
que perdoem
essa ausência
e a falsa indiferença
era desespero
e uma vontade de mandar
vocês todos à merda
simplesmente pelo fato
de me conhecerem
5.
todo mundo tem caspa.
ah, bom. agora eu posso
me sentir muito melhor.
6.
odeio você
monossilábico
prefiro você
bêbado e falante
enchendo o saco
do povo no bar
falando besteira
contando
seus sonhos
e respondendo
as perguntas
intermináveis
que faço sobre
a minha vida
7.
você gostou
dos meus poemas?
horríveis.
porra, assim você
me magoa.
cara, mas quem disse
que poema
tem que ser bom?
cuenca. (del lat. concha.) f. Hortera o escudilla de madera, que suelen traer algunos peregrinos, los mendigos y otras personas. 2. Cavidad en que está cada uno de los ojos. 3. Territorio rodeado de alturas. 4. Territorio cuyas aguas afluyen todas a un mismo rio, lago o mar. 5. ant. pila, rimero, montón.
Acho que os dezesseis dias em Paraty me deram algum fôlego pra entrar nos finalmentes dos retoques e detalhes de Carmen. Sinceramente? Saudade de certas pessoas (em número cada vez menor), mas ando cheio de Copacabana. Ganhou um cheiro de arroto no ar. Vou ver se encontro diferente.
Agora agora estou revisando o texto de Paraty, cheguei a trinta e oito mil toques e deve aumentar um pouco. É um conto grande ditado por um narrador cheio de manias, pensamentos erráticos, objetivos escusos, egoístas, um sujeito fodido que chega a meia-idade (não especificada no conto, mas pensei em uns quarenta/cinqüenta anos) sem esperança de porra nenhuma, apenas buscando explicações pro que viveu e lhe escapou dos planos.
E decidi: na próxima coisa que resolver escrever em primeiríssima pessoa, serei mulher.
Muito tenho o que dizer sobre a experiência de passar duas semanas enfurnado em mim mesmo, os olhos virados pra dentro, a cabeça fritando longas páginas em branco. Nos intervalos, madrugadas de caminhadas pelas ruas de pedra, grandes papos, novas amizades, muita cerveja etc, alguma estranheza, uma visita belíssima, passeios pela praia, barco e cachoeira. Quase morri duas vezes.
Paraty se despede de mim com esse céu estrelado e claro, eu tenho uma caralhada de coisas pra dizer mas estou esgotado, a prosa seca - os adjetivos, foram-se todos.
Trouxe o Carmen pra brincar e não deu tempo. Ficou pra semana.
Quarta, volto ao Camboja. Ah, meus amigos!, minha família!, minha mulher!, o sorriso quente de quem te entende bem!
Essas são fotos de algumas das nossas instalações em Paraty - não estou de sacanagem.
O cara que aparece em algumas das fotos é o Chico Mattoso, colega de letras e pirações em Paraty. Além dele, estou aqui com o genial Santiago Nazarian, que não apareceu nas fotos por estar circulando pelado no sobrado dos artistas.
O texto, vai pela metade. Estou curioso pra ver no que vai dar, aproveitando o processo.