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Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Sexta-feira, Maio 30, 2003

MEDO E DELÍRIO

aos leitores dessa joça
digo que parto nos próximos dias
rumo a pequena cidade litorânea
onde ficarei duas semanas

vou de patrão, hotel e boa comida
café da manhã, drinks na varanda
lençóis trocados, cama bem macia

e ainda ganho algum
pra escrever

QUARENTA MIL TOQUES EM VINTE DIAS

só o som disso me deixa em pânico
estou com medo de encher a cara
fumar muito, e a bicileta e o monet
torrar de sol, conhecer gente estranha
andar pelas ruas de pedra
o sol se abrindo entre as casas
velhas, nuas, desbotadas
passear de barco
e ver as meninas
durante todos esses dias
e não conseguir escrever
nem um nem dois
ou ao menos dez de
todos esses
toques

mas shhhhhh!
isso é segredo
e o meu editor
não pode saber

ps.: vou tentar atualizar isso aqui com fotos constrangedoras, na medida do possível.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 6:49 PM


Segunda-feira, Maio 26, 2003

PASSADOS

O livro é todo narrado no presente do indicativo.

Mas hoje resgatei um texto velho, escrito em tempo passado. Carmen tinha outro nome. É tão distante que parece outra vida. E agora tenho que passar o passado pro presente - quando ele não existe mais.

O tipo de coisa que me dá vontade de dar um nó no saco.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:36 PM

LIXEIRO

Roubei essa citação do genial blog da ciça.

"Escrever é renunciar - o diabo dessa vida é que entre cem caminhos, temos que escolher apenas um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove. Pois bem: a literatura é como se você tivesse de renunciar a todos os cem... Parece muito evangélico: aquele que perder sua vida a salvará. Mas às avessas, procurar Deus onde ele não se encontra. a atividade literária é exatamente isso. Não se deter diante de nada, não respeitar nada. Valerá a pena? Os que têm nojo fracassam. Que se faria do lixo, se ninguém quisesse ser lixeiro?"

Fernando Sabino, Encontro Marcado


Ler esse tipo de coisa aumenta o estranhamento desse dia claro, céu azul, ar frio - mar e sonhos agitados.

O agnosticismo religioso que é escrever, um ato de fé. Mas fé em quem?

Procurar essa virgem santa, dourada, redentora. Ela não existe - é um alvo móvel.

Hoje faço o seguinte. Compro fichas na papelaria, umas 100. Pra cada fragmento do livro, faço uma ficha, com um número, nome, o início e o final da "cena", por assim dizer. Depois organizo a ordem dessa porra toda. O livro é cheio de elipses, mas tem que ter ritmo. Sem ritmo, não dá.

Faço isso na praia, vendo as ondas quebrando, sentado numa cadeira. Sou um velho de pulôver.

A solidão dessas páginas em branco abre os olhos pra outro tipo de solidão, mais absoluta e urgente - a que temos que vivenciar desde que nascemos até o breve dia da nossa morte. O resto é ilusão, engodo, efemeridade.

"Os que têm nojo, fracassam".

O principal problema de quem escreve é se enxergar demais.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:55 PM


Sábado, Maio 24, 2003

LITERAL

Está na capa do Portal Literal chamada para a matéria que escrevi sobre "Dedo-duro", livro de João Antônio relançado pela Cosac & Naify.

O link direto é esse.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:15 PM


Sexta-feira, Maio 23, 2003

QUASE QUATRO

Alberto, rotundo. A voz grave estapeia as paredes.

João-Paulo-Cuenca... Grandes merdas!

Essa babaquice de livro. Livro-livrinho... Viadagem!

Garrancho ordinário. Enfia, porra!

Olha a noite nascer. E o sorriso da moça, ali - toda ela.

Corre desse circo sem lona.

Passa essa lida sem riso

E diz aí o que é melhor!

Ser um cara normal e feliz

ou um desgarrado fodido

que escreve um bom livro

pra entreter o benedito?

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:59 AM


Quarta-feira, Maio 21, 2003

PLANTÃO

"Mas você me sorri, mulher, e a vida vive."

João Antônio

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:40 AM

ETERNIDADES



Alberto brinda com um bordão:

Às mulheres! Essas pequenas eternidades....

Engulo o gim num gole amargo. O efeito do álcool subindo pelas costas é a melhor sensação do dia. Lembra Carmen dançando nua em casa.

Porra! Quando eu era moleque e ficava assim, sabe o que eu fazia? Eu ia dormir e ficava imaginando as mulheres que eu ainda iria amar. Porque todas elas estão aí, flutuando sobre nossas cabeças, andando pelas ruas, respirando esse mesmo ar, sob esse mesmo céu. Todas estão acordadas agora, porra! Você entende? Elas já existem. Entende que já está acontecendo? Suas brigas de ciúmes, o passado que um dia vai te atormentar... Está acontecendo agora. Exatamente agora, enquanto estamos bebendo aqui nessa merda. Você já parou pra pensar que o seu passado no futuro é hoje? Elas já nasceram. Já estão por aí, manchando calcinhas. E você vai amar cada uma delas. Vai amar como um filho da puta, até se esquecer desse dia, se esquecer dessa Carmen, de esquecer dessa crioula peituda, se esquecer do seu amigo aqui. Você vai beijar com devoção a boca que hoje lambe o saco de um imbecil, vai enfiar a língua no rabo que está cuspindo merda agora, nesse momento. Tudo está acontecendo agora, porra! Essa merda é um presente eterno, você percebe que não faz diferença? A eternidade é agora. Se agarra nelas, animal! Mas se agarra nas vagabundas que você ainda não conhece. Quanta boceta ainda tem nesse mundo pra você cheirar?

Quando Alberto começa a falar sobre o que devo pensar, levanto, esbarro em cadeiras, nos suecos, os peitos, passo pelo desenhista rabiscando um retrato, no fotógrafo com automática e o mulato da Freguesia que sabe falar sueco, me equilibro até o banheiro apertado e imundo do bar. O bauru desce inteiro entre meus dentes.

Carmem sempre disse pra eu não comer ovo frito.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:36 AM

VODKA POLANSKI

Foi então que Carmen tombou e abriu o supercílio ao lado da cama.

Pingando pelo chão, o rosto vermelho - depois foram sete pontos.

Chorou a maquiagem e contou segredos, esquecida de si.

Entre soluços, desmaiou. Acorda sorrindo.

Pra cada ponto, dei-lhe uma vida.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:23 AM


Segunda-feira, Maio 19, 2003

LIVRE

No fundo eu gostaria que as minhas palavras voassem pela praia de Copacabana, soltas num longo plano-sequência.

Sem grua, câmera ou autor.

Só as palavras. Desatadas.



(Vista da cobertura do Othon com a câmera da Patricia em out/2002 - não me lembro qual dos dois bateu a foto)

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:23 AM


Domingo, Maio 18, 2003

MOMENTO "CARAS"

Para agradar aos curiosos e preservar essas pequenas eternidades na minha memória pessoal, vou postar fotos da festinha da Planeta na quinta - infelizmente não poderei mostrar todas devido ao forte conteúdo erótico presente em alguns dos indiscretos cliques do senhor Fred Leal.

Ninguém sóbrio, é claro.

Aliás, longe disso.



Ciça se escondendo do paparazzi, Paulo Pires, Kamille e eu



Andréia, eu (saindo mal em todas as fotos), Mila e Tati



Andréia, eu e Kamille



Alex Antunes, eu (na mão no palhaço) e Fred Leal



Vista de Copacabana depois de uma noite de trago

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 5:15 PM


Sexta-feira, Maio 16, 2003

ECLIPSE

Sob enorme lua eclipsada e à beira de estrelado céu refletido no mar do Posto 6, a festa da Editora no Clube Marimbás foi uma BELEZA. Revi pessoas que há muito não encontrava. Enchi a cara cercado por amigos e por companhia mais do que especial. Posei para foto histórica junto com editores e outros autores. E conheci alguns dos espanhóis que estão bancando essa ousadia. Só não deu pra fumar o tchose planejado dentro da festa - a proximidade dos milicos assustou as meninas (o Marimbás é um clube militar).

E, novidade, meu editor disse que o livro deve sair em setembro, antes do que eu imaginava. Enquanto isso, vou revisando e metendo umas coisas no meio - ontem escrevi mais duas páginas. Preciso de uma data limite. Se não houver, fico mascando essas palavras até o último dos meus dias.

Enfim. Se todas as noites fossem agradáveis e iluminadas como ontem, eu não teria porque escrever.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 9:30 PM


Quinta-feira, Maio 15, 2003

BOCA-LIVRE

Amanhã acontecerá no Clube Marimbás, no Posto 6, COPA, um luxuoso rega-bofe da Editora Planeta.

Acontecerá o de praxe: uma grande sessão de trago. Tomara que eu não passe vergonha na frente da chefia. Vou como um cachorro feliz. Bem acompanhado.

Depois conto como foi.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:49 AM

LANÇAMENTO

Uma das coisas mais bacanas que fiz em SP foi ir ao lançamento do livro do EDUF.

O livro é ótimo. Ágil, esperto, vivo. Lindamente editado pela Ciência do Acidente. Para entrar melhor no clima, comecei a ler na Av. Paulista, quando ia para a rodoviária.

Impressionei-me com a semelhança no temperamento de algumas letras do livro e certas coisas que estou escrevendo.

Esses tempos estranhos impõem certas coisas, a todos nós.

Mais sobre o livro AQUI.

COMPREM.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:41 AM


Sexta-feira, Maio 09, 2003

SÃO PAULO

Em sete horas pego a estrada para São Paulo onde tocarei com o Netunos. Além disso, aproveito pra tomar uns chopes com colegas de escrita e viver algumas coisas que sua cidade oferece - e que por essas bandas não existem.

(Volto terça. Se alguém quiser me oferecer uma refeição em terras paulistanas, aceito de bom grado. É só mandar mensagem pro email ao lado. Falo sério - a grana é curta e a carne, fraquíssima.)

Há alguns meses, publiquei um texto sobre SP na Fraude. As reações foram diversas. Algumas meninas mandaram email, elogiando. Uma foi às lágrimas, emocionada. Já um amigo, esse me esculachou. Botou meu talento na berlinda. É um puto, mas o admiro toda vida. Enfim, hoje eu mesmo não gosto muito do texto, mas diz um pouco sobre o que sinto sobre SP.

São Paulo não tem horizonte
Crônicas de um carioca em São Paulo (parte 1) - por JP Cuenca


Com licença, por um acaso o senhor não se incomodaria em beber lá em cima, no bar? Eu peço desculpas, mas infelizmente o senhor não pode circular na feira com a lata. Eu posso lhe acompanhar ao bar, caso necessário. Infelizmente são ordens, eu preciso cumpri-las. O senhor...

Por trás de um terno preto engomado, cinqüenta dedos e rádio em punho, o segurança da feira de livros estabelece o meu primeiro contato com a cidade. Vejo o excessivo formalismo que permeia tudo em São Paulo como uma tentativa cega de manter um certo tipo de ordem, seja ela urbana ou mental. Não deve ser fácil. A concentração de gente, ruas e prédios é desalentadora. Para quem está acostumado em acordar e olhar a praia de Copacabana pela janela, é um deserto cruel. Os olhos pedem uma fuga qualquer, não há. Numa sexta-feira à noite, a estação do metrô lotada, o povo corre para todos os lados, vagões cheios, conexões e escadas carregando um fluxo contínuo de carne humana, mas tudo ocorre sob um quase-silêncio que se espalha sobre os ombros baixos e encolhidos de toda a gente. Os corpos se espremem, curvados sob a pressão um céu fechado, baixo, opressivamente calorento. É de meter medo.

Andando a pé, traçando uma linha reta em qualquer direção, fico imaginando quantos dias se levaria pra chegar em algum horizonte perfeito, que cortasse o céu em duas partes exatamente iguais. A impressão é que não há horizonte possível em São Paulo. Apesar de tantas linhas retas, não há simetria, as perpendiculares são oblíquas, cicatrizes sinuosas riscadas por um cirurgião extravagante. O andarilho se perde, enlouquece sem direção enquanto os prédios se atropelam.

Sob tamanha falta de espaços, talvez você se encontre como quem mete a mão nas próprias vísceras, descobrindo unhas sujas de sangue e lama entre o asfalto de ruas intermináveis, esqueletos de concreto, hieróglifos pichados em muros sob o relinchar de helicópteros, carros de luxo e lotações apinhadas. Na falta de contato visual dentro do ônibus, em filas, museus, centros culturais, palácios, modernices, nos rostos tristes de gente de preto, punks, góticos, engravatados, retirantes, pobres, mulambos e na infinidade de japoneses que surge de todos os lugares, como pombas brancas e caladas.

Caminho pelo centro velho de São Paulo, alienígena de mim mesmo, e sinto toda aquela gente, som e concreto como uma capa de gordura que me separa do fundamental, do toque gelado e viscoso da terra, real.

Mas e se a realidade estiver nessas pessoas, nessas retas erradas, nesses carros que circulam como moscas, os pneus mascando asfalto, cuspindo poluição? E se a realidade for a lua ocre, apagada, o céu curto, a turba solitária e infeliz? Se isso tudo é real, o que então me afasta da realidade?

Em São Paulo, eu me sinto como uma mentira. Lá, não existo.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:27 AM


Quarta-feira, Maio 07, 2003

"DEEP THOUGHTS"

Normalmente escrevo de madrugada. Com o icq ligado. Às vezes acontece de pedir a opinião de uma amiga ou outra sobre algum trecho:

JP (2:57 AM) :
o q você acha desse parágrafo? não tem uma coisa meio pretensiosamente filosófica e boba aí?

Emma Bovary (2:59 AM) :
hm, você me mandou esse trecho, não sei se já tava assim, mas mandou.
tá legal...

JP (2:59 AM) :
dei uma mudada..
caralho, cada vez q eu releio, reescrevo tudo. é loucura.

Emma Bovary (3:00 AM) :
é, eu sei como é
isso é autocrítica...

JP (3:00 AM) :
obsessão.

Emma Bovary (3:00 AM) :
e também mudança de humor, insegurança...

JP (3:00 AM) :
paranóia...
JP (3:01 AM) :
imagina eu relendo essa merda publicada e rabiscando tudo? é enlouquecedor.

Emma Bovary (3:02 AM) :
hahah
Emma Bovary (3:02 AM) :
tipo dalton trevisan
Emma Bovary (3:02 AM) :
lança mil edições revistas
Emma Bovary (3:02 AM) :
cada vez corta mais

JP (3:02 AM) :
como diria graciliano ramos.. se continuasse revisando o vidas secas, ia acabar lançando uma edição em branco.

Emma Bovary (3:03 AM) :
hahaha
é bem por aí

JP (3:04 AM) :
aliás, tem coisa mais esteticamente perfeita do que uma página em branco? muita pretensão querer entupir isso de palavras.

Emma Bovary (3:05 AM) :
não é querer. é ter que.
Emma Bovary (3:05 AM) :
fazer o quê?

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:16 AM


Sexta-feira, Maio 02, 2003

LSD

Pra começar a ver e só olhar. Amanheceu há pouco. Desligo da multidão - zoológico do inferno - e sento na beira de um lago, emoldurado por árvores e colinas elevadas. Sob a luz da manhã, vejo o reflexo das árvores na água formando um túnel profundo onde troncos viram colunas muito altas, incrustadas no fundo do mar. As nuvens ganham formas no reflexo do lago. Sinto que posso andar por uma escada e entrar nesse túnel de teto verde e chão azul. Vejo um navio encalhado no céu. Uma cidade maia no fundo d'água. Concentro, afino meu olhar e a cidade ganha detalhes, profundidade, está muito longe. Levanto, movimentos lentos, chego na beira do lago. Posso ver seus prédios, tetos lisos, laterais trabalhadas. Estou consciente e sei que é só uma nuvem refletida num lago, eu repito isso várias vezes, mas a imagem é mais forte. Sempre é. A cidade está lá, perdida no fundo. Ou então estou eu no fundo do lago e essas construções imponentes estão firmes na pedra. O mundo ao contrário, um tapete de nuvens, o céu de pedras e areia. O reflexo é só o que existe. Eu vejo o verde das árvores, suas formas e texturas refletidas na água com uma riqueza de detalhes absurda - como que impressas há milhares de anos num cristal perfeito.

Depois de minutos ou horas - não existe mais tempo real - foco o olhar nas folhas de uma palmeira, no fundo da cena. O vento mexe as folhas lentamente. Aos poucos posso perceber o movimento de todas as outras folhas. A floresta começa a dançar, suave, como pequenas dançarinas havaianas em câmera lenta. Eu aumento o alcance da minha visão e vejo o enorme tapete verde se movendo em camadas, num ritmo próprio, ditado pelo vento. As árvores dançam. Não é uma alucinação. Ganho uma visão sem vícios, como uma criança que abre os olhos pela primeira vez. No ineditismo desse primeiro olhar, as cores ganham força, os contrastes entre luzes e sombras ficam gigantescos, pequenas ranhuras criam profundidades enormes e eu posso perceber movimentos sutis como o das folhas que não estamos acostumados a captar. O mais assustador não é ver coisas inexistentes. É ver o que sempre esteve lá, mas nunca vimos. O ácido te conduz a uma experiência muito mais estética do que sensorial.

As gotas pingam no lago sob o ritmo da música, lá no fundo. Criam ondas que se chocam e alcançam meus pés como pequenas minhocas brilhantes refletidas pelo sol. Sentada ao meu lado, a dona desses olhos grandes e multicolores, sorri, linda, levanta os braços, se entretém com um pedaço de árvore, me pega pela mão com carinho. O pavor ficou pra trás e começo a deixar fluir o efeito. Minha amiga faz algum comentário e, quando percebo, já estou nadando nos seus olhos emoldurados por um anel verde escuro, envolvendo esse lago turquesa, profundo. Os olhos verdes ficam maiores do que o resto da existência. Não existe mais nada. Deixo a correnteza levar meu corpo, passo por ondas de nuvens castanhas e finalmente à pupila, um pequeno ralo negro que me atrai como um vórtice sem fuga.

Ainda fiquei fritando por mais umas doze horas, as mandíbulas retesadas e o olhar nervoso.

Depois de uma viagem de carro absurda, o condutor dizendo "minha onda começou a bater agora", latindo para mulheres na rua, um encontro surreal na lagoa e carros quase se chocando, chego em Copacabana ao meio-dia do dia seguinte (hoje é amanhã) e vou almoçar. Vinte quatro horas acordado. Suando, sem camisa, ando na rua num passo histérico, batendo as mãos. Vou pegar dinheiro num caixa eletrônico, está cheio. Uma criança assustada me encara pelo vidro. Eu vejo a mistura do meu próprio reflexo com a imagem da criança, seu par de olhinhos furados. Tento dar um sorriso. A criança continua assustada. Estou vidrado em tudo. O som dos ônibus rasgando a Nossa Senhora machuca os ouvidos. As pessoas passando na rua deslocam um ar muito maior do que seus corpos e eu sinto a presença agressiva de todo mundo machucando minhas costas, causando arrepios de tensão. Chego em casa, ligo o ar condicionado. Fecho os olhos e o som zzzzzzzzzz do aparelho ganha a forma de um retângulo tridimensional, crescendo dentro da minha cabeça. Vejo algumas cores e sombras. Durmo algumas horas, sem sonhar. Mas a viagem continua até a noite, depois que eu acordo e viajo por um bom tempo nas formas de uma aranha no box do banheiro ou nas pessoas dentro de um ônibus, se movendo como macacos num laboratório.

Muito ainda há o que escrever sobre. Tive uma dúzia de epifanias que preciso transcrever com calma. O reflexo disse tipo de experiência no que estou escrevendo há de se notar. Afinal, escrever um livro não é nada mais do que conduzir uma viagem - tentar mostrar o que sempre esteve por aí, mas não se enxerga. O que não se quer, não se consegue ver.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:45 PM
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João Paulo Cuenca/Male/21-25. Lives in Brazil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro/Copacabana, speaks Portuguese and English. Spends 60% of daytime online. Uses a Fast (128k-512k) connection. And likes Música/Cinema.
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