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chico queiroz

Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta. Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.

 

Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003



Quarta-feira, Abril 30, 2003

ARMADA ESPANHOLA

Revista Veja:

Um gigante chegou ao Brasil. É o grupo editorial Planeta, o sétimo maior do mundo, que desde a semana passada conta com uma filial em pleno funcionamento no país. Para iniciar suas atividades, o conglomerado de origem espanhola desembolsou até agora 500.000 dólares e contratou dois profissionais talentosos: Ruth Lanna, que veio da editora Companhia das Letras, e Pascoal Soto, saído da editora Salamandra. (...)

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 6:49 PM

NÃO ESCONDAM SUAS CRIANÇAS

Acabo de chegar do EL CID com Cardosón e el NES.

Que vagão foi esse que passou pelas nossas cabeças? Essas noites divididas, como fases de um jogo. Amanhã vai ser pior.

Chego em casa e ouço o Lobão reclamando, parceria com o Cazuza. São cinco e meia, o sol vai nascer - vazio. Eu não posso causar mal nenhum.

MAL NENHUM
(Cazuza e Lobão)

Nunca viram ninguém triste?
Por que não me deixam em paz?
As guerras são todas tão tristes
E não tem nada demais

Me deixem, bicho acuado
Por um inimigo imaginário
A correr atrás dos carros
Feito um cachorro otário

Me deixem, ataque equivocado
Por um falso alarme
Quebrando objetos inúteis
Como quem leva uma porrada

Me deixem amolar e esmurrar
A faca cega, cega da paixão
E dar tiros a esmo e ferir
O mesmo cego coração

Por isso não escondam suas crianças
Nem chamem o síndico
Nem chamem a polícia
Nem chamem o hospício, não

Eu não posso causar mal nenhum
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim mesmo
A não ser a mim


Ps.: Crédito ao Rafa por ter desenterrado a canção.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 5:40 AM


Terça-feira, Abril 29, 2003

PÓS GRADUAÇÃO

Esse mês começo uma pós em Roteiro para Cinema. É a única que existe no país e rola na Estácio de Sá. O curso tem um ano de duração - o que posterga meus planos de dominação internacional, mas parece ser bem completo e com bons professores.

Também vou começar um curso de roteiro na Academia Internacional de Cinema - ali no Jardim Botânico.

Talvez esses cursos me ajudem a estruturar melhor o livro. Talvez eu faça alguns contatos. Já tenho um roteiro de curta pronto - mas isso até o porteiro aqui do prédio tem.

Vai ser engraçado. Não sei mais como se estuda.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 5:00 AM


Sábado, Abril 26, 2003

DESTERRO

Esse JP ta me dando nos nervos. Nasceu no mesmo dia que eu e me persegue. Incansável. Aparece nos lugares, enche a cara, troca meus pés pelas mãos. Fala besteira. É um puta bagaceiro. Enche o saco por uns dias, depois some. Volta sujo como um cachorro da rua, pede comida. Senta aqui e escreve umas babaquices de dar dó. Faz bagunça. Eu chego em casa e ainda tenho que aturar. Mas antes de enterrar, vou fazer um leilão. Sei de gente querendo comprar - há quem pague bem. Mesmo assim eu abaixo o preço. Só na honestidade.

Levanto. No travesseiro, pedaços de pele. Sento na beira da cama e ajudo a arrancar a cobertura do meu corpo, cada vez menos resistente às unhas. Aos poucos vou me largando por aí. Os pedaços soltos pelos lugares mais improváveis. Alguns servem pra encher papel, viram palavras. Outros, ventam por aí. Vão agitar o cabelo de uma morena.

E eu, cada vez mais descortinado. Frio.

Alberto levanta o copo - Fica quieto, animal. É só casca.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 9:56 PM

DUREZA

Essa semana encontrei meu editor e pude ver como estão bonitos os lançamentos da editora. O livro terá capa dura. Sozinho, ficará de pé. Se não se sustentar pela qualidade, pelo menos servirá para matar um inseto grande ou deixar uma criança inconsciente. Demoro pra me acostumar com a idéia de que esse arquivo de word vai virar tinta e ser lido por uma multidão de rostos em branco.

Bebemos no Bar Carente (corruptela para Bracarense, boteco à prova de adultério - só tem mulher feia) e depois rumamos para o incansável Jobi. A madrugada ficou longa, entre copos e papos literários e nem um pouco. Escrever acaba tendo muito mais a ver com viver do que com o tempo que eu passo aqui, mascando essas teclas. Antes de encontrar o mestre Paulo, fui numa bocalivre no CCBB, vinho o suficiente para coroar um feriadão de excessos, muita bebedeira e nenhum momento pra escrever - mas idéias novas, ainda em maturação. Benvenutti acabou levando meu fígado pra Porto Alegre, num saco plástico rasgado.

Tenho escutado VOZES aqui dentro - E aí, rapaz? Onde você vai enterrar esse peito hoje? Essa caixa de sapatos apertados. O que você vai fazer dessa noite? Horas cada vez mais longas. As pessoas aqui dentro desse bar, essa boate decrépita, paredes descascadas, todas se perguntam, que porra ele vai fazer hoje? Essa gente sabe que suas pernas chegam onde não podem. Você tá fora. E eles, baixinho, qual é a desse cara? Seguem tuas costas com olhares calados. Onde ele vai se meter? Como dorme? Onde? Com quem? Qualé a tua, mermão? Vai encarar? Vai ficar quieto?

Perguntam sem querer resposta. Só por perguntar.

Enfim, a capa dura...

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 2:56 AM

JB

Saiu mais essa no JB de ontem, inclusive citando meu nome:

Mais opções para os leitores

Líder no mercado da América Latina, a editora espanhola Planeta enfrenta no Rio o desafio de editar também autores estreantes

Um dos dez maiores conglomerados editoriais do mundo, a espanhola Planeta chegou ao país disposta a abocanhar boa parte de um público que hoje movimenta cerca de US$ 2 bilhões em livros. Com mais de 50 anos de experiência, a empresa atua globalmente, com mais de 20 editoras espalhadas por diversos países, como a badalada Dom Quixote, de Portugal. Esta semana, quatro dos primeiros livros do catálogo brasileiro foram distribuídos para as livrarias, incluindo a estréia em prosa de Manoel de Barros Memórias inventadas: a infância, com iluminuras da filha, Martha Barros, e o romance da escritora portuguesa Inês Pedrosa, Fazes-me falta. Os dois autores estarão no estande da Planeta na Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro, de 15 a 25 de maio. A Planeta pretende lançar 45 títulos até o fim do ano.

Antes de entrar no mercado brasileiro, os espanhóis da Planeta fizeram uma cuidadosa sondagem nos bastidores. O grupo tentou comprar grandes editoras nacionais, seguindo a onda de fusões do setor. Mas acabou optando por uma operação inédita em sua história de líder de mercado em toda a América Latina: montar uma editora do zero, num país de língua não-hispânica, contando com o respaldo de uma equipe jovem. E mais: com a proposta de lançar títulos afinados com o gosto do leitor brasileiro, incluindo de best-sellers a autores inéditos. Para o jornalista Paulo Roberto Pires, um dos editores brasileiros ao lado de Ruth Lanna (ex-Companhia das Letras) e Pascoal Soto (ex-Moderna), trata-se de um desafio:

- A Planeta é uma editora brasileira com capital estrangeiro que está apostando num mercado grande, variado - resume.

(...)

Segundo Pires, é em nome da liberdade de se criar projetos que se afinem com o mercado brasileiro que a editora está também apostando em nomes novos, muitos garimpados em blogs da internet. Autores jovens que antes só tinham se aventurado no mercado virtual foram pinçados pela Planeta Brasil, que lança, em breve, inéditos como João Paulo Cuenca. A eles se somarão autores já consagrados em suas regiões de origem, como a gaúcha Cláudia Tajes, autora de Dores, amores e assemelhados, que estreará na Planeta com O doador.

- É claro que trabalhar com autores inéditos ou em começo de carreira dá mais trabalho, mas isso é parte do desafio - explica Paulo Roberto Pires.

(...)

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 1:18 AM


Sexta-feira, Abril 25, 2003

PLANETA

Começou a divulgação do lançamento da Editora Planeta. Meu editor, Paulo Pires (Pirex, para os íntimos), já está dando entrevistas para meio mundo, ocupadíssimo e está difícil de se encontrar, como aquelas mulheres que a gente quer comer e que não nos dão bola.

O fato é que a boca livre é no dia 15 de maio, no Marimbás e que nesse mês começo o processo de edição.

Ontem saiu no Segundo Caderno do Globo:

"Editora espanhola promete para este ano 45 livros até dezembro e para 2004 já estão programados mais 75

A editora Planeta está chegando no Brasil com ousadia, coragem e bom gosto, mostrando que veio para ficar. Sua instalação em nosso país traz a marca da experiência de uma empresa quase que cinqüentenária (foi fundada há 49 anos) que não se dispõe a aventuras ou brincadeiras. Longe de uma chegada predatória, no que diz respeito a preço ou adiantamentos, o primeiro grupo editorial da Espanha e sétimo no ranking mundial quer encontrar seu espaço entre nossas grandes editoras apenas com o tradicional trunfo dos ótimos livros e belos projetos gráficos.Para a Bienal do Rio, foram programados 14 títulos de uma só vez, que serão apresentados ao público num acolhedor estande de 22 metros quadrados, sendo que quatro deles já se encontram prontinhos e estarão nas livrarias até sábado. Já até dezembro a promessa dos editores brasileiros (Paulo Roberto Pires, Paschoal Soto e Ruth Lanna) é a de que hão de pôr nas prateleiras das lojas do ramo, ao todo, 45 livros com o simpático selo redondinho, estilização gráfica de nosso misterioso planeta azul.

(...)

Mas muitos mais livros, é claro, estão por vir, concebidos por Ruth, Paulo e Paschoal, criadores que tiveram que realizar um verdadeiro tour de force para chegar à Bienal de forma consagradora, pois tudo começou em outubro do ano passado. Este "tudo", na sede da Planeta espanhola, chama-se o "Projeto Brasil", o único projeto da editora em outra língua que não o espanhol, no mundo. Em Portugal, a Planeta está presente também, mas para isso comprou a editora Dom Quixote. No Brasil, depois de muito namorar a Record, a direção do grupo, que tem forte presença em toda a América Latina, resolveu começar do zero.

E se começar do zero está dando trabalho, por outro lado está dando muita alegria, até pela liberdade em criar. Alegria essa que será festejada com dança no Rio, no Clube Marimbás, no dia 15 de maio, o do início da Bienal."

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:39 AM


Domingo, Abril 20, 2003

QUESTIONAMENTO

"Creio que nos relacionamentos, principalmente nos afetivos, é instigante sempre ter algo a descobrir no outro, quando já sabemos tudo dá um certo fastio, por outro lado quando conheço uma pessoa e esta deita a falar só e apenas dela própria sinto uma certa rejeição e qualquer traço de empatia inicial vai pras cucuias. Gostaria de saber como isto funciona com o público leitor, há escritores que falam em terceira pessoa, outros em primeira através de um personagem, outros não escondem seu protagonismo e fazem de sua obra uma exposição e tanto. Tem analisado como vc lida com isto? digo, como administra seu traço, se é com reservas que instiguem ou quer mesmo se expor sem aparentemente se preservar? Creio interessante pensar nisto do ponto de vista da atratividade do teu texto, aqui funcionaria aquele processo de atenção, interesse, desejo e ação (de lê-lo) com os ruídos e ecos pertinentes, uma correta equação daria livros mais vendidos mas creio que estes aspectos da comunicação com o leitor jamais devem perturbar nem castrar tua espantosa lucidez e criatividade, agora, por outro lado está a questão de cuidar do que falamos e com quem o fazemos."

Acho que não existe relacionamento afetivo com o leitor. Esse jogo não é jogado. E se fosse, eu não teria como. Ando bastante direto. O processo é "simplificação das emoções".

Aliás, vai soar como tipice, mas quando tenho que escrever, essa entidade, "o leitor", simplesmente não existe. "Striptease pra cegos", como disse uma amiga. Se há algum leitor, sou eu. E esse cara é mais crítico do que qualquer um. No fundo essa merda toda é um grande espelho, a página em branco do word é um espelho e os olhos de vocês, lendo isso aqui, são pequenos espelhos. Eu vou construindo meu reflexo com palavras. E quando o traço sai torto, feio, soa mal, não pelo desenhista ser ruim, mas pelo objeto ser sinuoso demais... É angustiante. Outra coisa que pretendo mudar é esse jeito absurdo de escrever - não pode ser uma atividade tão atormentadora. Será que eu preciso desenrolar meu intestino grosso cada vez que abro isso aqui?

Outro dia me comentaram que os horários desses posts são os mais loucos, cinco da matina e por aí vai. Hoje escrevo de manhã. Mesclado, anfetamina e o gim de ontem não me deixaram dormir mais do que quatro horas. Acordo e tomo duas neosaldinas. Pá! Feliz Páscoa. E hoje ainda subo o corcovado - de escada rolante.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 10:01 AM


Quinta-feira, Abril 17, 2003

NÃO VAI PRESTAR

Hoje chega a esse lar de Copacabana City, direto de Porto Alegre, o colega de letras e trago, Marcelo Benvenutti, escritor de Vidas Cegas (pela espetacular Livros do Mal) e colunista da Fraude. Definitivamente essa casa está se tornando abrigo de celebridades exóticas e sensualíssimas do sul do país e do resto do planeta.

A agenda de Benvenutti, o Contador Louco da Zona Norte, está em aberto e, acreditem!, isso é um perigo.

Ah! Eu me sinto "jovem"! Sinto o frescor da junventude, como se estivesse setenta anos e me lembrasse de hoje. É um sentimento deslocado - como tantos.

Vou ali comprar Plasil.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 6:34 PM


Quarta-feira, Abril 16, 2003

LIMBITROL


O relógio bate onze horas, sei que é o início de uma noite muito mais longa do que eu gostaria. O quarto está escuro e a única luz, que reveste as paredes de um azul estranho, é a do monitor, colado à janela. Eu abro a cortina e vejo outras muitas janelas, os prédios em frente, os sons da rua que chegam baixinho, a maresia cheirando forte e, atrás do fog do lido, o mar riscando o mundo em dois. Estou relendo, revisando e quando passa da página cinqüenta, o negócio começa a ficar extenuante. Sem comer há umas dez horas - aboli a janta, tanto como convenção social quanto biológica - mas não sinto fome. O Limbitrol bate em quinze, vinte minutos. Minha cabeça fica pesada. Aumento o som. Aos poucos as palavras que me agridem passam a se revestir de uma outra dimensão. Gritam mais baixo. A música fica baixinha, eu aumento o som novamente. Ganho uma imunidade temporária. Posso ir além, ler e escrever coisas que estavam guardadas. Trechos que viraram tabus terríveis. O pior dos fantasmas que se pode ter é si mesmo. E escrever é ter isso descortinado de um jeito que eu não sei se vocês vão entender.

Enfim, agora eu já estou envidraçado, vou ganhando distância dos meus sentimentos. Grogue, me vejo de longe. Um otimismo besta passa a permear tudo. Eu sei que é idiota, mas aproveito. Ao mesmo tempo, a concentração fica mais escassa - eu posso ficar alguns minutos olhando fixo para o monitor desfocado ou pra uma janela vazia. Quando acordo e foco, o texto fica bonito, mais elegante, flui melhor. Aproveito, porque logo vai me bater sono. Vou dormir e, por alguns momentos, me esquecer de competir com o mundo. Enquanto a cabeça pesa e a boca seca, minhas perspectivas melhoram. Posso escrever isso tudo de novo se for preciso. Eu faço tudo de novo. E vai ser melhor. Nem que seja de mentira e plasficado - escafandro de mim mesmo.



posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:04 AM

RAIVA

Umas das minhas forças motrizes é a RAIVA. Em estado puro, genérico, sem julgamentos embutidos, sem culpados, simplesmente raiva, fluindo pelo meu sangue, corroendo meu corpo e alimentando os dedos que entopem esse teclado de absurdos. Não adianta lutar contra esse redemoinho que eclode por aqui, ingênuo e imperativo como uma criança com fome. É só questão de encontrar um canal. E quando eu deságuo num texto, desligo isso aqui e fica tudo mais macio.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 12:01 AM


Segunda-feira, Abril 14, 2003

CRENÇA

Eu acredito em ócio criativo.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:01 AM

SEMI-TRANCE

Outro dia me passaram o "Essentials of Spontaneous Prose" do Kerouac. Rolam umas coisas lá que não concordo, mas quando ele fala em "mental state", me identifico completamente.

Deixa o homem falar: "If possible write "without consciousness" in semi-trance (as Yeats' later "trance writing") allowing subconscious to admit in own uninhibited interesting necessary and so "modern" language what conscious art would censor, and write excitedly, swiftly, with writing-or-typing-cramps, in accordance (as from center to periphery) with laws of orgasm, Reich's "beclouding of consciousness." Come from within, out-to relaxed and said."

Meu melhor sempre vem assim, vomitado, sem controle ou filtro. Muitas vezes o texto pega caminhos inesperados e eu acabo me metendo nuns buracos de onde não sei sair. Mas improviso, driblo e... logo estou em outro lugar, mais louco do que o anterior. É freqüente ficar mascando idéias durante semanas. Um ponto de partida, frase, cena ou imagem... Quando sento pra botar no papel, surgem mil outras coisas, como se a prosa fosse uma linha se desenrolando oblíqua, riscando o chão aleatoriamente. Nunca sentei e comecei a escrever algo sabendo exatamente os caminhos e como iria terminar. Não sei se devo invejar quem consegue planejar tudo e escreve um livro como um engenheiro constrói uma casa. Imagino que essa falta de planejamento refresca o texto e pode deixá-lo mais vivo, brilhante. Gosto da sensação de não ter exato controle sobre o que escrevo, como alguém que dirige um carro com a direção empenada ou com as rodas desalinhadas. Sei que estou correndo riscos, mas eu só sei brincar disso assim. Buscando dominar a narrativa sem ser dominado por ela - ou seria exatamente o contrário?

Kerouac também dita, em 30 itens, a sua "Belief & technique for modern prose". Bonito, bobo e engraçado pra caralho. Particularmente, preciso prestar atenção nos itens 3 e 29. :-]

1. Scribbled secret notebooks, and wild typewritten pages, for yr own joy
2. Submissive to everything, open, listening
3. Try never get drunk outside yr own house
4. Be in love with yr life
5. Something that you feel will find its own form
6. Be crazy dumbsaint of the mind
7. Blow as deep as you want to blow
8. Write what you want bottomless from bottom of the mind
9. The unspeakable visions of the individual
10. No time for poetry but exactly what is
11. Visionary tics shivering in the chest
12. In tranced fixation dreaming upon object before you
13. Remove literary, grammatical and syntactical inhibition
14. Like Proust be an old teahead of time
15. Telling the true story of the world in interior monolog
16. The jewel center of interest is the eye within the eye
17. Write in recollection and amazement for yourself
18. Work from pithy middle eye out, swimming in language sea
19. Accept loss forever
20. Believe in the holy contour of life
21. Struggle to sketch the flow that already exists intact in mind
22. Dont think of words when you stop but to see picture better
23. Keep track of every day the date emblazoned in yr morning
24. No fear or shame in the dignity of yr experience, language & knowledge
25. Write for the world to read and see yr exact pictures of it
26. Bookmovie is the movie in words, the visual American form
27. In praise of Character in the Bleak inhuman Loneliness
28. Composing wild, undisciplined, pure, coming in from under, crazier the better
29. You're a Genius all the time
30. Writer-Director of Earthly movies Sponsored & Angeled in Heaven





posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:45 AM


Quinta-feira, Abril 10, 2003

NOME

Algumas pessoas me perguntam o porque de Carmen. Imaginam que é a corruptela de um nome feminino que me atormenta ou me questionam se o nome tem relação com a ópera de Bizet. Não e não. Carmen, o nome da protagonista (das protagonistas, na verdade) é o nome da minha avó materna. Alberto, o nome do protagonista é o nome do meu avô paterno. Esse casal improvável surgiu num momento de bebedeira, quando imaginei o que poderia ter acontecido se esse par de avôs se encontrasse, quem sabe num cruzeiro pelo atlântico sul, trepasse e tivesse um filho. Esse filho, meu tio por parte de pai e de mãe, seria uma corruptela estranha dos meus pais. Será que isso já aconteceu? Enfim, idéia de maluco.

Adoro esse nome. Estou pensando em outros nomes pro título do livro, mas Carmen é a protagonista e eu nem consigo mais enxergá-la com outro nome. Ela também já virou uma corruptela estranha de várias coisas

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:30 AM

INSPIRAÇÃO

Agora que finalmente estou desempregado, começo a perceber melhor o que me inspira e me dá espaço mental pra escrever. Qual o tipo de ambiente que me dá idéias e qual o tipo que me subjuga, reprime. Ontem, passei a tarde com uma amiga minha, gringa, e levei a menina pra passear no centro, entrei em várias igrejas, Paço Imperial, Arco do Teles, Confeitaria Colombo etc. Depois subimos no bonde até Santa Teresa. As crianças subindo no bonde, dependuradas, pegando carona, um caos organizado dentro do vagão tremulo, o sol se pondo e a cidade se abrindo, entre morros, lá embaixo. Fazia muito tempo que não subia de bonde. Mais pra noite fomos num samba, no Semente, exatamente sob os arcos. Um clima ótimo, boa música, boa gente, músicos excelentes e felizes no que faziam, mulheres realmente lindas, pouco vestidas, sem maquiagem, sambando aquelas bundas bonitas, sorrisos pra todos os lados... Ainda estava de ressaca do dia anterior, mas bebi algumas boemias e, de repente - pá! estava cheio de idéias. Santa Tereza me abasteceu e o samba na Lapa me alimentou com suas letras diretas, simples, universais e pessoais, eternas e imediatas. Acabei a noite no Nova Capela, sempre ele, comendo bolinho de bacalhau e beliscando uma sopa de palmito - espetacular. Fomos expulsos do bar - quem já foi no Capela sabe que isso é uma proeza. No dia seguinte, acordei feliz.

Enfim, agora eu tô nessa. Vou tentar ficar fora de boate indie e discotecagem de rock. Tem uns lugares aqui no Rio que parecem ter um cemitério indígena enterrado. Bad Karma.


posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:01 AM

REVISÃO

Depois de algumas horas revisando, reescrevendo e incluindo novos textos, esse teclado está cheio de cabelos. Meus. É um inferno ter que lidar com todos esses fantasmas no momento exato em que eu gostaria de sair daqui por essa janela e passar algumas vidas longe de Copacabana e de todas essas histórias de Carmen, circulares, infernais. É uma coincidência atroz ter que reler tudo isso agora. Esse personagem não cabe mais. Eu leio e me perco em culpa, autocomiseração, fico puto, saio pra tomar um chope, volto, ando na praia, dou socos na parede, volto, tento avançar mais um pouco, mas me dá nojo - eu simplesmente não consigo me distanciar dessas palavras que ganham vida, pulam dessa tela em branco e me atormentam, agudas, no ponto certo. No futuro quero ser menos pessoal. É assustador ler coisas que escrevi há dois anos ganharem proporções totalmente diferentes. Sei que tudo vai mudar. Essas páginas vão ganhar outro sabor. Talvez eu ache esse material uma merda em alguns anos. Mas hoje me agrada. Em alguns momentos, esbarro em certezas sobre o texto, um esboço de satisfação. Dói e não é fácil, mas me agrada e quando eu consigo escrever mais de uma, duas páginas por dia, como hoje, sou tomado por uma felicidade estranha e solitária, dentro desse quarto vazio, olhando esse mar vazio, esses apartamentos e janelas vazias, esse mural vazio de retratos, o armário vazio, os cabides vazios... Mas olho pra dentro de mim e sei que estou transbordando como NUNCA.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 3:40 AM


Terça-feira, Abril 08, 2003

PRA VOCÊ DORMIR, PRINCESA

Ainda sobre Espinosa...

"Espinosa não é daqueles que pensam que uma paixão triste tem algo de bom. Antes de Nietzche, ele denuncia todas as falsificações da vida, todos os valores em nome dos quais nós depreciamos a vida: nós não vivemos, mantemos apenas uma aparência de vida, pensamos apenas em evitar a morte e toda a nossa vida é um culto à morte"


posted by JOÃO PAULO CUENCA | 8:30 PM

ESPINOSA E PAIXÕES TRISTES

Gilles Deleuze escreveu nos anos setenta um livro sobre um filósofo do século dezessete, Espinosa. Saiu aqui pela Editora Escuta. O livro é bom, embora tenha um glossário enorme no meio - acho que existem formas melhores de se organizar idéias e conceitos do que simplesmente colocá-los em ordem alfabética.

Mas a coisa que mais me chamou atenção na "filosofia prática" do Espinosa, que com certeza o nosso amigo bigode leu até secar a última letra, foi o conceito de "paixão triste". Ao contrário do que possa parecer, esse conceito de tristeza não carrega nenhuma moral intrínseca ou oposição entre bem e mal. Espinosa é um imoralista. Não acredita em Bem ou do Mal puros, mas em relações boas ou más entre dois corpos, duas pessoas, relações que podem se compor ou não.

"O bom existe quanto um corpo compõe diretamente a sua relação com o nosso e, com toda ou com uma parte de sua potência, aumenta a nossa. Por exemplo, um alimento. O mau para nós existe quando um corpo decompõe a relação do nosso, ainda que se componha com as nossas partes, mas sob outras relações que aquelas que correspondem à nossa essência: por exemplo, como um veneno que decompõe o sangue."

A filosofia espinosista pretende denunciar o que nos orienta contra a vida, "envenenada pelas categorias do Bem e do Mal, da falta e do mérito, do pecado e da remissão": culpa, ódio e... estamos chegamos nas paixões tristes.

Todo sujeito é um grau de potência, uma essência singular, que tem poder de afetar e ser afetado por outros. Um dos tipos de afecções estabelecidas por esse indivíduo, não explicadas pela sua essência ou natureza, derivando do exterior, é a paixão. A paixão (qualquer paixão, inclusive as provocadas por tiranos e padres) preenche nossa capacidade de sermos afetados e nos separa da capacidade de agir. A grande cagada é que, quando encontramos um corpo exterior que não se compõe com o nosso, ocorre uma subtração da nossa potência. Já quando encontramos um corpo que nos convêm, ocorre a adição da potência desse corpo ao nosso. É uma paixão alegre.

As paixões tristes, sejam lá quais forem, "representam o grau mais baixo da nossa potência: o momento em que estamos separados ao máximo de nossa potencia de agir, altamente alienados, entregues aos fantasmas da superstição e às mitificações do tirano." (!)

A Ética de Espinosa diz que somente a alegria é valida, só ela permanece e nos aproxima da ação. A paixão triste é sempre impotência.

Ahá! Só que não é moleza só escolher paixões alegres. Então Espinosa define três problemas práticos em sua ética:

- Como alcançar o máximo de paixões alegres
- Como conseguir formar idéias adequadas
- Como chegar a ser consciente de si mesmo, de Deus e das coisas

O foda é que a gente parece sempre condenado aos maus encontros, às tristezas e a ter de nosso espírito e de nosso corpo idéias inadequadas. Além disso, A NOSSA CONSCIÊNCIA PARECE SER INSEPARÁVEL DE ILUSÕES.

Éééé, mané.... Meu livro e TODA a literatura ocidental versam sobre paixões tristes.

Estou criando ilusões sobre outras. Carmen é um espelho refletido em si mesmo, distorcido, quebrado e... triste.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 8:23 PM


Sábado, Abril 05, 2003

JOGANDO BOLA

Às vezes vou à praia de Copacabana, sento no calçadão e fico vendo os moleques jogando bola. Posso ficar horas, esqueço de tudo. Os menores não jogam porra nenhuma, mas todos têm aquele jeito de craque, cheios de ginga e malandragem. Imagino que estou no jogo, penso em me colocar pra receber um passe, fazer um gol.

O único jogo importante que disputei na vida, venci. Era a última partida do colégio, a última aula de educação física da história da humanidade, a derradeira chance de vencer, catapultando-se ao Olimpo, ou ser condenado à humilhação eterna. Dois times que sempre se enfrentavam com raiva, uma rivalidade ideológica dentro do campo e da sala de aula. Antes do jogo, clima pesado, olhares de desprezo. Na partida, dei passes, fiz três gols. Depois disso, amaldiçoado, nunca mais consegui jogar bola direito. Sou um pereba.

Acho que tocar guitarra pra mim é como jogar bola. Mas a guitarra é a bola que eu sei jogar: domino, faço embaixadinha. Se bobear, dou olé. Tenho a mesma sensação do moleque ali na areia. Nesse sábado, completo setenta shows com o Netunos. A banda já me levou a alguns estados do país. Muitas histórias pra contar. Neste ano temos shows agendados em São Paulo (maio) e esperamos fechar datas no Sul e na região central.



Depois, se o livro sair como previsto, viajo pra lançar "Carmen" por aí, ainda esse ano. No mínimo em PoA (ver post lá embaixo) e em SP.

Sobre escrever... Estou certo que não tem nada a ver com jogar bola ou tocar guitarra. É uma atividade solitária, tormentosa. Você toca a bola e só recebe de volta meses depois, se receber. Mas, quando recebe, é mais gratificante do que qualquer outra coisa.

posted by JOÃO PAULO CUENCA | 5:46 AM

BIGODE

Quando estou numa fase de escrever ou de pensar em escrever, gosto de ler o mínimo possível. Lendo, procuro filosofia, biografias ou ensaios. Nesses últimos tempos andei fuçando Nietzsche, o que li com maior atenção foi seu Ecce Homo, dobrei várias páginas, fiz marcas, uma puta lambança com o livrinho, edição baratinha da Martin Claret, 10 pila na banca de jornal. O texto é forte, atual e pessoalíssimo, em alguns momentos soa como um diário (imaginem Nietzsche escrevendo um blog). Fico imaginando o que deve ser ler isso em alemão:

"Poderei aventurar-me a indicar ainda um último traço do meu caráter, que me causa não pequenas dificuldades nas minhas relações com os homens? Eu sou dotado de uma irritabilidade absolutamente inquietadora diante do asseio, tanto assim que sinto fisiologicamente a vizinhança ou - como dizer? - o íntimo, as vísceras de qualquer alma: adoro-as."

Nietzche depois fala como gosta de tomar banho, "em situação pouco asseada morro" e conclui, lapidar: "Isso tudo conduz por vezes a minha paciência a provações duríssimas, nas relações que mantenho com os homens; a minha humanidade consiste não em simpatizar com os outros homens, mas em suportar a sua proximidade... A minha humanidade é uma vitória contínua sobre mim mesmo."

Soa contraditório, não? Que humanidade é essa? Eu apostaria que o homem gostava de cheirar o próprio suvaco. Mas calma... Parece cruel, mas Nini era um cara sensível. Se você ler direito, sai dali mais vivo, em contato com uma realidade mais autêntica, livre, própria, podendo ser VOCÊ mesmo, sem culpas.

O lance do asseio é detalhe, peguei pela graça. O mais chocante no texto é que o bigode esculacha tradições milenares e coisas atualíssimas com a mesma propriedade. Baixa o pau na moral cristã, na ciência e em meio mundo. Te deixa sem chão, atordoado, com cara de babaca. Não é leitura prum momento difícil. Quando o bicho começa a pegar, eu largo e vou me alienar um pouco, rezo um pai nosso e vou tomar um chope na beira da praia.

Aliás, falando em chope... MORTE a quem discute filosofia em mesa de bar. Isso só não é mais chato do que tocar violão em festa de apartamento.



posted by JOÃO PAULO CUENCA | 5:18 AM


Sexta-feira, Abril 04, 2003

ECO

Fiquei sabendo que um texto meu está fazendo parte da bibliografia de um curso na Escola de Comunicação da UFRJ.

Ou seja: as meninas vão tirar xerox do que escrevi e estudar sob lençóis, no ônibus ou na biblioteca. Pode parecer deslumbre, mas pra mim é fantástico.

Hoje e amanhã, prometo brindar intensamente a isso.


posted by JOÃO PAULO CUENCA | 4:09 PM

PORTO ALEGRE

Andar por uma cidade desconhecida e agradável, que carrega o ineditismo de uma nova amante, com curvas a serem exploradas e milhares de cheiros e sabores a se escrutinar, me ajudou a ganhar distância disso aqui e um novo ímpeto criativo pra escrever e olhar essa merda toda debaixo do meu colchão com outros olhos. Tive algumas idéias que rascunhei e confesso que vou precisar resistir para não colocar algo de Porto Alegre no papel (isso aqui não é papel, é blog, então não conta).

Porto Alegre se abriu pra mim de um jeito bastante diferente do que poderia imaginar - pequena, mais amistosa e alegre, esparramada sobre um plano reto, amplo, de céu claro, brilhante, às margens do Rio Guaíba, "mas é uma lagoa..." Eu esperava encontrar uma cidade maior e mais densa, cinzenta, britânica. Mas encontrei caminhos livres, cheios de árvores, casas e prédios baixos, onde se anda por calçadas largas sem esbarrar numa multidão. Mesmo no centro, as ruas não têm o clima superpopuloso de uma megalópole. É uma cidade grande, mas conserva um feitio interiorano, onde se conhece o garçom pelo nome e não se caminha pelo Bonfim sem encontrar um rosto familiar.

Outra imagem que caiu completamente por terra foi a de que o povo gaúcho é reservado e desconfiado. Em geral, esperava encontrar algo como um mineiro mais grave, sisudão. Topei com gente aberta, atenciosa, interessada em puxar papo e em dez dias de Porto Alegre ouvi de uma total desconhecida, na porta do Bambus, tradicional reduto under da cidade, "você é que é o JP, do Rio?" Por aqui um forasteiro não ganha um nome ("o JP, do Rio") assim tão rápido. O gaúcho não é um povo fechado. Fiz amizades espontâneas e rápidas. Em alguns tragos, já me encontrei falando e ouvindo intimidades, sacanagens, papo furado, aberto, fluente, rompendo pela madrugada em carros velozes, rasgando esquinas tortas, motoristas bebuns, caronas pendurados pela janela, gritando absurdos, fumando maconha dentro do carro, na rua, comprando a erva (barata e muito boa!) na calçada, da mão de traficantes pueris - uma marginalidade quase infantil. O traficante de calçada na Osvaldo Aranha é um anjo pubescente ao lado do sujeito que te aborda na Lapa ou na Atlântica. As putas da Farrapos são ladys educadíssimas, ainda que baratas, perto do que se vê na Prado Júnior, a um quarteirão daqui. Esse clima de marginalidade tranqüila e normalidade nas ruas me faz pensar que vivemos numa regime policial aqui no Rio, onde não existe noite sem sirene, blitz. Em Porto Alegre, podia passar mais de um dia sem ver um policial - os quase inofensivos "brigadianos".

Nos bares e dentro das boates, as cervejas são vendidas em garrafas. Quase não vi chope à venda, o que é grande vantagem - acho o sabor do chope fraco, só presta se for muito bem tirado. Sempre enchi a cara com Polar, uma cerveja cremosa, ótima. Não tem coisa parecida por aqui. Mas tem uma ceva ainda melhor, delírio total: Serra Malte. Deu vontade de comprar um engradado pra embarcar no bagageiro do avião.

A comida é sempre farta e muito barata. Um rodízio custa cerca de sete reais. É o preço médio. Comi e bebi como um animal nesses dias de Porto Alegre. E os churrascos na casa do Cardoso foram antológicos. Aliás, nunca fui tão bem recebido dentro de uma casa. Memorável e inesquecível a hospitalidade da família Czarnobai. Guardarei isso pra sempre comigo.

Numa terça, com a guia mais incrível de Porto Alegre, andei desde o Bomfim até o centro, Rua da Praia, centros culturais, o hotel, cujo nome me foge, onde o Mário Quintana morava, com uma puta vista do rio, imaginei o que devia ser morar num hotel (naquele hotel!) nos anos cinqüenta, preciso lembrar de morar num hotel um dia desses, e caminhamos até um tipo de mercado central, enorme, várias lojas de salame, temperos, frutas, peixes, uma confusão de cheiros dentro do prédio recém reformado, almoçamos no Bar Naval, lembrava muito um bar tradicional da Lapa aqui no Rio, bolinho de bacalhau excelente na entrada, feijão antológico no prato do dia, poemas gauderíssimos pendurados na parede - de autoria do dono do bar que veio nos atender, uma simpatia.

Algumas ruas, praças, construções militares, igrejinhas, e logo estou no Gasômetro, uma velha usina de gás (virou um centro cultural), de frente pro Guaíba e aquele pôr do sol inacreditável, nítido, luminoso, cheio de cores, bem acompanhado. Ali o céu vai mais longe.

Hoje, uma semana depois, a viagem chega macia na minha lembrança, uma sucessão de momentos agradáveis, fim de noite no Van Gogh junto com os piores vagabundos e cheiradores da cidade, a interminável quantidade de cerveja na Lancheria do Parque, quase diariamente, seu sanduíche de salame prensado, passeio até um lugar chamado Belém Novo (ou velho?) no meio do mato, muito verde, o rio, e a maconha espetacular do Cardoso, a noite intensa na Farrapos e no Vanda, onde se paga uma merreca e se bebe sem parar com um entorno agradabilíssimo, grandes amigos Hermano, Suruba, amanhecemos comendo baurú num bar com fotos do Brizola na parede, a noite no bar de música negra, Zellig, depois de intensa bebedeira na cidade baixa, gauchas se beijando, puxando papo cheirando lança perfume, grandes papos com o Cardoso, um líder espiritual, agregador de massas, genial, amigo, a fuzel!, ir dormir a luz de velas ouvindo Flaming Lips e acordar ouvindo Flaming Lips, tudo sem pressa, sem luz, linda noite e companhia, as baladas eletrônicas na Casa Amarela, com direito a Live P.A. com integrantes do Zé Maria, a ida ao estúdio quase rural da Bidê ou Balde, grandes amigos, toquei numa Fender Jaguar (uma beleza) com a galera da banda, sem dúvida uma das melhores e mais divertidas do país, funcionando como uma máquina bem azeitada, com punch, consistência e um grande e emocionante segundo disco, depois a viagem a uma cidade chamada Portão onde vi shows legais, a cena de bandas gaúchas é um exemplo, uma quantidade incrível de mulher bonita, o padrão está alterado e nunca mais se alinha, no camarim tomei um grande porre de Kaiser Summer que me fez amargar, entre toda a bebedeira diária, a única ressaca em Porto Alegre, quando acordei e não fazia a menor idéia de onde estava e precisei rebobinar a noite até ir tomar um café da manhã, não sem antes passar numa sapataria urgente para buscar sapatinhos de salto que me dariam intenso tesão, mas era cedo, calor, minha boca seca e a tatuagem escorrendo pelo braço, sim, me tatuei em Porto Alegre, uma hora e meia de violenta dor, valeu pela força, NES!, endorfina na veia, até o ponto de rir e me olhar no espelho, olhos injetados, curtindo essa aflição solitária, vivo, sozinho, bem ou mal acompanhado, mas sozinho, pisando com meus próprios pés, sentindo que o melhor lugar pra se estar é aqui dentro, seja lá onde e como for, nem que seja com uma agulha perfurando o meu braço a centenas de metros por segundo, enchendo a cara com a melhor companhia, olhando para o novo, ou aqui, sentado, quatro da matina, dor de garganta, suado de gripe, escrevendo esse texto. Mesmo uma viagem curta dessas me faz ver que não posso me trocar por nada.

E muitas outras virão. Mas essa marcou época. Eu trouxe Porto Alegre comigo e volto, é quase uma jura, volto logo pra continuar alimentando essa cidade, as pessoas, os amigos e esse espírito em mim.


posted by JOÃO PAULO CUENCA | 5:05 AM
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João Paulo Cuenca/Male/21-25. Lives in Brazil/Rio de Janeiro/Rio de Janeiro/Copacabana, speaks Portuguese and English. Spends 60% of daytime online. Uses a Fast (128k-512k) connection. And likes Música/Cinema.
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