Diário do processo de edição e finalização do meu primeiro livro, "Corpo Presente", pela Editora Planeta.
Aqui pretendo relatar o que de importante acontecer nesses dias, entre detalhes técnicos de edição, paranóias, angústias, bloqueios, motivações espúrias e tudo que envolve o processo de escrever, desde substâncias químicas até joguinhos mentais e auto-ajuda.
Todos os direitos reservados - João Paulo Cuenca, 2003
Segunda-feira, Março 17, 2003
BORBOLETAS
Chego em casa bêbado e tento escrever - é um fracasso. Chapado também não funciona. Drogas e pessoas me ajudam a ter idéias, mas para botar no papel preciso estar sóbrio. E só.
Na semana passada revisei as primeiras cinquenta páginas do livro. Mudei uns trechos de ordem. Cortei um fragmento e usei algumas partes dele para criar uma nova cena, introdutória de Copacabana. Não é muito fácil falar de Copacabana e dessa cidade absurda e caricatural sem soar óbvio. Eu tento evitar, mas isso também soa formulaico. Gostei das mudanças. Ainda faltam amarras e um ou outro desfecho. As cenas são fragmentadas. Vão e voltam. Se confundem. Certas ligações eu mesmo demoro pra perceber. Algumas pretendo nunca fazer.
Não acho que será um livro difícil de ser lido. Normalmente não me importo se o que escrevo vai ser lido ou não. Com o contrato assinado, posso tender a mudar de postura. Mas não posso mudar. Se tenho alguma força, a fonte é justamente essa. Ignorar quem vai ler e como. Até hoje, tendo esse livro publicado só no meu monitor, consegui. Vamos ver se eu sigo em frente.
Esse livro começou a ser escrito em 2001. Trechos curtos que aos poucos foram ganhando a forma de uma coisa só, sem nenhum planejamento ou disciplina. Até hoje, escrevi sem a menor responsabilidade. Idéias que vão ganhando força e, certo dia, saem sem muito atrito. Mas ultimamente não tenho encarado a escrita como algo que me dá prazer. É um inferno. Como ninguém me pauta, só me resta escrever sobre meus fantasmas. E essa lucidez falsa me deixa obsessivo, circular. O livro tem muito disso. Hoje não tem sido agradável reler, escrever, sentir. É como abrir a tampa da fossa e cheirar a própria merda. Pra editar e terminar esse livro, eu estou mergulhando nessa lama. Seria realmente bom sair daqui e mudar de assunto por uns meses. Essas pessoas, essas ruas que eu conheço demais, à exaustão. Dizem por aí que um escritor exorciza fantasmas. Isso é uma mentira. Alguém esquece do que precisa saindo pra beber, conhecendo pessoas e tocando a vida real. Escrever é só mais uma farsa.
Em janeiro desse ano, envolto em crises simultâneas e vivendo um puta bloqueio criativo (logo eu, que sempre achei isso frescura), enviei o rascunho do livro com cem páginas à três pessoas: uma amiga jornalista, editora de uma revista literária, um grande escritor, professor de literatura e tradutor, e um professor, escritor, jornalista e, agora, meu editor. Minha amiga não fez muitos comentários positivos. O grande escritor fez elogios, apontou coisas que podem ser melhoradas, mas o saldo de suas opiniões foi muito melhor do que eu poderia imaginar, o que me deixou orgulhoso e confiante o suficiente pra acreditar que poderia editar esse material. Minha dúvida era se aquele amontoado de situações teria um fio condutor forte o suficiente para ser considerado um livro. O editor, um mês depois, me chamou pra conversar. Almoçamos duas horas num japonês dentro de um shopping e fechamos negócio. Com o tempo, publico aqui mais detalhes sobre isso.